Digestivo nº 447 >>>
O Kindle, o leitor de livros eletrônicos da Amazon, tem gerado respostas ambíguas. Se em uma semana ficamos sabendo que editoras brasileiras, por exemplo, correm para digitalizar seus títulos, em outra descobrimos que editoras americanas, grandes, seguram títulos novos, no Kindle, para que não “canibalizem” suas respectivas versões em papel (nas livrarias). Como na indústria do cinema, onde um DVD (ou, será?, Blu-ray) só está “liberado” para o comércio depois de meses da estreia nas salas de exibição, a Simon & Schuster quer “segurar” seus lançamentos (em capa dura, nos Estados Unidos) durante quatro meses, antes de disponibilizar suas respectivas versões eletrônicas (a uma fração do preço, evidentemente). A Amazon, embora venda, também, as versões em papel, responde que – meses depois – o leitor do Kindle perderá o interesse, ou adquirirá outro título, talvez de outra editora, que esteja disponível eletronicamente... Blogueiros igualmente acusam editoras como a Simon & Schuster – e outras, como o grupo francês Hachette – de criar uma “falsa escassez”, pois “segurar” um livro em versão eletrônica pode, futuramente, equivaler a tentar segurar versões “pirata” de Harry Potter, U2 ou Paulo Coelho, que sempre escapam... E por falar no mago brasileiro, a Veja anuncia que ele foi o “primeiro” autor nacional a suplantar as editoras – e negociar, diretamente, com a Amazon. Não é, obviamente, uma ideia original dele (nem da Veja), é algo que já estava previsto no script: afinal, como escreveu Paul Graham, em setembro, vamos caminhando para um mundo “post-medium” ou, em bom português, “pós-mídia” (física). A Amazon, embora se faça de amiga dos jornais (com o Kindle DX), pode, num futuro, tornar-se, sim, a única editora. Como a mesma Apple pode. E como o Google, também, pode... Para complicar, ainda mais, o raciocínio, surgiu a notícia de que o Kindle ameaça ser “hackeado”... Se os editores, e os autores, brasileiros, em outras épocas, nem sonhavam com a “digitalização”, agora terão de pensar em um melhor argumento que o do “cheiro”, da “textura”, do “gosto”...
>>> Two Major Publishers To Hold Back E-Books
O livro em papel não ficando mais caro, por mim, tudo bem. Essa é minha única preocupação. O Kindle ainda não é confortável como o papel e, sinceramente, é um gadget pra quem não estuda, não lê mais que vinte páginas e acredita que a internet é não mais uma mas "a" fonte de informação, entretenimento e cultura.
As gerações mudam, muita coisa muda, alguns ficam mudos! Chegou o celular, a fotografia digital, a pintura por computador, o Kindle... Poucos conservadores fizeram uso no primeiro momento, mas a nova geração logo se adaptou e aos poucos foram tomando espaço. Empresas produtoras de "filmes" e antigas máquinas fotográficas tiveram que entrar na tecnologia ou entrar em falência. É o caso das Galeiras de Arte, será o caso das Editoras. Não se pode enfrentar o Mar, mas se aliar a ele, navegar por todas as ondas... O que seria do Digestivo Cultural sem a Web? Existem tecnologias que vieram para ficar, as que funcionam, as que trazem melhorias, e ao menos as que atigem boa parte do público, que se renova sempre. Quem for conservador, conservará sua dor, mas quem estiver atento, mostrará seu talento!
Bom, não sei quem escreveu recentemente na Folha de SP, mas concordo: comprar um livro que não é seu... Você compra o livro eletrônico e não pode vendê-lo e ainda corre o risco da Amazon ou da Apple e Cia. simplesmente apagarem o seu livro. O argumento da textura, do cheiro podem não ser tão fortes, mas a propriedade para um bibliófilo é fundamental. E o que dizer dos sinestésicos ou daqueles que necessitam do tato para aprimorar ou ativar a memória? Bem, acho que esta discussão ainda vai longe e não acredito no fim dos livros tão cedo...
Imagino os seres humanos, milênios atrás, discutindo o impacto da mudança da escrita, do barro cozido para o papel... A literatura é óbvio que não morre, o que vai morrer é o livro. Vai virar outra coisa: melhor, na minha opinião.
Esta situação é, em parte, semelhante ao caso do disco de vinil/CD versus MP3, ou seja, o conteúdo é o mesmo, porém a forma é diferente, e quem valoriza o conjunto da obra defenderá sua opinião. Os comentários aqui presentes são excelentes, pois cada um com uma ótica e pontos pertinentes a serem observados. Mas é fato que a mudança ocorrerá, como provado pela gigante Amazon e seu lucro obtido em 2009 e justamente a partir do referido produto, mas não necessariamente a extinção do livro "físico", ao menos a médio prazo.
Faça o seguinte experimento: pegue um Kindle com a edição do "Dom Quixote" e um exemplar de papel do mesmo livro. Mergulhe ambos rapidamente numa piscina e os recolha, pondo para secar; depois deixe-os cair de cima de uma mesa no chão de pedra. Esqueça a textura final de ambos, mas depois conversamos sobre a inevitável extinção do livro de papel e sua substituição pelo aparelhinho aí.
Isto ia acontecer um dia. Sempre que uma nova tecnologia libertadora ameaça o mercado vigente, os que lucram com a retenção do conhecimento se insurgem. Me lembro que quando cursei a faculdade e, sem dinheiro para pagar os preços absurdos dos livros, recorria a cópias (que já eram proibidas). Nos dias de hoje só compro livros de bolso e edições recicláveis, e consumo livros em TXT que leio numa microtela de um MP4. Fora isso, não dá mais. Posso comprar um livro a cada 6 meses e olhe lá... os livros grandes de preços absurdamente abusivos nem pensar...
Não adianta choradeira, a transformação tecnológica é diária, quem não lembra das fitas de filmes? Demorou mas chegou o CD, cadê os videocassetes? Agora é para valer, as editoras estão com seus dias contados, acabou o que era doce (para elas) e vai ficar mais fácil para os novos autores brasileiros. Ler na tela é muito bom e tem proteção contra os olhos, não faz mal, já penaram numa biblioteca, de qualquer lugar, enfileirada: as telas
e as pessoas lendo, pesquisando; é uma novidade que inexoravelmente temos que aceitar; e o nosso Paulo Coelho... saiu na frente. E não pensem que vai ficar nas mãos de uma empresa só, será disputado... porém mais acessível a todos, sem dizer que muito mais barato...