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Terça-feira, 31/8/2010
Além do Mais
Julio Daio Borges





Digestivo nº 470 >>> Caminhos de um Brasil Solidário, de Luis Eduardo e Ana Elisa Salvatore
Naquela idade em que todo mundo descobre o Brasil, Luis Eduardo e Ana Elisa Salvatore descobriram o País também, mas desenvolveram uma relação diferente daquela que a maioria das pessoas desenvolve com o Brasil e os brasileiros. Sua descoberta do País não ficou só em algumas viagens, mas se converteu numa sistemática de percorrer o Brasil de norte a sul, primeiro registrando suas paisagem e seu povo. Luis Eduardo tomou para si a herança do avô fotógrafo e montou, junto com a irmã Ana Elisa, um dos maiores arquivos iconográficos sobre o País nos últimos anos. Fruto dessa iniciativa, O Brasil na visão do brasileiro foi o primeiro livro da dupla, ainda em 2003. O sentimento de descoberta e o registro dos primeiros anos, imediatamente, deu lugar a um instinto de solidariedade — de modo que Luis Eduardo e Ana Elisa concluíram que não bastava apenas mostrar esse Brasil (para os demais brasileiros), mas que era igualmente necessário transformar a realidade dessas pessoas. Nasceria, então, o Trilha Brasil, que combinaria o evento do Rally dos Sertões com ações solitárias — e, posteriormente, o Instituto Brasil Solidário (IBS), que, a partir de uma bem-sucedida iniciativa periódica, lançaria as bases para uma verdadeira ONG. Em 2009, por exemplo, o IBS atendeu 27 municípios, 60 escolas, doando mais de 100 mil livros e levando mais de 20 mil kits escolares. No mesmo ano, o IBS promoveu centenas de atendimentos ginecológicos, oftalmológicos, odontológicos (entregando mais de 20 mil kits médicos). Também em 2009, o IBS plantou mais de mil árvores e distribuiu quase 3 mil cestas básicas. E, ainda no ano passado, o IBS envolveu mais de 2 mil professores e beneficiou mais de 650 mil pessoas em seus projetos sociais. Como se não bastasse, agora em 2010, Luis Eduardo e Ana Elisa Salvatore lançam um segundo livro, Caminhos de um Brasil Solidário (pela editora Melhoramentos). Nele, misturam — com a mesma habilidade de sempre — as incríveis fotos de Luis Eduardo, das paisagens e das pessoas, com as histórias, dele, de Ana Elisa Salvatore e de outros participantes do projeto, como o cartunista, articulista e podcaster Diogo Salles. Caminhos... se divide nas cinco regiões do Brasil e, além de homenagear os lugares pelos quais Luis Eduardo e Ana Elisa se apaixonaram, enfoca alguns brasileiros, que, apesar da distância, eles efetivamente amaram — personagens-símbolo, de uma cultura; exemplos, de uma transformação... promovida... pelo Instituto Brasil Solidário. [Comente esta Nota]
>>> Caminhos de um Brasil Solidário
 



Digestivo nº 466 >>> A Economia das Crises, por Nouriel Roubini e Stephen Mihm
Nouriel Roubini, como pouquíssima gente, previu a crise de 2008, a maior desde a Grande Depressão. De repente, em setembro de 2008, todo mundo acessava seu site, o RGE Monitor, desde Paul Krugman, o futuro Nobel de economia, até a nossa professora Eliana Cardoso, aqui no Brasil. Roubini passara de um profeta do apocalipse para um guru, faturando alto, merecidamente, e rodando o mundo nos anos seguintes. Em A Economia das Crises, no entanto, Roubini tenta mostrar, humildemente talvez, que prever a crise de 2008 estava ao alcance de todos — era óbvio. Roubini muito provavelmente não conheceu Nélson Rodrigues, mas, para ele, o dramaturgo guardaria uma frase infalível: "Só os profetas enxergam o óbvio". Só os profetas, Roubini. O livro, pela editora Intrínseca, é, felizmente, muito mais do que esse argumento inicial. Além de confrontar a crise de 2008 com suas principais antecessoras — ressaltando seus pontos em comum —, A Economia das Crises refaz o passo a passo da chamada "crise do subprime", analisando seus desdobramentos e propondo medidas para conter outros terremotos de igual magnitude (no futuro). Roubini afirma que crises são inerentes ao capitalismo, mas que preparar o sistema financeiro para as próximas décadas é nossa obrigação hoje. Como Anna Schwartz e Charles R. Morris, Roubini alerta para a sensação enganadora de que "a crise já passou" — ou de que "não foi tão grave assim" —, os deficits orçamentários, que cresceram a fim de apagar o incêndio em 2008, podem provocar novos desastres desde a Grécia até a Europa, desde o Japão até os Estados Unidos. Quanto ao Brasil, Roubini elogia o País por ter feito sua "lição de casa" nos últimos governos, mas adverte que há mais por fazer, não se esquecendo, especialmente, da crise de 1998-1999. A Economia das Crises começa melhor do que termina (começa com uma menção ao Cisne Negro, de Taleb, e termina com muitos adendos, uma "conclusão", uma "perspectiva"), mas é leitura obrigatória. Afinal de contas, ainda que "óbvios", os profetas costumam acertar... mais que os economistas. [3 Comentário(s)]
>>> A Economia das Crises
 



Digestivo nº 465 >>> E a Apple virou mainstream (e Steve Jobs, também)...
E por falar em Steve Jobs, ele esteve nas manchetes do Twitter, nas últimas semanas... Primeiro, com a Apple superando a Microsoft em valor de mercado... Jobs, comentou na conferência D8, mostrando-se estudadamente surpreendido mas, bem à sua maneira, fingindo que aquilo não era "tão importante"... Era, sim. Tanto que Bill Gates foi, também, obrigado a comentar, na frente de seu pai, no programa Larry King Live — mas, irônico, preferiu lembrar que a Apple teve "altos & baixos"... (Como se dissesse: "a Apple já quase quebrou; a Microsoft, não".) O fato é que, agora, a Apple não pode mais posar como uma empresa "diferente", de nicho de mercado, porque atingiu a massa (pelo menos nos EUA). Nem pode mais fazer comerciais atacando o "sistema" — como, na época do computador pessoal, atacava a IBM —, porque, na era pós-PC, a Apple virou o sistema. E Steve Jobs, o rebelde de outrora, já age como tirano geek, expulsando a Adobe de seus produtos (iPad e iPhone), numa carta excessivamente pessoal (em que tenta se justificar em vão)... Sem falar na permanente obsessão por controle (monitorando, e punindo, o vazamento de informações)... E, mais recentemente (na mesma D8), ao defender o velho mainstream editorial, e atacar, entre outras coisas, a blogosfera... Tudo bem que se o establishment não tivesse comprado a ideia do tablet, provavelmente ele se restringiria um objeto de culto (como o Kindle)... Mas demonizar a blogosfera é, justamente, conferir-lhe um poder que ela, talvez, nem tem... O tiro saiu pela culatra para Steve... Assim como o do Flash (o que é suficientemente justo não precisa ser justificado). Steve Jobs deveria assinar uma carta de intenções, como a do Google (quando abriu capital na bolsa): "Don't be evil". Não seja, literalmente, "do mal" (não seja a próxima Microsoft); não se associe — como os geeks adoram — ao "lado negro da força"... Mas a corrupção do mainstream talvez seja inexorável. E poder sempre corrompe... (absolutamente até). E por falar em frasista...: para Oscar Wilde, uma das tragédias da vida é "não conseguir o que se quer"; outra, justamente, é conseguir... E agora, José? E agora, Steve? [2 Comentário(s)]
>>> Apple supera Microsoft como maior empresa de tecnologia do mundo
 



Digestivo nº 463 >>> O mundo pós-PC: uma visão de Steve Jobs, segundo Charlie Stross
A "computação na nuvem" não aconteceu direito no Brasil, porque o País ainda passa pela revolução do PC e, com novo impulso do governo, da chamada "inclusão digital". Mas, nos Estados Unidos, já se fala em uma era "pós-PC". Desde o advento da internet, na verdade. Acontece que o notebook não foi o substituto do desktop, nem o netbook será. Mas o iPad, o iPhone e seus concorrentes ameaçam ser. Segundo Charlie Stross — um escritor inglês que vive na Escócia — vamos, num prazo de 5 anos (enquanto o Wi-Fi evolui em capacidade, e o 4G), trocar nossas conexões via cabo, como trocamos nossas conexões via modem, pela internet que chega pelo ar, direto no tablet, esteja o usuário onde estiver. Nossos dados não vão mais ficar armazenados localmente — nos nossos HDs —, mas na chamada "nuvem", com back-ups automáticos e updates de software — "in the background" —, sem vírus (se o ecossistema da Apple, e do Mac, prevalecer). Ainda segundo Stross, Steve Jobs assiste, preocupado, ao fim da era do PC, que está se transformando em commodity: todo mundo que poderia ter, já tem; os preços vêm caindo vertiginosamente, assim como as margens; e as vendas para o Terceiro Mundo — leia-se: para nós — não vão compensar essas perdas. Stross também reconhece que a Apple é a Mercedes Benz, a Porsche ou a Ferrari dos computadores, mas Jobs não acredita que essa situação vá se sustentar no longo prazo e prefere apostar na noção de "software como serviço" (tradução: iTunes, iBooks e futuras derivações). A Apple vai se tornar a Microsoft? Charlie Stross relaciona a recente má vontade de Jobs com o Flash (ele não quer nenhum "intermediário" entre a Apple e seus consumidores), o anúncio de que o Slate, o tablet da HP, não rodará Windows 7, e a compra da Palm, pela mesma HP. Isso se não considerarmos, ainda, os esforços do rei da internet, o Google, com sua plataforma Android (para celulares), e o desenvolvimento de um tablet próprio. A Apple tem valor de mercado de 200 bilhões de dólares e o Macintosh passou dos 25 anos, Steve Jobs não quer esse legado virando pó em 2015. Contudo — segundo, mais uma vez, Stross —, a concorrência já sentiu que na floresta há fogo... [Comente esta Nota]
>>> The real reason why Steve Jobs hates Flash
 

Digestivo nº 462 >>> Freud pela Companhia das Letras
Freud morreu em 1939. No ano passado, portanto, toda sua obra caiu em domínio público. No Brasil, a principal edição de seus trabalhos era a chamada "standard", com uma tradução, no mínimo, desatualizada. A Companhia das Letras soube preencher esse vazio, agora, com a reedição das obras completas de Freud em tradução nova. O responsável, pela empreitada, é Paulo César de Souza, igualmente tradutor das obras de Nietzsche pela Companhia. (Inclusive das versões de bolso, que se tornaram onipresentes nas livrarias.) A importância das ideias de Freud, para o século XX, é inquestionável. Isso não significa, contudo, que, como autor, ele seja "acessível". Os três primeiros volumes da coleção nova, cronologicamente, não correspondem aos primeiros escritos de Freud. O que talvez crie a sensação, no leitor, de — como se diz na gíria — "pegar o bonde andando". "Além do Princípio do Prazer" (no volume de cor verde), por exemplo, é um texto de 1920, quando A Interpretação dos Sonhos, a obra inaugural da psicanálise, é de 1900. Ou seja, duas décadas separam um texto fundador de outro, exigindo, do leitor brasileiro, um conhecimento mínimo dos conceitos psicanalíticos. "Introdução ao Narcisismo" (no volume de cor vermelha) está um pouco mais próximo das "definições" (é de 1914), mas, mesmo assim, soa árido para leitores desacostumados. O volume azul, com nenhum título muito conhecido, talvez deva ser escolhido primeiro, afinal "Princípios Básicos da Psicanálise" está nele, e resume bem as principais conquistas até 1913 (em menos de dez páginas). A exemplo da diferença entre textos "exotéricos" e "esotéricos" na Grécia antiga, Freud não parecia muito preocupado com o público leigo e escrevia para médicos iniciados. As belas edições da Companhia das Letras, naturalmente, não devem ser culpadas por isso. Mas talvez esta tradução acrescente uma nova dificuldade. "Ego" cedeu lugar a "Eu" (com "e" maiúsculo); "recalque" virou "repressão"; e "pulsão", agora, é "instinto" (entre outras mudanças). Algo que, inicialmente, pode facilitar a compreensão das novas gerações, mas que, certamente, vai irritar quem praticamente se formou com expressões como "ego, id e super-ego" (agora, "Eu, id e Super-Eu"?). Freud, com a convivência, torna-se menos difícil do que parece a princípio, contudo inovações no vocabulário nem sempre são bem-vindas, ainda mais depois de uma reforma ortográfica. [2 Comentário(s)]
>>> O Caso Schreber Artigos Sobre Tecnica E Outros Textos (1911-1913) | Ensaios De Metapsicologia E Outros Textos (1914-1916) | O Homem Dos Lobos (1917-1920)
 
Julio Daio Borges
Editor
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