DIGESTIVOS
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Televisão
Terça-feira,
6/7/2010
Televisão
Julio
Daio Borges
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Digestivo nº 466
>>> House, 6ª Temporada
Se começou como uma das melhores temporadas de House — com Gregory no hospital psiquiátrico —, a Sexta terminou com uma das piores audiências desde a Primeira. Desde que perdeu a equipe que o consagrou, House vinha tentando reestruturá-la e as últimas temporadas foram basicamente sobre isso. Como ninguém mais aguentava seus processos de seleção — e as mortes, na equipe —, os roteiristas acharam por bem devolver-lhe Chase e Foreman, acrescidos de Taub e de "Thirteen". Cameron se afastaria (com o fim de seu casamento), Wilson perderia traumaticamente a namorada, ciceroneando House (no novo apartamento), enquanto Cuddy se amancebaria com Lucas... A Sexta temporada foi importante para, inicialmente, enfraquecer o personagem todo-poderoso de Hugh Laurie. Afinal, ao ceder à internação no hospital psiquiátrico, House estava admitindo que não conseguia mais lutar contra o vício em Vicodin. Estava admitindo uma fraqueza, uma derrota, e, mais adiante, estava se submetendo a um terapeuta que poderia discutir "de igual para igual" com ele (como até então ninguém havia feito). Nos derradeiros meta-episódios — presentes desde a Primeira temporada —, Cuddy também lhe falaria umas verdades, até porque ela estava noivando, Wilson retomando um casamento, e só ele, House, não conseguia avançar (move on), amadurecer: estava sozinho, estava condenado à solidão. Poderia ser um final demolidor mas um beijo selou uma promessa... para a Sétima temporada. A exemplo de Lost, os roteiristas de House estão ficando sem saída, ou então desistem de ser "coerentes", como os de 24 Horas. Assim como Jack Bauer — que House, às vezes, cita —, Gregory ou morre por bala (como já quase morreu), ou por vício, ou, finalmente, enlouquece de vez. A mensagem do seriado parece ser: não adianta você ser um gênio, se você não for também... um homem, um ser humano. É uma bonita mensagem, mas o melhor de House talvez sejam os diálogos — até porque Hugh Laurie nunca foi tão engraçado quanto... House.
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>>> House, M.D.
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Digestivo nº 465
>>> Lost Season Finale
E Lost acabou. Talvez já tivesse acabado em alguma temporada anterior, quando a sobreposição de camadas de "realidade" tornou o final simplesmente impraticável. Primeira metade do avião; outra metade do avião (2ª); outra metade da ilha (3ª); saída da ilha (a ilha dentro de nós) (4ª); a ilha no tempo, retorno à ilha (5ª); morte da ilha, morte do elenco, morte do seriado. "Se a morte é o fim, então, para acabar, temos de matar", devem ter pensado, e "mataram". A solução deus ex machina foi simplista, para uma série em que se havia investido tanto... Segundo Nietzsche, o sonho é o grande culpado pela nossa irracionalidade. Se no sonho foi "possível", inconscientemente passamos a acreditar que é possível também em vigília. Freud assimilou a mensagem, e criou a psicanálise (ainda que finja não ter lido Nietzsche direito). Ao matar todos os personagens, ou simplesmente revelar que estavam todos mortos, os criadores de Lost apelaram para o vale-tudo do sonho. Daí o final alternativo, em que tudo não passava de... um sonho de cachorro... De certo modo, Lost sempre se alimentou das reticências. E, nesse fator "wiki", residiu, desde o começo, boa parte de seu sucesso. Onde fãs, no sonho que é a internet, podiam construir hipóteses, teorias, soluções para Lost. Talvez por isso J.J. Abrams, um dos criadores da série, quando foi editar a Wired, só tenha falado em mistério, mistério, mistério... Eram as mesmas reticências. Quando teve de preenchê-las, J.J. Abrams mostrou que não estava preparado. Afinal, nas temporadas anteriores, nunca fora necessário... Sempre havia mais uma temporada, para preencher as lacunas. E mais uma. E mais uma... Até que acabou. Como tudo acaba. E J.J. Abrams acabou junto... ;-)
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>>> Lost
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Digestivo nº 442
>>> Bored to Death, por Jonathan Ames
Detetives existem aos montes, principalmente em subliteratura policial, que se diz baseada em Edgar Allan Poe, mas que, na maioria dos casos, não tem nada que remeta ao grande mestre do conto. Jonathan Ames, por sua vez, é um escritor pouco conhecido, em Nova York, com um trabalho não muito significativo na imprensa, que assiste a seu casamento desabar, quando, num surto de desânimo, e solidão, decide colocar um anúncio no Craigslist, o maior site de classificados da internet, dizendo-se detetive particular e cobrando barato. O que era uma brincadeira, ou uma private joke, acaba virando coisa séria, quando a primeira cliente liga e Jonathan tem, como missão, encontrar sua irmã desaparecida. O detetive iniciante, no entanto, é desajeitado, está deprimido, não sabe quase nada da profissão, a não ser por alguns livros, como os de Raymond Chandler, que leu distraidamente. Fazendo contraponto: seu chefe, um egomaníaco, capaz de arrastar Jonathan para uma cabine de banheiro, a fim de fazer-lhe confissões, ou de telefonar-lhe na calada da noite, para resolver um problema de pele, com um tratamento pouco convencional; também seu melhor amigo, um desenhista de quadrinhos igualmente loser, que tenta recuperar a relação com a mulher, enquanto prejudica o relacionamento de Jonathan e censura-o por sua nova aventura como investigador. O detetive improvisado soluciona o primeiro enigma quase que por acaso. Surge, obviamente, outro, e a porção cômica se sobressai, porque são maiores as trapalhadas — mas Jonathan, sem medo do perigo, sente-se renovado, vivendo uma existência que não é a sua, e que acaba de inventar, graças à internet... Esse é, mais ou menos, o "argumento" de Bored to Death, uma série de TV, assinada por Jonathan Ames (é seu nome verdadeiro), e que estreará na HBO brasileira em breve. Na première, à noite num cinema em São Paulo, havia, além de assinantes de TV a cabo, blogueiros que, por ironia, criaram, igualmente, uma personagem na internet, e que, algumas vezes, até vivem dela... A possibilidade de ser "outra coisa" está instalada e, ainda que Bored to Death não seja da maior profundidade, coloca essa discussão em pauta.
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>>> Bored to Death
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Digestivo nº 439
>>> O novo show do U2 transmitido pelo YouTube
Quem assistiu a Frost/Nixon — que basicamente trata de um entrevista com um ex-presidente "impedido" dos Estados Unidos —, deve se lembrar do quanto era difícil, há algumas décadas, vender um programa para as grandes redes de televisão. No caso, uma entrevista que se tornou histórica e que foi importante para democracia norte-americana. E quem acompanha a decadência da nossa TV aberta — e da nossa TV a cabo —, deve imaginar o quanto é difícil "vender" uma atração que não seja de cunho popularesco, visando culturalmente a classe "Z". Pois mesmo o U2, uma das maiores bandas de rock há algum tempo, deve ter passado por dificuldades parecidas, quando o mainstream televisivo vem ruindo e a indústria fonográfica perdeu seu poder de fogo, com as gravadoras virando pó há alguns anos. Solução: transmitir seu último show pelo YouTube. Portanto: o que inicialmente se colocou como um obstáculo, num segundo momento se converteu numa vantagem e em mais uma vitória... para a internet. Não é à toa que Bono Vox agradece, no encerramento, a Sergey Brin, um dos fundadores do Google — porque, sem essa plataforma, o U2 ficaria refém de excrescências como, no Brasil, o horário da telenovela ou do jogo de futebol. Sem contar que o espetáculo continua disponível, em altíssima qualidade, no mesmo YouTube. Graças à World Wide Web, eventos planetários aparecem em tempo real, com disponibilidade recorde, ecoando indefinidamente, para quem quiser assistir depois... Musicalmente falando, o U2 dividiu o set entre sua fraca produção na década de 2000 — Bono tem preferido fazer política (ou mesmo religião) — e os hits de outras décadas mais inspiradas, com pontos altos como "Where the Streets Have No Name" (1h49), "The Unforgettable Fire", "Until the End of the World" (1h05) e "Mysterious Ways". Enfim, como ocorre, muito frequentemente, hoje, a produção estava impecável, com o YouTube a todo o vapor e efeitos de palco impressionantes — apesar de, artisticamente, a banda parecer cansada e seu frontman se mostrar, inclusive, sem fôlego... Resumindo, o U2 pode não estar em seu auge criativo, mas, em termos de iniciativa, marcou época, como quando o Radiohead decidiu oferecer seu último disco a um preço que seus próprios fãs poderiam definir na WWW...
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>>> U2 on YouTube - Live from the Rose Bowl
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Digestivo nº 429
>>> Programação especial de 40 anos da TV Cultura
Que a televisão brasileira de hoje não vale nada, todo mundo já sabe. A onipresença de telenovelas, reality shows, programas de auditório e de "jornalismo constrangedor" (para todos os gostos), fora bispos eletrônicos, jogou o conteúdo da TV brasileira, que nunca foi muito brilhante, na quase irrelevância. "Quase" porque, por volta das 20 horas, diariamente, na TV Cultura, abre-se uma janela para o passado — e o que se assiste, de tão surpreendente, nem parece televisão. Num dia qualquer, é possível topar com uma História da Telenovela Brasileira (quando ainda era influenciada pelo teatro), de 1979. E eis que surgem Plínio Marcos, o dramaturgo, e Luis Gustavo, o ator, em Beto Rockfeller — produção a apresentar o primeiro anti-herói na telinha do Brasil. Num outro dia, topa-se com Chico Buarque, também em 1979 — um pouco ébrio, é verdade —, a falar sobre sua arte, e a ditadura militar (logicamente), que caminhava para uma "abertura"... E para fazer as perguntas: atrizes como Dina Sfat e diretores como Luís Antônio Martinez Corrêa (questionando incisivamente, e sem "homenagens" constrangedoras). Num terceiro dia, subitamente, Tadeu Jungle comanda a Fábrica do Som. E mostra o Língua de Trapo, quando ainda havia humor inteligente... na televisão. Músicos querendo tocar bem, mesmo sendo jovens — e não querendo só aparecer, sair em capas de revista ou "pegar" modelos de ocasião... Era uma outra sociedade, era uma outra televisão. Ou seria o contrário? O fato é que a TV Cultura presta esse serviço, ao telespectador, levando ao ar, justamente, o melhor de seu acervo, em 40 anos de atuação. Basta sintonizar o canal às oito da noite. (No site, é possível montar a própria grade de programação.) Que tudo isso caia no YouTube é a nossa esperança... para as gerações pós-televisão.
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>>> TV Cultura - 40 anos
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Julio Daio Borges
Editor
mais televisão
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