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Sexta-feira, 10/10/2008
Blog
Redação
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Desventuras Prosaicas

Traga os cigarros, os cafés e os beijos e prometo, nada será como antes. Esqueça as grandes mazelas e delicie-se com a ironia das pequenas desgraças. Desperdice companhias agradáveis e marque um encontro com seu eu lírico. Voe alto e não caia do abismo sem o bat-cinto-de-utilidades; caso caia, ria do seu cadáver desmembrado e pense: "Jamais conseguiria isso com yoga!". Não jogue fora os livros do Paulo Coelho; faça fogueira com eles e chame os amigos para um culto satânico entre marshmallows no espeto e PJ Harvey. Não chore nos velórios — eles são os últimos shows e os defuntos, as estrelas. Não conte piadas em enterros — a última piada pode ser... mortal. Escute Norah Jones, e quando mais velho escute Billie Holiday — os pequenos peixes sempre levam aos grandes. Sinta a paixão apunhalar o seu coração; mas não esqueça de renascer depois ou Nietzsche vai se revirar no túmulo cinzento. Perca seu guarda-chuva, deixe que a chuva molhe as suas roupas e cabelos, mas não esqueça de passar no Carrefour e comprar chá de camomila depois. Leia Platão, Aristóteles e Virginia Woolf, mas não deixe passar a Tititi que prometer responder a seguinte pergunta: "Cher, Thalia e Marilyn Manson tiraram mesmo as costelas?". Saia para os inferninhos mas não os leve pra casa — o lar é o céu que você tenta disfarçar de inferno. Pense sempre nos amigos como família, mas não se engane — "família" não é sinônimo de "amizade". Tome sopa num dia de verão, tome sundae num dia de inverno, invente neuroses e dê a elas nomes de Smurfs — quebre as convenções e estará aumentando o mercado de trabalho da antropologia. Acredite na perfeição, na felicidade e na eternidade de um único momento e me procure em seguida — tentarei absorver um pouco por osmose. Viva cada dia como se fosse o primeiro e tente ver a beleza na falta de obviedade. Não seja medieval, tampouco renascentista. Seja enfaticalista! Não veja o vídeo do Filtro Solar em demasia, ou acabará fazendo algo como... isso. Enfim... viaje, abandone, fuja, corra, e volte. Volte. Ame, odeie, destrua, reconstrua, erre, e seja sempre fiel ao que te conduz. Amém.

Rodrigo C., no seu blog, que linca pra nós.

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por Julio Daio Borges
10/10/2008 à
00h09
 
calcinha

Que as novidades me perdoem, mas as calcinhas têm de ser pequenas. Vejo por aí mulheres a mostrar panos enormes, que saltam das calças jeans delinqüindo o quê feminino das jovens. As calcinhas, percebam, não por acaso são chamadas por um diminutivo pirracento, provocador. É uma parte do processo de transição que tem como seu auge a nudez. A calcinha é o símbolo da quase-nudez.

Diferentemente das cuecas, que possuem função óbvia e legitimada, a calcinha é um objeto indispensavelmente inútil, conforme manda o espírito feminino. A cueca é pragmática, objetiva, é a coerção aos sacolejos incômodos ao homem. A calcinha é um luxo. Dizer que ela serve para esconder é absurdo — esconder o escondido. Em verdade, ela é uma metáfora do sexo escondido (eis aí toda sua infâmia!).

Quão belo não é o pudorzinho das mulheres ao esconder a calcinha à mostra. O aviso arisco da amiga que percebe a gafe. "menina... sua calcinha está aparecendo!". É como se escondesse um diamante dum ladrão, o pão dos esfomeados. A calcinha a aparecer é uma corrupção imperdoável para as mulheres.

As vermelhas são clássicas, mas as brancas, pretas e rosas não são desagradáveis. Rendadas ou de algodão, mais ou menos transparentes, o modelo alinhar-se-á com as intenções, com o volume do desejo por um atalho para o nu.

A calcinha, tal qual os demais objetos pessoais comuns à mulher, tem o papel de vangloriar sua dona, mas, diferente dos outros, tem um quê de sagrado (talvez por ter muito de profano). Esta mítica só é desfeita quando ela é despojada do corpo feminino, este sim, absolutamente sagrado. A calcinha, quando sobre um sapato masculino, misturada às meias num chão dum quarto de motel já não impressiona tanto assim.

Dom, num blog que eu acabei de descobrir.

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por Julio Daio Borges
9/10/2008 à
00h59
 
CardosOnline 10 anos

Em 1998, quase todas as conexões eram discadas. Não existiam blogs, podcasts, fotologs, redes sociais e assemelhados. A web 1.0 ainda estava entrando na adolescência. P2P? MP3? RSS? YouTube? Faz-me rir, SANDOVAL. SPAM era uma coisa tão rara que nem chegava a ser um problema. E foi somente graças a este último detalhe que o COL prosperou no formato escolhido.[...]

Cardoso

* * *

Pois é. O COL fez dez anos. Eu poderia escrever 300Kb sobre o que aconteceu na minha vida nesses dez anos, mas nah. Saí de Porto Alegre e fui pra São Paulo, saí de São Paulo e agora escuto as ondas quebrando nas pedras a cinco metros das janelas da minha casa. Livros foram lançados e relançados. Livro novo chegando no fim de outubro: Cordilheira, romance, Companhia das Letras. Tenho sido feliz como sempre, não vejo muita alternativa. De qualquer modo, tudo foi obliterado quando conheci o Velho Branco. Silêncio, água, mulheres, narrativas. Me avisem quando algo mais aparecer.[...]

Daniel Galera

* * *

Fica longe daqui, a montanha gelada onde vou morrer. Ainda não escolhi. Isso não quer dizer que ela não exista e muito menos que eu não vá morrer por lá. Aprendi meio cedo que uma coisa não tem nada a ver com a outra. Estou aqui, a cidade está no mapa, estou com vida, a cidade tem montanhas. Existe um caminho entre mim e a cidade, entre meu quarto e a montanha, entre minha vida aqui e a minha morte lá. Isso não significa que só exista um caminho. Tudo são possibilidades. Uma coisa que dá tontura.[...]

Daniel Pellizzari

* * *

"oi, clarah, aqui é o herbert, eu trabalho com o ben harper"

"ahn, oi"

"parece que você deixou um livro pra ele, né? pois é, ele adorou e mandou te procurar porque quer te conhecer"[...]

Clarah Averbuck

Todos na edição comemorativa de 10 anos do CardosOnline, que eu recebi por e-mail.

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por Julio Daio Borges
8/10/2008 à
00h31
 
Entrevista de Emprego



Monty Python, de novo, porque é um clássico.

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por Julio Daio Borges
7/10/2008 à
00h29
 
Futebol Filosófico



Monty Python, claro, numa dica de O Sabichão, que linca pra nós.

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por Julio Daio Borges
6/10/2008 à
00h20
 
(Fora de) Moda

"Moda é tudo que sai de moda."

Jean Cocteau, citado pelo Suburbano Coração, que linca pra nós.

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por Julio Daio Borges
3/10/2008 à
00h41
 
Homens Especiais

Demorei para escrever para este Especial sobre as Olimpíadas porque queria falar de algo mais do que superar limites físicos, mentais, pressões familiares e (UFA!!) ainda da mídia.

Gostaria, na verdade, de escrever aos sobre-humanos. A quem o que descrevi acima é verdade, faz parte, mas não é tudo e, para isso, precisei esperar o fim das Olimpíadas: presenciei e acompanhei o que mais me emocionou, me dando prazer e satisfação: as paraolimpíadas.

Parabéns para a China! Parabéns para os E.U.A.! E um parabéns especial para a Grã-Bretanha!

O primeiro país provou que ter mais de 1,1 bilhões de pessoas importa: foi o primeiro colocado tanto nas Olimpíadas, quanto nas paraolimpíadas.

O segundo demonstrou que os números podem e devem ser analisados de acordo com a geopolítica. Para tanto, sua imprensa afirmou que o que vale em uma competição não é a quantidade de medalhas de ouro, e sim a quantidade total de medalhas conquistadas (raciocínio que concordo em parte, não posso mentir).

Já a Grã-Bretanha, como havia dito, merece um parabéns especial. Um país pequeno, que não usou de artifícios para reler os números como os E.U.A., ficou na segunda posição dos jogos paraolímpicos. Não seria isto uma demonstração de cidadania, a oportunidade de todos se desenvolverem?

Notemos alguns fatos, que, se não têm tanto a ver com o artigo, pelo menos são importantes para a cultura geral (inútil, quem sabe):

As paraolimpíadas foram muito pouco noticiadas, não obstante a força de vontade, a superação e a luta diária contra os mais desconhecidos medos e desafios de seus integrantes.

Enquanto nas olimpíadas os homens querem virar máquinas, nas paraolimpíadas os homens querem virar, simplesmente, homens.

Mesmo um escândalo, que contarei abaixo, não foi capaz de retirar das paraolimpíadas os deficientes mentais. Acompanhe os primeiros e bonitos passos da criação dessa competição:

A primeira paraolimpíada foi realizada em 1960, na cidade dos gladiadores (nada mais emblemático), Roma. Mas sua história é um pouco anterior: o neurologista Sir. Ludwig "Poppa" Guttman realizou uma competição com veteranos da II Guerra Mundial, que haviam sofrido lesões na medula. O enorme sucesso da competição culminou nas paraolimpíadas.

Mas mesmo onde deveria reinar esplendor pela idéia, e a celebração no convívio entre os seres humanos, sem preconceitos ou hostilidades, existe a gana por vencer. Os espanhóis, nas paraolimpíadas de 1980, escalaram no seu time de basquete atletas sem deficiência mental. Pelo menos não foi desta vez que uma atitude isolada e de má-fé prejudicou a festividade, mas na época se pensou tirar a oportunidade dos deficientes mentais de participar da competição pela dificuldade de medição do grau de deficiência. Retomando a linha mestra do artigo, o pouco caso dedicado às paraolimpíadas representa o descaso da sociedade com os deficientes e a pouca sensibilidade que nos rodeia.

A nossa cidadania pára nas vagas preferenciais oferecidas em shopping centers e farmácias, sempre com muita reclamação e desrespeito por parte dos "cidadãos".

Onde está nossa consciência?

Queria viver em um mundo com mais homens e menos máquinas...

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por Daniel Bushatsky
2/10/2008 às
12h13
 
Isso passa

O mundo eu acho que posso conhecer inteiro. Leva tempo e algumas notas verdes. E eu não vou chegar a conseguir, claro, mas o que importa é que eu vejo o mundo no mapa, no globo, numa representação qualquer — e sei que ele está ali, cheio de umas ruas de terra e um marzão e tal.

A mesma coisa com os livros: se eu quiser, se quiser mesmo, leio tudo. É que eu não quero, mas está tudo ali, contando duas dúzias de bibliotecas enormes. Posso ler as orelhas, por exemplo; ou ver as lombadas.

Taí, vou ver as lombadas de todos os livros, visitando várias bibliotecas em vários lugares do mundo, quase todos — inclusive porque um lugar sem biblioteca, ou é "natureza" (e não tem gente), ou não tem gente, e não tendo gente, me interessa um pouco menos.

Mas acontece que eu tinha uma idéia de conhecer a internet inteira também, porque daria menos trabalho que o mundo e os livros. Portais, jornais e revistas, brogs, páginas do orkut. Mas acho que não vai dar, não.

Quando tenho a impressão, por exemplo, de já ter lido pelo menos um postzinho de todos os blogs brasileiros (os bons), surgem uns dez melhores. Um jornalista irlandês (mentira, não era irlandês, nem jornalista, acho) disse que, em X anos, cada pessoa teria um site, o que é coisa à beça, e nem leva em conta que algumas pessoas têm três, quatro blogs — o que, aliás, é muita sobra do que dizer.

Então, é assim: essa impossibilidade de ver a internet inteira — que não é por preguiça nem por falta de presunção — dá uma canseira, um desânimo de avó ("Ah, meu filho, é tanta coisa ruim no jornal, que eu e seu avô, a gente até desliga a TV na hora do repórter.").

E aí? E aí que continuo achando que a internet é uma espécie de lugar, como a avó aí de cima: "Olha, ele restaurante já tá na Internet!" E é por isso que todo mundo faz essas metáforas de lugar, que nem são tão metáforicas assim: casa, porta, janela, condomínio. E é um lugar que vai crescendo demais, e quase me dá vontade de escrever um romance do Saramago sobre esse lugar que cresce para sempre, onde ninguém morre.

Quanto maior esse lugar-internet, menor o lugarzinho deste blog, que tem a sobrevida do portal e por isso respira. Aí, acontece que essa mistura (internet-mundão e blog-beco) vai me dando uma vontade de nem passar por aqui muito grande, e essa é a razão que compartilho. Só isso.

Bruno Rabin, no seu blog, que linca pra nós.

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por Julio Daio Borges
2/10/2008 à
00h16
 
Meu tio

meu tio morreu
coisa que sempre impressiona
meu tio morrer

era um tio que sabia o meu nome
que o dizia rindo
coçando o saco
sentados no alpendre
o almoço quase pronto

coisa que sempre impressiona
mesmo que à distância

eu estava na sala
a voz materna me alcançando o peito
não se assuste, ela disse
eu pensando com esforço
quando foi que o vi pela última vez?
mesmo que à distância

coisa que sempre me distancia
alguém morrer
meu tio

André de Leones, no seu blog, que linca pra nós.

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por Julio Daio Borges
1/10/2008 à
00h55
 
Questionário Amós Oz

E estas são as principais perguntas: por que você escreve. Por que você escreve exatamente dessa maneira. Se você quer influenciar seus leitores. E se quer ― em que sentido tenta influenciá-los. Que função exercem suas histórias. Se você apaga e corrige o tempo todo ou deixa o texto fluir direto de sua inspiração. Como é ser um escritor famoso e como isso afeta a sua família. Por que você descreve quase que somente os lados negativos das coisas. Qual a sua opinião sobre outros escritores, quem influenciou você e quem você não suporta. Aliás, como você define a si mesmo? Como responde àqueles que o atacam, e como se sente quanto a isso? Como esses ataques mexem com você? Você escreve à caneta ou usa um teclado? E quanto você ganha mais ou menos com cada livro? Você vai buscar material para suas histórias em sua imaginação ou na vida real? O que pensa a sua ex-mulher das figuras femininas em seus livros? E por que, aliás, você abandonou sua primeira mulher ― e a segunda também? Você tem horas fixas para escrever ou só escreve quando a musa lhe ordena? Você é um escritor engajado, e, se é, em que causa? Suas histórias são autobiográficas ou ficcionais? E, principalmente, sendo você um artista, como é que sua vida pessoal não é tão movimentada assim? Pode-se dizer que é uma vida pessoal bem quadradinha? Ou ainda há uma porção de coisas sobre você que não sabemos? E como é que pode um escritor, um artista, trabalhar a vida inteira como contador? O quê? Isso é só um meio de ganhar a vida? E, diga, o fato de ser um contador não acaba totalmente com sua musa inspiradora? Ou você tem também outra vida que não quer revelar? Talvez nesta noite você concorde em nos dar pelo menos algumas dicas quanto a isso. E quem sabe poderia nos relatar, resumidamente e em suas próprias palavras, o que exatamente você quis dizer em seu último livro...

Amós Oz, na abertura de Rimas da vida e da morte, seu último livro.

[2 Comentário(s)]

por Julio Daio Borges
30/9/2008 às
18h48
 


Julio Daio Borges
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