"Saber perder-se numa cidade não significa muito. Requer ignorancia, nada mais. No entanto, perder-se numa cidade, como alguém se perde numa floresta, requer um aprendizado especial." (Walter Benjamin)
As narrativas sobre as ruas do Rio sempre despertaram meu interesse - pois me ajudam a reconstruir permanentemente o meu Rio de Janeiro. Minha autoviação, que contém nomes como Radial Oeste, Piumbí e Piancó, Taylor e Moraes e Vale, Rezende e Gomes Freire. Ruas que comecei a trilhar (sim, andar é a melhor maneira de pensar) quando o autor do Guia afetivo da periferia (Aeroplano, 2009, 183 págs.) tinha um ano de idade.
Mas, com algumas poucas e boas exceções, as narrativas que conheço são aquilo que se diz das viagens com guias turísticos: um jogo de cartas marcadas. Mesmo um Antonio Fraga, no seu Desabrigo, de 1945, elogiado por Oswald de Andrade, me parece uma apropriação da linguagem das ruas para a sua literatura, mas sem a fluência da língua de quem fala (quem viveu nas ruas percebe uma gíria usada fora do exato sentido ou contexto).
O Guia afetivo da periferia, de Marcus Vinicius Faustini, no entanto, mais que mostrar um vivido Rio "periférico" revela um Rio interior e, portanto, "central": os sentidos do próprio autor e por essa janela aquilo que, pelo jeito, só os alemães conseguiram reduzir a uma palavra: Weltanschaaung ("visão de mundo", na falta de outra palavra).
Mas é interessante como, através de sua visão extremamente pessoal, descobrimos um Rio de Janeiro (e posso dizer um Brasil) moderno, que foi sendo construído da década de 1980 para cá. Um Rio sem políticas públicas mas com sons, cheiros, ruídos, visões, sobrevivências, desfoques, encontros, tramas, conexões, enfim, construções de toda sorte à margem dos poucos programas públicos, mas contendo aquilo que Jane Jacobs considera essencial para a vida de qualquer cidade: a diversidade das pessoas com suas vontades.
Portanto, além de muito saborosa, é generosa a narrativa. Ela nos permite, ao olhar para o que fizemos (e fazemos), pensar sobre o que somos e, quem sabe, nos ajudar a construir o que queremos. Algumas das bússolas deste século XXI, vislumbradas neste Guia, já parecem apontar alguns dos caminhos. A noção e a presença do Território como foco prioritário das ações urgentes para o desenvolvimento sustentável parece ser um deles.
Faustini nos entrega, como presente, uma caixa natalina contendo um kit com um jogo de lentes que aproximam/distanciam (cinema, talvez?), além de cartas para embaralhar num moderno Jogo da Memória onde o objetivo é juntar pares por oposição e, não, semelhança, acompanhado de uma fita com uma "Trilha Sonora de Sons e Sentidos". Mas, repare: olhando bem, você vai notar que no fundo da caixa está escrito Tupperware.
P.S.: Também gosto muito de conversar com as caixas de supermercado. P.P.S.: Se puder, (para o seu Jogo da Memória) leia esse guia tendo ao lado Guimbaustrilho e outros mistérios suburbanos, de Nei Lopes, lançado em 2001.
Nota do Editor
Egeu Laus é designer, gestor cultural e communities manager.
O verão em Belo Horizonte é quente, mas sem muita água. O calor não mela a pele, mas chega a incomodar. A secura do clima evapora tudo antes. Mas o verão em BH tem poesia, o que ajuda muito a dar à cidade uma brisa boa. Um grande evento vai rolar na próxima semana, de 8 a 10 de fevereiro, em diversas sessões por dia, no Palácio das Artes, área central da cidade. Um montão de poetas, de todos os cantos até do mundo, pintará no Teatro João Ceschiatti, para ler, falar, encenar, gritar, declamar, reclamar, performativizar e todas as outras possibilidades desses infinitivos ligados à poesia. A programação, com curadoria do poeta e editor Wilmar Silva, conta com escritores de Portugal, Argentina, Espanha e outras plagas, incluindo uma tertúlia sensacional de mineiros, claro. E isso tudo, no meio da semana, custa apenas 1 ou 2 reais, grana que o flanelinha recusa. Vale despedir das férias com uma festa destas!
Nos corredores do Tribunal de Justiça de Minas Gerais, um projeto de formação de leitores começou bem de mansinho. Um office boy pediu um livro emprestado, a moça emprestou, depois outro office boy achou legal e pediu também e a corrente ficou infinita. O resultado é que isso se tornou um projeto com sustança e a Márcia, funcionária do TJMG, defendeu uma monografia emocionante de especialização contando essa história e entrevistando os rapazes.
Mas o projeto mais lindão de que eu já ouvi falar é o da Borrachalioteca, em Sabará (MG, bem ao ladinho de Belo Horizonte). O Marcos Túlio encheu a borracharia de livros e o pessoal da comunidade lê avidamente o material. A coisa toda ficou tão importante que o esquema virou um projeto, com apoios bacanas e tudo. Amanhã, dia 29 de janeiro, a Borrachalioteca (ou Instituto Cultural Aníbal Machado) inaugura mais um espaço, desta vez no presídio municipal de Sabará.
O que deixa a gente arrepiado nesses projetos? A mansidão deles e a capilaridade como eles avançam sobre populações que não conseguem decidir as coisas. Discutir cultura, formação de leitores, cultura digital etc. etc. é lindo, mas, como diz o prof. Marcelo Buzato (Unicamp), em geral, quem quer discutir e decidir sobre isso é o "incluído". Enquanto rolam os fóruns e as festas, regadas a política e notebooks, os 70% de "analfabetos funcionais" do país arranjam suas bibliotecas onde elas surgem.