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Terça-feira, 23/10/2007
Palavra na Tela – Literatura
Tais Laporta
+ de 1200 Acessos
+ 1 Comentário(s)

Julio Daio Borges, Ana Elisa Ribeiro, Augusto Sales e Ricardo Giassetti em foto de Tais Laporta

Embora a Casa Mário de Andrade estivesse menos cheia que na noite anterior, o terceiro encontro da série A Palavra na Tela: Jornalismo, Literatura e Crítica depois da Internet, deu a impressão de que o espaço transbordava de gente. Os responsáveis por essa sensação foram Ana Elisa Ribeiro, Ricardo Giassetti e Augusto Sales – convidados pelo Julio Daio Borges, organizador do evento pelo Digestivo Cultural.

Ficou claro que discutir literatura contemporânea não é falar apenas de livros. Livros, aliás, correm o risco de tornar-se acessórios marginais depois da internet (assim deram a entender os três participantes da noite). Não é preciso esforço para concluir que a Rede, além de ter aberto os braços para quem quer escrever, também tornou-se o carro-chefe de polêmicas sobre o suporte papel, o acesso à leitura, o direito autoral, a remuneração on-line e os novos autores. Pelo menos, esta é a opinião dos que aceitaram o abrigo virtual e fizeram dele um caminho inédito para a literatura.

Se possível, a conversa fluiria por horas. Por sorte, o Julio atentou que tratava-se de um encontro esgotável, e não de uma longa conversa de bar. Assim, evitou-se que os participantes se estendessem em descrições específicas e foi possível variar as pautas no tempo previsto. Não faltaram elogios e provocações à nova onda literária à solta na Rede – um boom, como observou o Julio.

Os três convidados soltaram a língua com a segurança de quem conhece o terreno onde pisa. Satisfeitos por terem nascido na era da internet, talvez vissem a literatura com outros olhos sem a existência da Web. Sabe-se lá o que estariam fazendo: alimentando esperanças com o papel ou simplesmente longe das letras. Sorte deles – e nossa – que o olhar da Rede para fora é otimista. A seguir, um pouco sobre eles e sobre os principais pontos do encontro. Ouça o áudio do debate na Casa Mário de Andrade.

Ana Elisa Ribeiro – Escritora, blogueira, colunista do Estado de Minas e do Digestivo Cultural. Conheceu a internet nos primeiros chats. Já escrevia na Web, mas com certo "ciúme". Achava que seus textos se dissipariam. Passado o conflito, criou seu primeiro site, o Patife, e, depois, a Estante de livros on-line, no qual resenhava autores recém-publicados. Em 2003, foi convidada pelo Julio a fazer parte do Digestivo.

Ricardo Giassetti – Um dos fundadores da Mojo Books, projeto que transforma álbuns de música em literatura (os livros ou "mojos" podem ser baixados gratuitamente). Largou a faculdade de Direito, chegou a ter uma editora de quadrinhos (a finada Pandora), entrou para a publicidade e escreveu roteiros – sempre como autodidata. Por fim, aproveitou o potencial criativo para inventar a Mojo, hoje também uma editora.

Augusto Sales – Blogueiro e editor do site Paralelos. Iniciou-se na Rede pelo chat da UOL, já em 1996. Passou pelas ciências contábeis, sonhou com engenharia, mas acabou por criar o site Falaê em 1999, o projeto-piloto para o Paralelos, uma das primeiras iniciativas literárias da internet. O site mapeou a chamada geração "00", uma vitrine para os novos autores.

Papel para quê?
Mesmo prevendo a resposta, o Julio perguntou se o papel ainda era "o" suporte da literatura. Para provar que não, Ana Elisa lembrou que a substituição dos formatos é historicamente natural. "O livro de rolo foi substituído pelas folhas empilhadas. Hoje, o rolo só serve para diploma". Ela foi ao fim do século XV, quando Gutenberg criou a prensa tipográfica e, assim, transformou o livro artesanal em produto de massa. Uma inovação comparada, segundo a escritora, aos sites literários, exemplos de alternativas às editoras. Augusto Sales, depois de lançar um livro a partir do Paralelos, parafraseia Beatriz Resende: "Assim como a arte abandonou a moldura, a literatura não precisa mais do suporte papel". Ricardo Giassetti lembra dos novos formatos, como o PDF e as experiências de leitura pelo celular. Conta que já precisou criar animações que simulavam o ato de virar uma página. "Um cacoete", considera.

Editoras
"É uma ilusão pensar que as editoras lerão seu original, quanto menos publicar", acredita Ana Elisa. Para ela, as casas editoriais sempre foram oligopólios que detinham a tecnologia para fazer o livro circular. "Você não precisa passar mais pela editora. É possível fazer um produto bonito e sofisticado sem essa intervenção, porque a tecnologia burlou a precariedade". Se alguém lhe perguntar se deve publicar em papel, a escritora responde: "Não deve. Faça o teste na Rede primeiro".

Falsa vitrine
Publicar em papel, nem de longe, é sinônimo de visibilidade. Para Ana Elisa, pelo contrário, significa dispersão. "O livro não aparece. Tem grande chance de ficar na última estante da livraria, lá embaixo, empoeirado. Quando não no depósito", acredita. Uma tiragem de mil exemplares estaria tão dispersa que ninguém a perceberia, como se o livro fosse uma antipublicação. Já surge a ironia: um texto de internet se desloca em qualquer direção.

Autor maior que a obra
Outra ilusão que os participantes derrubaram refere-se à obra. "É muito difícil ficar conhecido por causa de um texto publicado", acredita Giassetti. "Você sabe quem é o escritor, mas não lembra que livro ele escreveu", conta Ana. Para ter repercussão, o autor precisa viajar, dar palestras, enfim, criar algo em cima do próprio trabalho. Mas o que marca, no fim, é seu próprio nome.

Do site para o papel
"Como foi lançar um livro a partir do Paralelos?", pergunta o Julio ao editor do site. "É um complemento. Não tem jeito, livro ainda é papel, um formato que funciona bem", pondera Sales. Para justificar, contou sobre o trauma que foi, para ele, trocar LPs por CDs. (Depois Sales se conformou...) De repente, um formato que "funcionava bem" poderia deixar de funcionar. "Acho que quem já nasceu na internet não vai querer sentir o cheiro do livro", acredita.

Mojo Books
O projeto surgiu depois que Giassetti e seu futuro sócio, Danilo Corci, integrantes da mesma banda de rock, decidiram homenagear Franz Kafka e James Joyce em letras de música. "Que disco daria uma boa história?", veio o lampejo. Daí, convidaram um grupo de pessoas (não necessariamente escritores) para criar histórias a partir de álbuns musicais de que gostassem. Lançado sem pretensões, em dezembro de 2006 (com livros inspirados em Depeche Mode, New Order, Big Star e Supergrass), o projeto trouxe mais leitores que o esperado.

Retorno financeiro
A dúvida era: a internet, enfim, gera remuneração aos escritores? O fundador da Mojo Books conta que o projeto ainda não é pago. Para Ana Elisa, este assunto ainda está muito atrelado à publicidade, embora a verdadeira remuneração em dinheiro seja indireta. As oportunidades surgem de forma indireta. "Escrever na internet desencadeia uma série de coisas fora dela", conta a escritora. Aí estaria o retorno. "Ganhar dinheiro com livro é para poucos fenômenos. Mário de Andrade e João Cabral de Melo Neto publicavam com dinheiro próprio", exemplifica.

Leitores dispersos
Foi praticamente consenso que o brasileiro não lê. E não lê porque não gosta. "Tem até professor de literatura que não gosta", lembra Ana. Por esse motivo, Giassetti escolheu uma leitura fácil e fluída para os livros da Mojo, além de aproveitar o interesse do público pelas bandas, de modo a estimular a leitura. Está levando, paralelamente, o projeto Mojo Escola, que leva a técnica de composição para as salas de aula. "O objetivo é ensinar a contar o que você sentiu ao ouvir determinado disco", explica Giassetti. Para ele, não adianta forçar a criança a ler o que não gosta. Despertar a leitura é um desafio torturoso para a dispersa geração nascida na internet.

Brasileiro lê pouco
Ana Elisa lembra que o brasileiro lê uma média de dois livros por ano – já inclusos os de auto-ajuda, religiosos etc. – que, aliás, vendem bem mais que literatura. No universo literário, já pequeno, há muito Paulo Coelho, Sidney Sheldon, Agatha Christie. Aqui existe o apego material pelo livro, uma cultura do objeto de status. Importante lembrar que, em países como o Japão, é estranho guardar livros em casa. Lê-se e passa-se para outra pessoa.

Contradição
Embora o brasileiro não cultive o habito da leitura, Ana Elisa coloca um paradoxo. "O Brasil é a oitava potência editorial do mundo". Segundo a escritora, o Governo compra quantidades absurdas de livro didático para as escolas. Nas escolas, sim, estaria um verdadeiro mercado com potenciais leitores – como concordam os três convidados.

Criar o hábito
Giassetti critica severamente o uso distorcido que o brasileiro faz da leitura. "Aqui não se forma leitores. Você compra o livro mas não cria o hábito de ler". Diferente do barbeador e do cigarro, que segundo os convidados naturalmente levam ao hábito, o livro não embute a necessidade de ler no brasileiro. O problema do desinteresse, segundo Ana Elisa, é o "alfabetismo funcional": o sujeito é capaz de ler, mas não de entender. Neste sentido, a internet estimularia uma participação ativa, com direito a reações e respostas diretas. "A nova geração nunca escreveu tanto", lembra a escritora.

Geração virtual
Embora haja uma crítica ferrenha ao "internetês" (linguagem que ignora muitas regras ortográficas), segundo Ana Elisa os candidatos de vestibulinhos não utilizam a linguagem de internet nas redações. Para o editor do Paralelos, a transposição é a mesma para a linguagem oral. "A internet é uma ferramenta absurda. Sorte nossa poder acompanhar do começo e entender a mudança", afirma Giassetti.

Plágio na internet
Embora Ana Elisa receie que sua obra se disperse pela Rede sem seu conhecimento, ela acredita que existe um respeito pela autoria, na maioria dos casos. Os veículos que reproduzem já divulgam os créditos e citam o autor. A escritora lembra que a cópia sempre existiu, desde a pesquisa à Barsa (quem nunca fez isso?) até a onda da xerox. Mas Giassetti lamenta casos de reprodução sem citação de nomes ou pedido de autorização. "Ainda acham que a internet não é de verdade. A pessoa sabe que está errada, mas pensa que nunca vão descobrir. E, na maioria das vezes, não descobrem mesmo". Ana Elisa pensa numa improvável solução. "Se o livro custasse um valor que não compensasse 'xerocar', talvez valesse mais a pena comprar o original".

Escritor de internet?
Muitos escritores podem ser considerados filhotes da internet, porque foi de lá que saíram para conquistar espaço em grandes editoras. Mas a maioria não gosta da denominação. Como lembra o Julio, eles recusam o título, como se escrever na Rede tirasse o direito de profissionalização. "Não querem o rótulo porque qualquer um pode ser escritor de internet. 'E eu não sou qualquer um'", exemplifica Ana.

Para ir além
"A Palavra na Tela"


Tais Laporta
23/10/2007 às 16h30

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COMENTÁRIO(S) DOS LEITORES
25/10/2007
12h51min
Compadeço com vossa concernente situação, mas compreendo que ao longo de toda a história os literatos passaram por tais atribulações. Hoje, a despeito das dificuldades de retorno financeiro suficientes a curto prazo, a internet é o meio que propricia que a voz do autor não se emudeça.
[Leia outros Comentários de Danielle Ribeiro]
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