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Domingo, 15/1/2006
Cinema em Atibaia (IV)
Marcelo Miranda
+ de 1200 Acessos

O terceiro dia da Mostra Competitiva de Curtas Brasileiros do Festival de Atibaia Internacional do Audiovisual – a última leva de filmes exibidos antes do encerramento hoje – foi menos impactante e memorável que a do dia anterior, mas manteve bom nível. Se na sexta-feira havia a temática predominante da exclusão, no sábado a seleção privilegiou trabalhos voltados ao humor e ao deboche. Interessante que, dentro de um tipo de cinema razoavelmente complicado de ser bem sucedido (as imposições vão desde o timing para a graça até a reação do público, termômetro mais fundamental do sucesso de algo nessa linha), a mostra contou com os dois extremos – produções muito engraçadas e inteligentes contra outras detestáveis.

A ovação (merecida) da noite foi da animação Bequadro, do mineiro Simon Pedro Brethé. Numa simples brincadeira com notas musicais, o diretor realiza projeto de grande criatividade e, claro, muito, mas muito engraçado. Se já era sensacional até o desfecho, torna-se genial com os “erros de gravação”. Promissor saber que Simon Pedro pretende fazer duas “continuações” do vídeo, formando uma trilogia das notas musicais. A ser aguardado ansiosamente.

Por outro lado, os outros dois vídeos ficaram para trás. Curupira, de Fábio Mendonça e Guilherme Ramalho, é pequena bomba de mau gosto, com uma criatura feita em digital (que tem rosto idêntico ao de George W. Bush, acredite se quiser...) e cenas de vísceras animais num projeto teoricamente voltado para crianças. A cena de abertura, apesar de visualmente confusa, até instiga, mas fica apenas nisso. Uma Homenagem a Aluísio Netto, de André Novais Oliveira, tem premissa animadora: brinca com a ficção de que o personagem-título era um cineasta mineiro cujos filmes foram modificados pela ditadura stalinista (!) e nos apresenta duas versões de um curta-metragem do tal Aluísio – um original, outro “revolucionário”. Se o primeiro brinca brilhantemente com o melodrama mais exacerbado, o segundo cai num simplismo e previsibilidade que colocam a perder toda a idéia. O vídeo simplesmente perde a graça, já que André Novais não consegue arrancar humor das tais falas stalinistas, como se já estivesse suficientemente satisfeito com a mera idéia inicial. Uma pena.

Nos curtas em 16mm, houve ao menos um equívoco absoluto e outro que é um dos melhores filmes de todo o festival. O equívoco é Macacos me Mordam, de Érico Cassaré, tentativa terrível de brincar com uma “estética Trapalhões” (termo usado pela colega crítica Liciane Mamede, que escreve na Cinequanon) junto a referências ao próprio cinema, em especial a Stanley Kubrick. Heresia total, já que o filme não consegue criar um único momento genuíno de humor, os atores tentam entrar no espírito da proposta, mas apenas se perdem na falta de talento, e a pretensa metalinguagem cai no vazio. Verdadeiro mico – o que é oportuno de ser dito, já que um dos personagens principais é um macaquinho em forma de animação.

Por sua vez, O Homem da Mata, de Antonio de Souza Leão, é mistura sensacional de documentário e ficção, partindo da história do canavieiro José Borba, transformado em super-herói e assumindo a identidade de Jack, o vingador. Essa figura sai pelo nordeste defendendo os trabalhadores rurais das maldades e vilanias, em seqüências antológicas – destaque para a “selvagem” batalha de Borba contra Simião Martiniano, mítico cineasta pernambucano famoso por realizar seus filmes com recursos ínfimos e vendê-los em camelô. O Homem da Mata, como explicitado no final, é uma grande ode à cultura popular e à espontaneidade do fazer cinema – o filme inicialmente seria apenas o registro da vida do canavieiro, mas ele próprio sugeriu que se colocasse “mais ação”, e o diretor apostou no feeling do trabalhador. Se deu muito bem.

O Homem da Mata
O Homem da Mata, de Antônio de Souza Leão

Outro destaque em 16mm, Curta-Metragem Metalingüístico de Baixo Orçamento ou Aceita Mais Café, de Byron O’Neall, prima pela proposta criativa de brincar com a metalinguagem num roteiro cheio de bons momentos e com sacadas muito bem colocadas – como o instante em que a enfermeira pede ao público que vote no filme caso ele esteja sendo exibido num festival com júri popular. Já Dalva, de Caroline Leone, Quando Jorge foi à Guerra, de Tadão Miaqui, e o expressionista Noturno, de Daniel Salaroli, apenas pontuaram a noite, com vantagem para este último, exercício rápido e visual com a presença sinistra de um palhaço meio sonâmbulo.

Na mostra de 35mm, que fechou as exibições, Entre Paredes, de Eric Laurence, se mostrou belo filme sobre a crescente angústia de um homem suspeitando de traição por parte da esposa, o que o torna cada vez mais angustiado, enlouquecido e enfurecido. Se por um lado a direção e o encaminhamento da narrativa explicitam os sentimentos de exacerbação e extremismo do protagonista, através da câmera nervosa, dos impressionantes efeitos sonoros e da interpretação de Servílio de Holanda, o filme pode ser questionado por certo virtuosismo na forma de captar imagens e pela estética videocliptíca de “superprodução”. Outro que divide opiniões é Início do Fim, de Gustavo Spolidoro: numa única cena, senhor de idade fica parado enquanto tudo à sua volta desaba. Pode ser uma grande metáfora da entrega do homem aos anseios do mundo e à natureza cruel do universo ou simplesmente um curta completamente inócuo e sem razão de existir – com leve tendência para a segunda opção...

Entre Paredes
Entre Paredes, de Eric Laurence

Rap, o Canto da Ceilândia, de Adirley Queiroz, é documentário sobre moradores de Ceilândia (cidade-satélite de Brasília) que, relegados à periferia, se expressam através de um ritmo musical que lhes permite pôr às claras sentimentos de revolta e ressentimento com o preconceito da elite. Historietas Assombradas (para crianças malcriadas), de Victor Hugo Borges, encantou o público, na animação que mistura stop-motion com desenho tradicional e brinca com o imaginário infantil regado a monstros, lendas e medos. Há, aqui, um paralelo meio distante, porém insistentemente presente, com Vinil Verde, de Kleber Mendonça Filho, filme apresentado anteontem e sempre transformado numa sensação por onde é exibido.

Ainda hoje, às 20h, acontece a premiação do Festival de Atibaia. Será a definição de quais filmes, dentre todos os exibidos e já devidamente reconhecidos em outros eventos de cinema ao longo de 2005, serão agraciados como sendo “os melhores dos melhores”. Enquanto isso, estará sendo apresentado na Praça da Matriz a ótima comédia Bendito Fruto, de Sérgio Goldenberg, às 21h.

Depois eu volto com os vencedores do festival. Até lá.

Para ir além

Parte I
Parte II
Parte III


Marcelo Miranda
15/1/2006 às 11h23

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