A guerra ao Iraque está provocando uma batalha de outra guerra, muito mais importante, que se arrasta desde que o primeiro macaco ficou ereto e olhou com um sorrisinho de desdém seus semelhantes de quatro: a guerra da inteligência contra a burrice.
Os burros estão em maior número, sempre estiveram. E por serem muito parecidos uns com os outros, conseguem se organizar com enorme facilidade. Fazem passeatas, redigem manifestos a 32 mãos (that's creepy!), fundam instituições, repassam emails, distribuem folhetos, organizam fóruns, publicam jornais, aparecem na tevê, etc.
Já os inteligentes são muito diferentes entre si. Só podem se reunir pra beber uísque. Se tentam tomar uma decisão, são capazes de ficar até o fim dos tempos discutindo. Há aquele inteligente desajeitado, que esquece seus compromissos, sai de casa com uma meia diferente da outra, tropeça no meio-fio. Há aquele outro que nem sair de casa sai. Passa os dias defendendo sua biblioteca e seu jardim como um cowboy defendia seu pequeno pedaço de terra no velho oeste. Há aqueles que estão no laboratório, cercado de cálculos, aparelhos e livros, e não lêem jornal há cerca de onze anos. Quando ouvem falar em guerra ao Iraque, acham que é a guerra de 1990.
Há, claro, os inteligentes práticos, sociáveis, preocupados em vencer cada uma das batalhas contra os burros. Mas são a minoria da minoria. Mesmo assim, conseguem vitórias importantíssimas.
Durante boa parte da história, os burros dominaram o sistema econômico e os inteligentes dominaram as artes. Recentemente houve uma inversão. Os inteligentes tomaram a área econômica no final do século XIX - sem dúvida, um triunfo memorável. É verdade que houve percalços e algumas posições foram perdidas; também é verdade que a União Soviética, a China e a Alemanha nazista se mostraram gigantescos bunkers da burrice. Mas uma área considerável permaneceu com os inteligentes e a miséria material foi extirpada de vários países. O problema é que descuidaram da cultura. Em meados do século XX, os burros, muito inteligentemente, atacaram de surpresa a música, a pintura, a literatura, etc. Foi devastador.
Mas a guerra ao Iraque. Enquanto burros do mundo inteiro zurram e pastam na frente de câmeras de tevê com cartazes xingando Bush, Israel e os Estados Unidos, os inteligentes mais práticos pensam em como conduzir o Iraque depois que o bigodudo genocida virar fumacinha. Para o bem dos burros de todo o mundo.
(Aliás, esse é um fato curioso dessa guerra. Quando os inteligentes vencem uma batalha, os burros também saem vitoriosos. Quando os burros vencem, todo mundo sai derrotado).
Perecível
Quando os primeiros tiros da artilharia anti-aérea iraquiana soaram em surround, espetaculares e inofensivos na sala de tevê, eu e minha namorada paramos de conversar e apertamos instintivamente as mãos. Como nós, milhões de casais pelo mundo, sentados em seus sofás, bebendo coca-cola e olhando a guerra ao vivo, aturdidos, hipnotizados. Minha namorada tinha lágrimas nos olhos, não conseguia deixar de pensar na população iraquiana, antes atormentada por um ditador sanguinário, agora sob uma terrível tormenta de bombas. Que barulho triste, comentou. Abracei-a e mais uma vez ficamos quietos. Como réus na entrada do tribunal, não tínhamos, não temos, nada a declarar.
Tudo parecendo perecível como tudo sempre acaba parecendo.
Uma Fantasia
Você diz que eu devia trabalhar, que o trabalho ocuparia o meu tempo. Como se eu quisesse que algo além de mim ocupasse o meu tempo... Talvez, talvez algumas coisas... talvez o trabalho me desse dinheiro para eu ter algumas coisas... para eu viajar, ver as cidades que amo... mas as cidades que amo estão tomadas por gente vulgar, barulhenta... é terrível... seria como ver a mulher mais bonita, seria como ver a mulher que mais amei abraçada a marinheiros, abraçada a marinheiros e gigolôs, todos bêbados e rindo... E o que eu compraria com o dinheiro? A tevê não é feita pra mim, os filmes não são feitos pra mim, os shows, os microondas, os carros, as geladeiras de duas portas, que me importa tudo isso? Mesmo essa cidade, essa cidade que parecia minha, bastava eu sentar no banco da praça em frente pra me sentir no local exato do universo onde eu deveria estar... em casa, para eu me sentir em casa... mas hoje vejo tantos rostos sujos e repulsivos... é como se a casa onde morei durante toda minha vida tivesse sido aos poucos tomada por estranhos, que mudam os quadros, pintam as paredes, derrubam o jardim... há aqui e ali um pedacinho de memória, um pequeno vaso que é só meu, mas a flor está seca. Restam-me os livros, você diz. Ficará espantada se eu dizer que não leio mais? Eu daria tudo, eu daria tudo para encontrar uma página, uma linha, que me dissesse algo novo. Algo que eu não tenha ainda pensado. Algo que me mude. Que me mostre que a vida não é esse vazio, esse inútil interlúdio do nada. Ah, eu não me encaixo nesse mundo. O quebra-cabeça da vida está completo sem a minha peça. O moinho gira sozinho, eu não sou necessário nem a mim mesmo. Sente-se aqui. Vou tocar uma música pra você. (toca um trecho da Fantasia K.397, de Mozart). Não é esplêndida? Não é irresistivelmente bela e melancólica? E no entanto Mozart a abandonou. Deixou-a inacabada. Nos meus melhores momentos, quando me sinto feliz, é assim que vejo a vida. Bela, levemente triste como toda verdadeira beleza tem que ser, mas inacabada. Uma fantasia inacabada.
Nota do Editor
Fabio Danesi Rossi assina agora o FDR.
Caro Fábio, perdão, Caro FDR,
Acho que você, por vezes, junta palavras de maneira interessante, mas acho que você não tem mais que, digamos 22 anos. Calma, veja, isso não é necessariamente ruim. Mas eu não estou errado não é mesmo? Você não tem mais que 22 anos, tem?