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COLUNAS

Quarta-feira, 7/5/2003
René Magritte
Nemo Nox

+ de 13300 Acessos
+ 2 Comentário(s)

René Magritte nasceu em 21 de novembro de 1898, em Lessines, na Bélgica. Este texto começa propositalmente com dados biográficos, já que Magritte os odiava, e irritar um artista já falecido é uma atitude que ele certamente aprovaria do alto de seu pedestal surrealista. "Detesto meu passado, assim como o de qualquer pessoa. Detesto a resignação, a paciência, o heroísmo profissional e os belos sentimentos obrigatórios. Também detesto as artes decorativas, o folclore, a publicidade, vozes anunciando algo, a aerodinâmica, os escoteiros, o cheiro de naftalina, fatos do dia, e gente bêbada." Tomemos, pois, mais um gole de uísque e continuemos com os dados biográficos.

Magritte pouco se lembrava da própria infância, e suas memórias ficariam melhor num de seus quadros que numa autobiografia, já que se referem a fantasias de padre, a misteriosos baús e a eventos estranhos como um par de balonistas com roupas de couro que ficaram presos ao teto de sua casa, com o respectivo balão murcho e inútil. Junto a este enevoado de lembranças, aparece a morte da mãe de Magritte, afogada em 1912. O pai mudou-se então, com René e seus dois irmãos, para Charleroi, onde o artista conheceria sua futura esposa e modelo de muitas telas, Georgette Berger.

Em 1916, Magritte foi para Bruxelas, com autorização do pai, para estudar na Académie des Beaux-Arts, e dois anos depois o resto da família se juntou a ele. São desta época seus primeiros quadros expostos, influenciados pelo cubismo e pelo futurismo. Mas o ponto de partida "oficial" de sua carreira, apontado tanto por críticos como pelo próprio artista, é o quadro O Jóquei Perdido. Nele já podemos ver inúmeras marcas registradas de Magritte, da tela como espaço teatral (marcado pela cortina) à combinação inusitada de componentes. Os pilares que aparecem no quadro tornar-se-ão um dos elementos recorrentes na obra de Magritte (assim como as esferas bipartidas e os papéis recortados) e foram batizados por Max Ernst, outro surrealista, de "phallustrades", mistura de autoestrada, balaustrada e uma certa quantidade de phallus.

Seria possível construir uma magrittografia unicamente com base nas recorrências de sua obra. Através dos anos, Magritte reutilizou, por exemplo, inúmeros títulos para rotular quadros completamente diferentes. Uma zombaria a quem ousou atribuir simbolismos legítimos ou escusos ao seu trabalho? Ou indicação de um possível intercâmbio de significados? Alguns elementos gráficos também foram teimosamente reutilizados, mas sempre em situações ao menos ligeiramente diferentes, numa exploração cuidadosa de seu elenco de "personagens", fossem eles chapéus, pedras ou cachimbos.

Mas o que são na verdade todos esses objetos?, parece perguntar a obra de Magritte. Uma aparência enganosa, já que sua obra não contém objetos, mas somente representações pictóricas de objetos. "Isto não é um cachimbo" ("Ceci n'est pas une pipe"), provoca a frase pintada por ele debaixo de um cachimbo, que não era mesmo um cachimbo mas somente a pintura de um cachimbo. E feita esta distinção, vemo-nos às voltas não mais com um cachimbo (que nem era mesmo um cachimbo mas somente a pintura de um cachimbo) mas com vários cachimbos, a saber: o cachimbo que não estava lá (mas que considerávamos como se estivesse antes de vermos a frase), a imagem pintada do cachimbo (consciente depois do raciocínio provocado pela frase), a idéia do cachimbo (acesa em nossa mente graças à provocação do artista), e a saudade do cachimbo (com tantos cachimbos falsos, afinal não tínhamos um verdadeiro).

E não foi só com cachimbos que Magritte armou essas divertidas confusões. Muitos de seus quadros exploraram o uso das palavras, fosse negando o que mostrava a imagem, fosse atribuindo-lhe um novo nome-significado. Assim, um relógio podia aparecer legendado como "o vento", enquanto um cavalo aparecia como "a porta". Segundo ele, "um objeto não está entranhado em seu nome de forma que não possamos encontrar um nome melhor para ele". Estas experiências bizarras com a linguagem traziam para a pintura aventuras que William James explorava na literatura ("a palavra cão não morde") e Wittgenstein na filosofia ("não podemos adivinhar a função de uma palavra sem examinar seu uso, e a dificuldade está em remover os preconceitos que bloqueiam este caminho").

Numa de suas viagens a Paris, Magritte conheceu André Breton e Paul Éluard, peças centrais da teoria surrealista. Influenciada inicialmente por Giorgio de Chirico, sua obra já podia ser facilmente considerada parte do movimento, e passou a ser convidado com freqüência para expôr com o grupo. Mais tarde, na década de quarenta, Magritte faria incursões pelo impressionismo e pelo fauvismo, mas voltaria logo ao seu figurativismo surrealista repleto de chapéus côco e maçãs voadoras. Mesmo em seus momentos mais decorativistas, a obra de Magritte possui aquela provocação sutil, aquele estranhamento formado com objetos do cotidiano, aquela centelha que faz sorrir e pensar. Surrealismo do melhor.

Nota do Editor
Texto gentilmente cedido pelo autor. Nemo Nox é editor do blog Por um Punhado de Pixels e do site Burburinho, onde este texto foi originalmente publicado.


Nemo Nox
Washington, 7/5/2003


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COMENTÁRIO(S) DOS LEITORES
19/4/2005
21h45min
eu agradeco a voces por este texto, pois graças a ele eu consegui entregar o trabalho pra minha profesorra de artes (todas as outras paginas que achei estavam em ingles...)
[Leia outros Comentários de talita arnaut seixas]
24/3/2007
16h41min
Excelente texto. Magritte aí está bem representado.
[Leia outros Comentários de Pedro Ivo]
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