Quarta-feira,
21/5/2003 Monterroso, memorialista da incompletude Rodrigo Gurgel
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Somos apenas memória, nada mais, é a certeza que cada uma de nossas células repete, de maneira incansável, desde a nossa geração no ventre materno. Apenas essa capacidade inata de recordar seus códigos e reimprimi-los, segundo após segundo, às suas próprias funções, por mais mínimas que sejam, é o que assegura vida aos nossos corpos.
A aptidão de lembrar é o que permite também nossa interação com as múltiplas faces da existência. Sem recordar, estaríamos condenados a repetir sempre o mesmo gesto inicial para cada ato, ou seríamos obrigados a nos reportar, minuto a minuto, a extensos e elaborados compêndios, o que tornaria a vida inexeqüível.
A faculdade de recordar é, no entanto, tão corriqueira que só nos damos conta de sua imperiosa necessidade quando ela nos falta. Ou quando, por alguma razão, ela avulta aos nossos olhos, manifestando-se em toda a sua complexa grandiosidade.
Centenas de livros foram escritos tendo por mote a rememoração, real ou fictícia, e o mais famoso de todos talvez seja Em busca do tempo perdido, de Proust. É igualmente desse estreito vínculo do homem com suas recordações que nasce Los buscadores de oro (Alfaguara, México), memórias do escritor guatemalteco Augusto Monterroso, falecido há poucos meses.
Contudo, mais que um minucioso e extenso exercício de resgate do passado, a obra de Monterroso é um testamento da simplicidade desse escritor que viveu exilado no México desde 1944. Um exercício destituído de qualquer petulância, no qual o autor foge da facilidade – tão comum em certos escritores – de imputar a si mesmo os louros da genialidade ou do sucesso.
Ao contrário, o autor desconsidera sua capacidade de memorialista, menospreza-a, afirmando "nunca ter possuído boa memória para os sucessos externos de qualquer índole, sejam estes importantes ou banais". E confessa ser "incapaz de recordar e, portanto, de descrever situações ou ambientes, rostos ou expressões de pessoas".
Monterroso reconhece a origem dessa inaptidão no fato de "sempre ter padecido de uma incurável distração" e de "ter vivido as coisas como se o que me sucede estivesse sucedendo a outro, que sou e não sou eu". O próprio escritor explica:
"Vejo este outro vivê-las [as coisas] no instante em que se produzem e o vejo adiar quase conscientemente sua possível emoção. Observo que este fenômeno se acentua com os sucessos que poderiam se chamar positivos, como se as coisas boas não pudessem ser para mim, nem para esse outro eu que vejo atuar e que, com certeza, tampouco as merece. Então adio por um tempo mais ou menos longo a alegria que trariam consigo e espero com cautela para confirmá-las como certas, à maneira do cowboy que nos velhos filmes do Oeste morde a moeda de prata, receoso de que não seja legítima."
Esse distanciamento a que o autor se obriga – ou se condena – em relação às "coisas boas" é mais do que um negar a si mesmo a possibilidade de se regozijar com os acontecimentos, alcançando a qualidade de uma sensação de profundo estranhamento:
"O resultado é que, tristemente, para o momento da aceitação, o valor das coisas conquistadas diminuiu tanto em minha estima que quase já não valem a pena."
A origem desse não se reconhecer merecedor de alegrias e prazeres residiria, segundo Monterroso, em um acontecimento da infância, quando, com cinco anos, ele teve sua primeira experiência erótica ao examinar, sob a mesa do "penumbroso dormitório" de uma de suas tias, "com enorme curiosidade e gosto", a genitália da filha de uma empregada da casa, menina de sua idade:
"Assim, é provável que a satisfação que me produziu a linda cor rosada do sexo de minha primeira parceira erótica, e o conseqüente castigo que recebi ao ser expulso daquele inocente paraíso infantil, tenham imprimido em mim, de maneira indelével, um sentido de culpa e condenação, de categórico não merecimento do bom ou do prazenteiro, coisas estas que em todo o futuro deveriam ser, para sempre e por direito próprio, só para os demais."
O prazer, dessa forma, será sempre o alheio na vida de Monterroso. E suas breves memórias estão carregadas desse afastamento melancólico da capacidade de se sentir merecedor de todas as compensações, por menores que fossem.
No transcorrer das breves páginas que compõem Los buscadores de oro – envoltas em permanente aura de incompletude – estão presentes a figura sonhadora e débil de seu pai, a história dos países que compõem a América Central (e a denúncia do violento jugo que os EUA sempre impuseram a eles) e a descoberta da leitura, à qual a memória de Monterroso está irremediavelmente ligada, pois, para ele, o que foi lido ressalta com maior força do que o vivido.
Em Monterroso, a lembrança dos acontecimentos reais se transmuta e ganha contornos indecisos, mas o que foi lido permanece vivo e é descrito com espantoso detalhamento:
"Lia-os [os poemas] uma e outra vez e os repetia e memorizava em segredo, como algo muito meu e intransferível, gozando sozinho com a sensualidade das palavras, o ritmo dos versos e a sonoridade das rimas. (...) Não eram as coisas descritas ou seus significados, (...) senão as palavras, sua disposição e sonoridade, o que embelezava minha mente infantil através de meus olhos e de meus ouvidos. (...) Eram, repito, as vogais acentuadas e o reencontro das sílabas nas rimas o que me fazia parar em cada verso e preparar o ouvido, como quem se dispõe a escutar o eco de uma voz em um abismo."
Los buscadores de oro descreve as recordações de Monterroso até 1936, quando o escritor tem 15 anos. Memórias incompletas, portanto. Memórias cuja ambigüidade é um convite ao conhecimento de uma América Latina mutilada em suas tradições, formadas sob o signo do inacabado e das mudanças permanentemente atravancadas. Memórias jamais concluídas de quem definiu a tarefa do escritor como a de um viajante que deseja "não chegar nunca, explorar mundos desconhecidos e, sem se deter, seguir de novo como ao princípio".