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Quarta-feira, 28/5/2003
Torce, retorce, procuro, mas não vejo...
Ruy Goiaba

+ de 5900 Acessos

Houve um período, no início dos anos 60, em que os jazzistas pareciam especialmente interessados em usar músicas "para crianças" nas suas improvisações. Quase simultaneamente, Miles Davis gravava o tema da Branca de Neve ("Someday My Prince Will Come"), o pianista Bill Evans incluía em seus shows "Alice in Wonderland" e John Coltrane fazia sucesso com "My Favorite Things", do musical "The Sound of Music" -na época, ainda não transformado no filme "A Noviça Rebelde".

Claro que a transformação dessas músicas era, muitas vezes, radical. Coltrane gravaria, alguns anos depois, uma versão "free" de uma das músicas de "Mary Poppins" ("Chim Chim Cheree"), além de tocar, ao vivo, longas e ensurdecedoras "coisas favoritas" -sem nenhum traço da melodia original.

Mas isso não desmente o fato de que elas eram, sim, musicalmente interessantes. E seu uso pela música dita "séria" é, na verdade, uma tradição que remonta aos clássicos, com seu aproveitamento de temas folclóricos. Até Mahler usou o "Frères Jacques" para compor o sombrio (e bota sombrio nisso) terceiro movimento de sua primeira sinfonia ("Titã").

Tudo isso para dizer que não devemos desprezar o Gilliard quando ele canta a "Festa dos Insetos". Um dia, algum novo Mahler descobrirá essa maravilha.

Não vi e não gostei
Essa frase, atribuída ao Oswald de Andrade, sintetiza minha reação diante de coisas-que-estejam-na-moda (ou, em português castiço, hype). Basta que "todo mundo" esteja lendo um livro, ouvindo um CD ou vendo um filme para que meu cérebro emita um impulso que pode ser traduzido assim: "Deve ser uma merda! Não vou ver". Livro, CD e filme podem ser ótimos, mas não adianta. Esse impulso é mais forte que eu (e vivam os clichês).

Goiabas conceituais
E eu perdi a oportunidade de participar da Bienal de artes plásticas. Pois é: também sou um artista conceitual, multimídia e performático. Criei a seguinte instalação: eu mesmo, sentado na frente do computador, vestindo um escafandro azul-royal, com pés-de-pato combinando. Sobre o terminal, meu pingüim de louça e uma tabuleta com uma citação de santo Agostinho ("Dai-me a castidade e a continência, mas não para já").

O que significa? Ora, a impossibilidade de ser casto diante dos apelos eróticos e cibernéticos do mundo contemporâneo. Ou a contradição entre nossas limitações corporais e intelectuais (daí o pingüim) e o desejo de mergulhar no mar de informações da internet (o que explica o escafandro). Ou a prova cabal de que o "artista" é um xarope. Ou tudo isso junto. Ou não.

Quer saber? Na verdade, há algo faltando. Vou fazer como o Tunga e contratar cinco mulheres para ficar dando voltas em torno da minha instalação. Peladas, é claro.

Sem sacanagem; afinal, é tudo conceitual.

Welcome to the club
Sempre desconfiei de que Narcisa "Ai, Que Loucura" Tamborindeguy fosse goiaba pura, até a medula. Agora, não tenho mais dúvidas. Dêem só uma olhada no que, em seu site, ela chama de "grandes destaques da literatura": Albert Camus, Barbara Cartland, Agatha Christie e Ernest Hemingway. Uma mulher que equipara, numa frase, Camus e Hemingway a Barbara Cartland é feita sob medida para um homem como eu, que guarda seus quartetos de cordas do Haydn no meio dos CDs do Nelson Ned. Só não proponho casamento porque meu salário é modesto demais para comprar o talco medicinal de que ela gosta.

O velhinho "serial killer"
Nelson Rodrigues estava certo quando dizia aos jovens: "Envelheçam depressa, antes que seja tarde". A supervalorização do simples fato de ser jovem, de algumas décadas para cá, aumentou exponencialmente a concentração de cretinice por metro quadrado neste planetinha. Muitos crêem que a data de nascimento numa certidão seja, por si só, uma excelsa qualidade e que "novo" seja sinônimo de "melhor" (o que faz da Aids, por exemplo, uma coisa bem "melhor" e mais "muderrrna" do que a gonorréia). No fundo, é compreensível: jovens descerebrados são ótimos consumidores e excelente massa de manobra.

Contra esse estado de coisas, já pensei em escrever um conto, tendo como protagonista um velhinho "serial killer". Um belo dia, ele se cansa de ler Schopenhauer, Ortega y Gasset e Cioran, porque acha que a simples leitura não vai resolver os problemas do mundo -e passa das palavras à ação. Começa a freqüentar assembléias estudantis, shopping centers e shows do Natiruts ("liberdade pra dentro da cabeeeçaaa"...), entre outros lugares insalubres, para seqüestrar jovens cretinos e empalá-los com sua bengala pontiaguda ou sufocá-los com seu fraldão geriátrico (usado, of course). Não pensei ainda no final, mas acho melhor fazer com que isso vire logo ficção -ou, daqui a 30 anos, eu mesmo vou me transformar nesse velhinho.

Diálogos impertinentes
Aqui em São Paulo, há um evento com esse nome -promovido, se não me engano, pelo Sesc e pela PUC-, que é transmitido pela TV a cabo. Os organizadores convidam, a cada programa, uma dupla de seres iluminados (filósofos, ociólogos, pepsicólogos etc.) para discutir assuntos geralmente estratosféricos. Eu acho que os debates seriam muito mais interessantes se eles chamassem interlocutores realmente impertinentes. Seguem sugestões:

* Milton Neves e Roberto Avallone: "Avallone, você é medíocre!" "O quê? Eu sou medíocre, interrogação? Medíocre é a senhora sua mãe, exclamação!"

* Luiz Mott e Jorge Lafond: "Calminha, Vera Verão! Você está nervosa!" "Você é uma bicha gooorda, escrooota! Se eu estivesse aí, quebrava a sua cara!" (A troca de gentilezas era por telefone.)

* Carlinhos Brown e Arnaldo Antunes: "As sílabas servem para batucar, Brown?" "Sim, Arnaldo. Para batu-educar, para batu-alimentar, para baco-vinhar, para basco-escoar e para basquear-pintar."

(Nota do Ruy: os principais trechos desses diálogos não são ficcionais. Está cada vez mais difícil competir com a goiabice do dito mundo real. Ai ai ai de mim, como diria o João Bosco.)

Nota do Editor
Ruy Goiaba assina o blog puragoiaba, onde estes textos foram originalmente publicados.


Ruy Goiaba
São Paulo, 28/5/2003

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