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COLUNAS

Sexta-feira, 13/6/2003
O Calígrafo de Voltaire
Daniel Aurelio

+ de 6700 Acessos

A História tem essa força insondável de mitificar seus principais agentes; enciclopédias e livros didáticos ajudam a propagar o que os fatos transformaram em espirituosidade, valentia e galhardia. Não por acaso, em palavras de acadêmia, dá-se àqueles que tomam a vanguarda dos acontecimentos a alcunha de atores.

Se uma hipotética pesquisa fosse realizada entre os enamorados dessa História, seguramente considerável parcela (senão sua maioria), trocaria a própria realidade pela efervescência iluminista do séc. XVIII, um período tão criativo em seus meios quanto foram controversos os seus fins. Sabemos do Iluminismo o recorte de uma impressionante gama de artistas e intelectuais que se colidem num desejo unívoco de liberdade. As lutas que travaram, as paixões e repulsas que despertaram, as revoluções que inspiraram! Todavia, quem gostaria de sentir as intermináveis dores nos rins de Jean Jacques Rousseau, aquilo que o tornava ser finito, pertencente à sua natureza contemporânea? Que História é essa que extirpa seus medos, e “ilumina” até seus erros mais crassos? Houve derramada e evidente genialidade desses homens - não somente: Rousseau, em suas lendárias caminhadas, a despeito das hipérboles repetidas pelas futuras gerações, concebeu o solo no qual frutificou a antropologia como cátedra. Mas era demasiado humano para renegar um dos vértices mais combatidos pelos seus pares: a Igreja. Rousseau, cuja fertilidade definiu ainda a política e os sistemas de educação modernos, quem diria, nasceu e morreu cristão convicto.

Daí que não é difícil tirar de um Voltaire a sua própria humanidade e dar-lhe asas de anjo torto: a razão, que era seu fim, torna-se soberana e de soberana a dogmática. E todo dogma tem seu santuário: o irrequieto pensador francês seria o profeta-maior desse deus homem, não havendo mentor do profano que ficasse tão belo em vestes ficcionais quanto ele.

Em O Calígrafo de Voltaire, do escriba argentino Pablo de Santis, é a representação que encerra os acontecimentos, na odisséia do jovem, ansioso e inventivo Dalessius, que por uma seqüência tragicômica de descaminhos torna-se o calígrafo de Voltaire, que de pronto percebe a dualidade do rapaz (alquimista errante do seu ofício) e o coloca na linha de frente das suas cruzadas contra a opressão dominicana, bastiã do velho regime. Ou seja, descobrir quem afinal enforcou Marco Antonio Callas, em vias da conversão à fé católica, acusação e condenação que recaíam, sem defesa, sobre os próprios pais luteranos. O clero desejava mártires de sua causa decaída e o autor de O Filósofo Ignorante a verdade adequada para sua profissão de fé pagã.

Só a possibilidade de se recriar esse Voltaire das obras, sarcástico, de frases cirurgicamente cáusticas, mesmo que proferidas por um velho de carne em decomposição, já vale a iniciativa de Santis. Dalessius, amálgama da prosa, é o futuro e o passado, tolo demais para suportar os próprios desígnios, corpo e mente a absorver a estranheza da existência e do que estaria por vir.

De fraseados rápidos e inspiração quase medieval, o livro mantém uma superfície pouco crível que destaca alguns desses símbolos metafóricos: o mais sutilmente crítico deles é a figura de Von Knepper, exímio fabricante de autômatos, criaturas quase humanizadas em sua mecânica misteriosa e pai (biológico) de Clarissa, quase mecânica em sua redoma de frágil viço. Dalessius expõe ainda mais o paradoxo do seu tempo ao apaixonar-se por essa moça tragada pelo engenho. Em fins do século XX, robôs e computadores disputavam postos de trabalho operacionais, lançando à indigência cidadãos menos afortunados da estirpe de Clarissa e seu calígrafo-amante.

O próprio clichê se subentende nas imagens retóricas e na sua epígrafe: tudo o que serve para escrever também serve para matar. Seja você um devoto de Adorno e Foucault que tão bem decifraram as sombras ou entusiasta das ciências que emergiram das luzes (por absoluta necessidade de compreensão do novo), a mensagem está posta. São 201 páginas de branda satisfação, alguma lucidez e uma dúzia de boas tiradas que valem seu preço: esse Voltaire dos compêndios se presta a toda sorte de especulações, escárnio e ficção. E rende tramas interessantes.

O coração embalsamado de Voltaire que Delassius carregou consigo como troféu, está agora, mensagem outra vez posta, em nossas mãos. Naquele instante, o coração de um filósofo valia mais do que um papa. Hoje, gargalhamos gostosamente da inoperância dos dois e choramos e rimos da loucura de mundo que forjaram, cada qual com sua bandeira, cada qual com seu mito. E as palavras de Pablo de Santis decerto não matarão seus feitos, para o gáudio dos que venceram e perderam com isso: nós, os calígrafos.

Wittgenstein é Pop

Deu no Caderno Mais!, domingo, 8 de junho de 2003: intelectuais brasileiros e gringos soltam seus sentimentos e indicam os pensadores que abriram suas mentes férteis para o saber. Duas conclusões rápidas: poucos foram aqueles que indicaram Karl Marx, e os que fizeram – exceção à Sergio Paulo Rouanet – não esconderam o constrangimento. A memória deles precisa de uma retífica ou o velho marxismo anda com a popularidade baixa? Por outro lado, o filósofo da vez (ex-capa da Cult) e hermético austríaco Ludwig Wittgenstein, mereceu reverências mil dos votantes. Como se pode notar, o modismo é uma praga que corrói até as melhores cabeças.

Mas divertido mesmo foi o depoimento de Jürgen Habermas, vaidoso que só, e na impossibilidade de dizer que ele mesmo seria o grande filósofo contemporâneo, optou em escolher Otto-Apel, por um anedótico motivo: laços de amizade.

Para ir além






Daniel Aurelio
São Paulo, 13/6/2003

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