Quarta-feira,
11/6/2003 Suave convite à plena humanidade Rodrigo Gurgel
+ de 1200 Acessos
Há algo além da mera desconfiança em um gesto, um pensamento ou uma opinião marcados pelo preconceito. Na verdade, todo preconceito está contaminado, em maior ou menor grau, por certa hostilidade cuja principal característica não se restringe, com certeza, apenas à antipatia silenciosa, mas avança na direção de uma agressividade gratuita, às vezes pusilânime, destilada na recusa a um cumprimento, na mordacidade de certo comentário feito à socapa, na sordidez de um meio sorriso irônico.
Em certos momentos, no entanto, o preconceito se manifesta na forma de uma intolerância evidente, também em graus diversos, que vão desde a atitude surda, pessoal ou coletiva, que condena ao ostracismo determinada pessoa ou grupo social, passando pelas diferentes formas de ofensa, e podendo alcançar, algumas vezes, a violência desabrida. Todos perpassados por uma evidente crueldade, da qual nós, animais humanos, resistimos a nos desapegar.
O preconceito não é, portanto, apenas um prejulgamento, mas subentende determinados comportamentos movidos pela recusa ou pela aversão à diversidade.
As fronteiras que demarcam a atitude preconceituosa, sua análise por uma lente à qual os pormenores jamais escapam e as conseqüências, sempre funestas, para as vítimas da incompreensão e da maledicência humanas são os temas de Óculos de ouro, do italiano Giorgio Bassani, publicado na premiada coleção Letras Italianas, de Berlendis & Vertecchia Editores.
Restringindo-se ao microcosmo da cidade de Ferrara, a narrativa se desenrola sob o olhar de um jovem judeu, estudante de Letras, que relata a história do médico homossexual Athos Fadigati, tolerado pela sociedade enquanto se resigna a viver suas pulsões sexuais na periferia, mas tratado com desprezo venenoso ao assumir, publicamente, um tempestuoso romance.
Ao fim, igualmente transformado em vítima do preconceito pelas leis raciais promulgadas pelo Estado fascista, o narrador vê sua própria história imbricar-se ao drama de Fadigati, mostrando como as diferentes formas de preconceito guardam uma única e implacável face.
A leveza e a graça do texto de Bassani – recortado por minúcias que nos apresentam, com clareza, a urdidura da burguesia ferrarense – não se furtam a denunciar, desde a primeira página, o movimento que condena Fadigati a um trágico fim e, lenta e silenciosamente, exclui o narrador dos diferentes círculos sociais.
Dessa forma, a suavidade do estilo não esconde a agudeza do drama e não edulcora a perversidade dos preconceitos. E, no limitado cenário da cidade de Ferrara, o autor elabora, além de uma completa análise da existência humana, uma perfeita cosmovisão do seu tempo.
A impressão que nos fica é a de que, sob o Fascismo, Bassani adquiriu não somente a consciência política peculiar daqueles que ousaram resistir, mas a acurada capacidade de compreender a extensão das dores e dos crimes humanos. E não das dores e dos crimes que ganham as páginas dos jornais ou são alardeados pela tevê, mas daqueles que sofremos e/ou cometemos na pequenez do nosso cotidiano.
"Caro amigo, se ser aquilo que é torna-o tão mais humano (do contrário, não estaria aqui, em minha companhia!), por que recusa, por que se rebela?" – esta pergunta, feita por Fadigati ao jovem narrador na noite "úmida e brumosa" da periferia ferrarense, repercute por todo o romance. Ela é o impetuoso questionamento que desborda do livro e nos acossa, nos aguilhoa, interpelando-nos não apenas em relação aos nossos preconceitos, mas, principalmente, sobre os comportamentos que recusamos a nós mesmos, movidos por aquela autocensura que o temível preconceito da sociedade nos infunde, muitas vezes de modo irremediável.
Mais do que um encorajamento à luta contra os preconceitos, a obra de Giorgio Bassani é, assim, um apelo ao nosso íntimo, um brando convite a – assumindo o que somos e refutando as opiniões alheias – aceitarmos ser plenamente humanos.