Quarta-feira,
16/7/2003 Dois iluminados no inferno da existência Rodrigo Gurgel
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Algumas pessoas fazem de suas vidas rastros incandescentes, turbilhões nos quais se mesclam verdade, destemor e força. Sentem o sabor do sangue travar suas línguas a cada gesto perpetrado no sentido de revelar a mentira, a fraqueza e o torpor dos bem-comportados. Em sua busca, não temem sequer ferir a própria carne – qualquer gesto é válido para que suas consciências não adormeçam frente à mesmice e ao embotamento que impera na sociedade.
Um pequeno e exuberante livro reúne Antonin Artaud e Vincent van Gogh, dois representantes dessa estirpe de homens cujas biografias complementam o insuperável valor da obra que deixaram; e nos concedem o exemplo capaz de mover-nos na mesma direção pela qual ambos optaram: assassinar – com a vida e a obra – as quimeras pequeno-burguesas, mesmo que isso signifique, a fim de potencializar nossos atos de rebeldia, mutilar nossos corpos e fazer da loucura – em um mundo de alienados – o único estandarte possível em defesa da lucidez.
Na verdade, no caso específico de Van Gogh, corpo e obra, vida e arte, formam um único ser absolutamente indivisível. O diretor de cinema Akira Kurosawa percebeu bem essa qualidade vangoghiana; e, não por acaso, em Sonhos, faz o caminhante penetrar a plasticidade das pinturas de Van Gogh, ultrapassar a condição de espectador da obra e tornar-se parte dela, experimentando-a em toda a sua furiosa e sensual intensidade.
Em Van Gogh – o suicida da sociedade (José Olympio Editora), Artaud parece buscar a comprovação definitiva dessa simbiose entre vida e obra; e o faz oferecendo-nos um texto que refuta qualquer mínima frivolidade. Ele denuncia a sociedade que "estrangulou em seus asilos todos aqueles dos quais ela quis se livrar ou se proteger, por terem se recusado a se tornar cúmplices dela em algumas grandes safadezas" e defende ardorosamente aqueles "que a sociedade se negou a ouvir", impedindo-os "de dizer insuportáveis verdades".
Para Artaud, a sociedade – que sempre age em conluio, a fim de silenciar aqueles que a denunciam ou acusam – não se satisfaz apenas em emudecer os discordantes, trancafiando-os em hospícios ou prisões, mas, algumas vezes, encontra formas sutis de assassiná-los, induzindo-os, por exemplo, ao suicídio. Ele descobre, então, na pintura e na vida de Van Gogh, o que a sociedade recusa, o que as pessoas têm a coragem de viver apenas em seus sonhos, já que "a humanidade não quer pagar o preço de viver, de entrar neste conflito natural das forças que compõem a realidade para extrair daí um corpo que nenhuma tempestade poderá danificar."
É esse Van Gogh, para Artaud, que transpira de cada quadro: o homem que "jamais teve medo de guerrear para viver, isto é, para arrebatar o fato de viver à idéia de existir". Um homem disposto a pagar o altíssimo preço de não assistir, confortavelmente, a vida passar, mas tornar-se, ao contrário da maioria, protagonista de sua existência.
O permanente estado de delírio no qual Van Gogh vive – e a pintura desse modo elaborada – conformam a realização concreta de um homem que busca reordenar a vida, dar-lhe o sentido que foi roubado pelas instituições sociais, livrá-la do seu estado de contida angústia e permanente insatisfação. Artaud está certo: "nunca ninguém escreveu ou pintou, esculpiu, construiu, inventou, a não ser para sair do inferno".
Nos quadros em que Artaud afirma não encontrar "drama", "assunto" ou "objeto", ele descobre "algo como a sólida e mística obscuridade de uma indizível música antiga, como o leitmotiv de um tema desesperado de seu próprio assunto. É a natureza una e pura, vista tal como se mostra, quando sabemos chegar bem perto dela."
A arte, em Van Gogh, não é somente uma forma de escape às decepções da existência. Ao contrário, sua obra carrega toda a intensidade violenta e incisiva com que ele preencheu cada minuto de seus dias.
Para esse pintor, que se colocava todo em tudo, e para esse homem, cuja produção artística era saturada de incontrolável frenesi – tal a sua sede de verdade –, Antonin Artaud – aquele que sentiu a "fraqueza essencial da humanidade: a de ser destruída, de não existir" – oferece um estudo igualmente visceral, imbuído de paixão e prenhe do alucinante lirismo que apenas os iluminados podem conceber e expressar.