Quarta-feira,
30/7/2003 Minha São Paulo–Babilônia Rodrigo Gurgel
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Os passos da multidão ecoam pelas ruas como o sapateado febril de dançarinos andaluzes. O vozerio monótono se expande em um ritmo preguiçoso, dissonante, entrecortado pelo pregão dos ambulantes. Anoitece. As luzes acendem, devagar, iluminando as calçadas e os edifícios. Estes se vergam, pesados e tristes, sobre a rua, tramando um jogo de sombras por entre o qual, aqui e ali, vislumbro o debrum de certos olhares e gestos, perdidos para sempre um segundo depois.
As vozes crescem. A multidão se acelera. No afã de mais uma noite que principia, todas as cores se assemelham, nesta hora cinzenta e indecisa. As sombras se avolumam, inquietadas pela pressa de partir, frenéticas como as saias das dançarinas de flamenco, agitando-se no ar com a volúpia das súplicas apaixonadas e resolutas.
Os saltos dos sapatos picam as calçadas, repercutindo, insistentes, semelhantes a milhares de castanholas endoidecidas.
O dia implora por terminar. E estes últimos minutos de frenesi já carregam consigo os primeiros sinais da exaustão.
Subitamente, o silêncio parece brotar como a neblina espessa que, em certas cidades, nos anoiteceres frios, sobe do rio que margeia os subúrbios, espalhando-se, lenta e muito quieta; avançando qual um réptil a buscar sua presa. Uma porta de aço é abaixada com violência, rompendo o marasmo. Uma gargalhada estridente denuncia o casal que se agarra no desvão escuro do edifício. Um último bancário passa, correndo. Os ambulantes, encurvados, arrastam seus tesouros, trotando em direção ao metrô.
São Paulo, meu labirinto, me acolhe, tortuosa, difícil, promíscua. E bela porque promíscua.
Os moradores da noite vão surgindo, em pequenos grupos, nesta e naquela esquina.
As prostitutas, nossas mães devastadoras, retocam a maquiagem sob a marquise, sérias, comentando com despudor os lucros da noite passada, as injustiças do cafetão, os desejos dos clientes. Suas roupas brilham. Os decotes revelam a carne macerada, mas satisfeita. Espalham-se pelos quarteirões, semi-ocultas nas sombras, ressurgindo ao passar de cada cliente, aproximando-se dos indecisos com os olhos gulosos que nos abraçam e enfraquecem.
A beleza agressiva dos travestis também nos convida. As roupas minúsculas exibem o corpo tortuoso, esculpido para unir na mesma carne o que a natureza, errada, separou. Um carro importado se aproxima. O vidro desce. Um par de seios volumosos atende ao sinal, se adianta, debruça-se à janela e acaba por entrar. O carro parte.
Esta emaranhada São Paulo guarda, em cada bairro, uma noite inesperada. Nos fundos do Trianon, os garotos do michê vestem Calvin Klein e portam uma beleza arguta, vazia de malícia, plena de oferecimento límpido, quase altivo.
Minha São Paulo é um vitral de desenhos inesperados e formas lúbricas, de onde a luxúria emerge a cada noite na forma de uma promessa de prazer jamais encontrado. Minha São Paulo–Babilônia empreende uma busca que nunca se satisfaz, cujo gozo paira à sua frente como uma coluna de luz que, à proximidade do toque, se desintegra.
Minha São Paulo é como a dançarina de flamenco que se oferece, mas negaceia; que irrompe, violenta e voraz, sobre o tablado, arrancando uma navalha das entranhas para me rasgar, revoluteando o corpo semelhante a uma chama que fere, mas não queima. Minha São Paulo é uma selva de hetairas, príapos e sátiros, na qual o riso do escárnio sobreleva o murmúrio das beatas e a hesitação dos tímidos.