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COLUNAS

Quarta-feira, 20/8/2003
Os gatos têm algo a nos ensinar?
Rodrigo Gurgel
+ de 3800 Acessos

Um pequeno livro, recentemente publicado, guarda a capacidade de nos enternecer e, ao mesmo tempo, aprimorar nossa relação com os gatos. Esses admiráveis animais estão perfeitamente descritos em Por que os gatos são assim?, de Karen Anderson, com delicadas ilustrações de Wendey Christensen.

Enquanto escrevo, Puck, um de meus felinos, sentado à minha frente sobre a escrivaninha, acompanha os débeis reflexos que o sol de outono, batendo contra a minha lapiseira, espalha pelas paredes. E eu, tão animal quanto ele, ao invés de escrever, embriago-me com a rapidez dos seus olhos, buscando, incansáveis, os sinais de luz que brilham, aqui e ali, em todo o quarto.

Agora, quando abro mais uma vez o singelo volume editado pela PubliFolha, Puck quase senta sobre a página e, impassível, com a patas dianteiras cobrindo parcialmente o texto, lança-me um olhar enigmático, mas nem um pouco desafiador. Karen Anderson enumera várias explicações sobre a razão desses bichanos sentarem sobre o que estamos lendo. Dentre elas, a de que talvez eles não se sintam "tão confiantes como parecem, e seu desejo de atenção [...] é, de fato, uma busca desesperada de afirmação [...]". Um comportamento tão humano, não é mesmo?

Impassível, como se adivinhasse o que escrevo e estivesse me fazendo um favor, Puck se levanta, caminha lentamente sobre o bloco de anotações e vem se esfregar no meu peito. Por quê? Anderson diz que, ao se comportar desse modo, meu gato "está declarando imperturbavelmente ao mundo que "me considera sua propriedade", além de demonstrar "seu afeto genuíno e o desejo sincero de contato físico". A autora, entretanto, vai ainda mais longe, sempre utilizando um estilo suave que a tradução, aparentemente, soube preservar. Ao esfregar-se em mim, "o imperceptível odor que ele deixa para trás mescla-se" ao meu odor, "produzindo um odor novo. E criar repetidamente esse odor novo é algo em que o gato encontra grande prazer".

Complexos como as melhores personagens shakespearianas – e não por outra razão um de meus gatos chama-se Puck –, esses admiráveis e sóbrios animais fingem independência de uma maneira tão convincente que cada um de seus gestos em nossa direção parece a cortesia de um aristocrata a um mísero plebeu.

Acaricio-o por alguns segundos e, em troca, ele mordisca minha mão. O gesto, aparentemente traiçoeiro, na verdade está pleno de sutilezas que somente um dono atento, paciente e devotado compreenderá. Anderson explica que, apesar de "suspirar" por nossa atenção, os gatos "a querem em uma medida certa, capaz de variar momento a momento. A leve mordida, então, serve para avisar que o carinho foi suficiente".

De fato, os gatos não são servis como os cães – e mesmo em seus momentos de aconchego ao nosso lado jamais perdem a altivez. Quanto aos cães, inclusive aquelas poucas raças que parecem guardar certa fleuma, não passam, na verdade, de desprezíveis submissos, sempre felizes e agradecidos por qualquer ninharia de atenção e carinho que lançamos ao chão.

Meus gatos – da mesma forma que todos os outros – são descendentes diretos da deusa Bastet. Pequenos seres notívagos que, filhos de uma divindade, sentem-se desde sempre nomeados como proprietários e, portanto, guardiões de minha residência. De manhã, quando a vida dos inúteis animais humanos recomeça, os sinais de propriedade estão à mostra no tapete enfiado sob o sofá, no bibelô tombado na prateleira mais alta da estante e no abajur caído ao lado da poltrona.

Karen Anderson, no entanto, oferece uma explicação graciosa e convincente para todas as variações de comportamento desses mágicos animais. Sem ser enfadonha ou utilizar termos acadêmicos, a autora desenvolve um minucioso e agradável tratado de etologia e semiótica sobre os felinos, elevando o orgulho e a vaidade daqueles que – como eu – pensam ser seus donos.

Ao iniciar este parágrafo, Tippi, meu outro gato, mia de algum ponto do apartamento. Dentre a inumerável variedade de miados de que eles são capazes, reconheço, neste, o de um felino que chama por seu companheiro. A descrição de Anderson, no início do capítulo dedicado aos miados, é perfeita: "Não é um rugido, um latido ou um urro. Não é um cacarejo ou um chilreio. E, com certeza, não é um grasnido nem um pio. O miado é um canto melódico e apaixonado de um sentimento e de uma expressão profundos. É uma poesia encantadora." A grande maioria dos humanos que conheço não alcança sequer uma dezena de diferentes nuances de voz quando se expressa oralmente, o que contribui para que eu tenha certeza de que há muito a aprender com meus gatos: ser intenso, mas sem abdicar da suavidade; mostrar-se sensual, mantendo certa reserva; comportar-se com altivez, mas desprezando os pedantismos.

Um livro que nos proporciona a chance de descobrirmos beleza e inspiração em uma espécie tão diferente da nossa, já carrega consigo razões suficientes para ser lido. Mas quando o mesmo livro esconde delicadeza e elegância – características essencialmente felinas – em cada um de seus parágrafos, então não basta apenas lê-lo, mas é preciso ser humilde o suficiente para instruir-se com ele – e, por meio dele, com os gatos.

Para ir além





Rodrigo Gurgel
São Paulo, 20/8/2003

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