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COLUNAS

Quinta-feira, 4/9/2003
Estado de Sítio, de Albert Camus
Ricardo de Mattos

+ de 11400 Acessos



O Governador lhes é grato. Nada é bom quando é novo.

[Imagem elaborada por Alessandro Silva, colunista do Digestivo Cultural, especialmente para acompanhar esta Coluna]

A chave histórica para compreensão de Estado de Sítio, de Albert Camus, está principalmente na turbulência espanhola durante a primeira metade do século XX. Os distúrbios em Espanha começaram durante o reinado de Afonso XIII. O exército enviado ao Marrocos a fim de garantir o controle espanhol estava insatisfeito e cumulado a isto, a Catalunha exigia maior autonomia administrativa, pleiteando com violência o que não obteve mediante reivindicações. Tal a ordem de confrontos ocorridos na principal cidade catalã, Barcelona, que o capitão Miguel Primo de Rivera lá estabeleceu uma ditadura regional com beneplácitos régio e popular. A república de Espanha foi proclamada em 1.931 e, se mantida por um regime liberal moderado, recebeu ataques de extremistas de esquerda e de direita. Uma frente popular alcançou o domínio em 1.936, secundada meses depois pelo golpe militar de Francisco Franco. Toda esta instabilidade acabou servindo de cortina para o movimento. O general invadiu a Espanha liderando aquela parcela do exército encontrada em terras marroquinas. A famosa guerra civil (1.936/9) é fruto desta invasão, dividindo-se o campo de batalha entre nacionalistas – partidários do Exército – e lealistas – partidários do governo republicano – até a victória final dos primeiros representada pela tomada de Madrid. Franco estabeleceu sua ditadura com o apoio do partido fascista espanhol – a Falange –, do Exército, da Igreja Católica e de uma população exausta da luta interna. “Mais vale uma boa conciliação que uma vitória sobre escombros”.

George Orwell e Hemingway lutaram a favor dos republicanos. Do primeiro, a experiência resultou no Lutando na Espanha e um de seus mais famosos, A Revolução dos Bichos, é irmão do espetáculo de Camus. Pena ele não ter conhecido a minha Cigana, senão fatalmente ter-lhe-ia arranjado uma colocação na Granja do Solar. Ela seria uma espécie de eminência parda, e muitas vezes a autoridade constituída é uma mera porta-voz destas figuras. Não se deve deixar de ler também, com o cuidado de não misturar demais, O Crocodilo de Dostoievski.

O cunho político é claro. O espetáculo todo prima pela clareza, não havendo motivos para temer o autor. Há representação dos horrores da Segunda Grande Guerra, como a obrigatoriedade de se usar uma estrela negra na porta das casas das pessoas contaminadas, remetendo directamente à estrela de David de uso exigido aos judeus e a menção à necessidade da concentração de prisioneiros. Porém esta representação é mais afeita ao romance A Peste lançado no ano anterior que à peça pois aqui a crítica de Camus teve por alvo específico o regime em vigor na Espanha após a guerra civil e genérico os governos autoritários.

A estreia da peça deu-se no dia 27 de outubro de 1.948. O espetáculo foi dedicado ao actor francês de cinema e teatro Jean-Louis Barrault (1.901/1.994), sendo ele mesmo o director teatral e o primeiro Diego. Lembro-me de dois de seus filmes, não os principais contudo: Si Versailles M'Etait Conte (1.954) e Le Testament du Docteur Cordelier (1.959). A trama desenrola-se na cidade espanhola de Cádiz e inicia-se com a passagem d’um cometa, símbolo de futuras tragédias. Junto a Diego, os personagens são Vitória, o Juiz seu pai, a Peste, sua secretária (a Morte), o bêbado Nada, o governador, vários alcaides e inúmeros secundários, além do coro. De acordo com o teor das falas todas dos personagens ligados ao governo, parece não ser despropósito afirmar a existência do personagem Governo, ou Estado, d’um polvo do qual eles seriam os tentáculos.

A música incidental tocou ao compositor francês de ascendência suíça Arthur Honegger (1.892/1.955), cujas peças tinham temas ou inspirações inéditas como o rúgbi ou uma locomotiva. Suas concepções parecem ter calhado para o ideal de Camus: atente-se às constantes notas sobre os sons anteriores a certas cenas, como a passagem do cometa ou o alvoroço final da primeira parte. Por fim, o cenário e o figurino couberam a Balthus (1.908/2.002), pintor conhecido sobretudo pelas cativantes cenas íntimas e de cuja obra faz muita falta um álbum. Tenho particular apreço por estas aproximações entre as artes.

Apesar de todo o aparato, causou pouca impressão e foi mal acolhida pela crítica. O fracasso inicial talvez seja devido ao perceptível entusiasmo de Camus diante do tema. A espontaneidade afastou o refinamento esperado do autor d’A Peste, sendo exemplares a última convocação do coro – “vamos gritar pelo deserto” – e o último pronunciamento da Peste – personagem – ao final da primeira parte. Deveras, pode ser encontrada uma série de lugares-comuns, frases de efeitos e aforismos. São dignas de menção a discussão entre Victória, seus pais e Diego na segunda parte, e a outra entre Diego e a Peste na terceira. Na segunda discussão, o realismo com vislumbres de cinismo fala através da Peste, e Diego representa aquele idealismo inicialmente fraco e que se reforça e altera o regime em vigor. No Brasil, menciono como exemplo o abolicionismo.

Uma epidemia qualquer aflige os habitantes de Cádiz – escolha não desacompanhada de crítica. É uma doença como poderia ser qualquer outro fenómeno externo – ou interno, mas a atacar de fora –, imprevisível e forte. A imprevisão decorre da ausência de um raciocínio político a longo prazo e tem por conseqüências tanto o despreparo diante do novo quanto o recrudescimento do autoritarismo. O despreparo leva a encobrir o problema: esconde-se o irresolúvel. Elevar o grau do autoritarismo é a velha prática do ataque como melhor defesa. O povo deve esquecer a passagem do cometa e quem insistir em lembrar será punido. “A vontade do governador é que nada aconteça em seu governo e que tudo continue bem, como sempre foi”. Não se fuja do hábito, pois novos factos e novas ideias trazem consigo a necessidade de novas explicações. Se as explicações oficiais forem erróneas ou falsas, podem ser corrigidas ou desmentidas, levando daí ao questionamento e provável enfraquecimento da autoridade, ao descrédito e à desobediência. Revela fundamentos frágeis a autoridade que não admite ser questionada. Quando o governo recorre à agressão, a Força, uma virtude governamental, é confundida com seu vício oposto, a fraqueza. Um povo crédulo – e a credulidade em si não é falha estatal – entretanto, facilita muito a permanência deste status. Provavelmente a personificação da Peste sirva, n’um primeiro momento, para demonstrar o comportamento do Governo diante do cúmulo a que se pode chegar com este quadro de desordem.

Outra derivação do recrudescimento do autoritarismo, segundo quer mostrar-nos Camus, é o cultivo de leis e de formalidades. Muitas, obscuras e contraditórias leis e formalidades escudam o arbítrio, tornando difícil sua prova. Nada agrada mais um funcionário público que um procedimento com começo, meio e fim, esconda o que esconder. “No caso de dúvida, recorra-se a quem de direito". O prejudicado muitas vezes prefere resignar-se. Por isso aquele fechar de portas no espetáculo, ainda na primeira parte. O diálogo entre a secretária e um pescador, na segunda parte, atinge o caricato.

Para ir além





Ricardo de Mattos
Taubaté, 4/9/2003


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