Herança | Arcano9 | Digestivo Cultural

busca | avançada
28479 visitas/dia
1,1 milhão/mês
Mais Recentes
>>> Urban Arts sedia exposição fotográfica gratuita
>>> Programa musical Reverbera estreia na TV Brasil, Rádio MEC e web nesta sexta (23)
>>> Elian Woidello apresenta show Vinho barato e Cinema Noir no Teatro Álvaro de Carvalho (TAC)
>>> Show de lançamento do Selo Blaxtream reúne grandes nomes do jazz e da música instrumental em SP
>>> Autobiografia de George Sand ganha edição brasileira em volume único
* clique para encaminhar
Mais Recentes
>>> Os Doze Trabalhos de Mónika. 2. O Catolotolo
>>> A pós-modernidade de Michel Maffesoli
>>> Um parque de diversões na cabeça
>>> O que te move?
>>> O dia que nada prometia
>>> Super-heróis ou vilões?
>>> Seis meses em 1945
>>> Senhor Amadeu
>>> Correio
>>> A entranha aberta da literatura de Márcia Barbieri
Colunistas
Últimos Posts
>>> Cornell e o Alice Mudgarden
>>> Leve um Livro e Sarau Leve
>>> Pulga na praça
>>> No Metrópolis, da TV Cultura
>>> Fórum de revisores de textos
>>> Temporada 3 Leve um Livro
>>> Suplemento Literário 50 anos
>>> Ajudando um amigo
>>> Ebook gratuito
>>> Poesia para jovens
Últimos Posts
>>> A mulher de Lot
>>> Sem palavras
>>> Objetos de desejo
>>> Matéria prima
>>> Espírito Santo
>>>
>>> Fuga em Si
>>> Frutos
>>> Traço
>>> Criaturas
Blogueiros
Mais Recentes
>>> Seis meses em 1945
>>> 10 maneiras de tentar abolir o debate
>>> O amor é importante, porra
>>> Satã, uma biografia
>>> Pólvora e Poesia
>>> O que faz de um livro um clássico
>>> O Salão e a Selva
>>> O dia que nada prometia
>>> Ebook gratuito
>>> Palmada dói
Mais Recentes
>>> A Escalada, drogas tire suas dúvidas.
>>> O Andar no Espírito O Andar no Poder
>>> Metafísica da Sensação
>>> Dicionário do Pensamento Social do Século XX
>>> O Resto é Silêncio
>>> Antropologia Filosófica- Ensaio sobre o Homem
>>> Drogas e a Família
>>> Drogas, O universo paralelo
>>> Sitiado Em Lagos
>>> O Equilíbrio do temperamento Através da Música
>>> Cultura no Mercosul: uma política do Discurso
>>> Cristo Cósmico
>>> Coleção Série Princípios
>>> Vidas descoloridas, como Paulo se perdeu para as drogas.
>>> O Livro das Virtudes Uma antologia
>>> A Espiã
>>> Quarta-feira de Cinzas
>>> Cruzando o Paraíso
>>> A poética migrante de Guimarães Rosa
>>> Obra Reunida
>>> Dicionário Latim-Português Português-Latim
>>> Contos Mineiros
>>> Box Coleção História da Vida Privada
>>> Coleção de livros
>>> A Crônica
>>> Zen Budismo e Psicanálise
>>> A Essência do Eneagrama - Manual de Autodescoberta e Teste Definitivo de Personalidade
>>> Guerra e Paz
>>> Depois da Morte
>>> Doze Reis e a Moça do Labirinto do Vento
>>> As Noites Difíceis
>>> Luxo
>>> Fome, Catástrofe Provocada pelo Homem? (Sociologia/Geografia Humana)
>>> Os Irmãos Karamázovi - Fiódor Dostoiévski (Literatura Russa)
>>> Ana Karênina - Leon Tolstói (Literatura Russa)
>>> Almas Mortas - Nicolai Gogol (Literatura Russa)
>>> Pais e Filhos - Ivan Turgueniev (Literatura Russa)
>>> Os Imortais da Literatura Universal (Biografias) Volume III
>>> Processamento de Dados
>>> Teilhard e a Vocação da Mulher
>>> Falsa Identidade- A Conspiração para Reinventar Jesus
>>> Olha para Mim
>>> The Nature of Technology: What it is and how it evolves
>>> Digital Futures for Cultural and Media Studies
>>> Creative industries
>>> Everything is workable: A zen approach to conflict resolution
>>> i of the vortex: From Neurons to self
>>> Arquivos do mal-estar e da resistência
>>> Linked: A nova ciência dos networks
>>> O segundo mundo: Impérios e influência na nova ordem global
COLUNAS >>> Especial Viagem

Segunda-feira, 9/7/2001
Herança
Arcano9

+ de 2000 Acessos

1985

Mamãe e seus pimentões. Eu nunca gostei de pimentões. A casa da minha tia cheira a pimentão. Como minha casa no Brasil. Mas minha tia mora muito longe. Mora num lugar muito quente. Norte da África, sul da Europa. Meu tio bebe água no cântaro. O cântaro é típico daqui, é um jarrão de barro, com uma ponta por onde sai a água. Depois, minha tia chega para ajudar minha mãe. Pimentões para almoçar. Pimentões com esse tal presunto que toda vez que minha mãe falava no Brasil, minha boca se enchia d'água. Nem preciso dizer que deixo todos os pimentões de lado e só como o jamón.

Hoje fomos à catedral, pela manhã. Lugar escuro, gigantesco, assustador. No Vaticano tem uma maior. Mas a daqui é a maior catedral gótica do mundo. Seguimos pela calle Sierpes até a construção monumental. Aquela torre, la Giralda. Ela é maravilhosa. Fiquei me perguntando se a torre Eiffel ou a torre de Pisa poderiam ser mais lindas. Toquei na torre fria, as pedras carcomidas pelo tempo, como se fosse um astronauta pisando na Lua. Minha mãe achou graça. Na minha casa no Brasil, há réplicas de plástico da Giralda, umas duas delas. Algumas tem uma luzinha dentro, você coloca na tomada e ela se acende. A original tem pouco mais de 102 metros de altura e pode ser vista a quilômetros de distância.

O Alcázar. Parece ser um castelo construído pelos árabes na época em que eles dominaram toda esta região da Espanha. Sentir a água fresca na fonte no chão, a meus pés, naquelas salas ricamente esculpidas com aquelas letras árabes estilizadas. O mármore, os pátios versus o sol agressivo, tentando em vão destruir a sombra fresca. A parede é áspera, passo a mão para acariciá-la. Senti que há muita história que o Alcázar guarda, mas eu não me interessei.

Também fomos aos jardins de Maria Luiza. Fomos numa carruagem, uma que a gente apanhou perto da catedral. O cara dirigindo a carruagem explicou tudo sobre o parque, mas eu não lembro de nada. Estava fazendo muito calor quando chegamos à Praça da Espanha. Encontramos minha tia por lá, com um dos meus primos. Fiquei impressionado com a arquitetura e com o termômetro. Era agosto, estava fazendo 48 graus. Súbito, quase desmaiei de sede, tomei uma Coca-cola. A Coca-cola tem o mesmo gosto da do Brasil.

Depois, fui visitar meus tios. Infinitos tios. Infinitos primos. Não lembro o nome nem da metade deles. Todos tem a minha cara. Todas as tias me apertam a bochecha e dizem que estou gordinho. No Brasil, tem eu, minha mãe, meu pai e meus dois irmãos. Mais ninguém.

Passa-se um mês. Começo a querer voltar para casa. Saudade da escola.

Mas sei que vou voltar.

1997

Sevilla é parada obrigatória. Embarquei no ônibus em Lagos me preparando psicologicamente para tentar não comer tudo o que minha tia fosse me colocar pela frente, e para ser simpático e educado com todos os meus tios. No caminho, reflito sobre tudo o que eu queria conhecer na cidade e que em 1985 não conheci. Não sei. Sevilla é a última cidade que eu vou "conhecer" na Europa. Eu sempre digo para meus amigos: a capital andaluza é muito bonita, mas eu não posso falar muita coisa. Só fiz o turismo por um dia, aquela inesquecível tarde de 48 graus. Depois, visitei meus parentes, os milhares. Na verdade, é tudo diplomacia, eu acho que eu preferiria ir para Praga em vez de ir à Espanha desta vez. Mas preciso manter boas relações com eles. Eu quero cultivar essas relações, eles são todos pessoas legais.

Meu primo me pega na estação de ônibus. Sevilla mudou. Houve uma exposição internacional aqui. Vejo ao longe a ponte do Alamillo, uma gigantesca construção, um arco de metal de uns 200 metros de altura. Meu primo continua desempregado. Vejo rapidamente a Praça da Espanha, continua gloriosa. Minha tia, diz meu primo, está com reumatismo. Vejo passar pela janela jovens espanholas. Lindas. Isso eu não havia percebido antes. E o sol, o sol, o sol.

Minha tia diz que eu estou muito magrinho e me prepara um sanduíche de queijo oleoso e jamón. Vou ficar uma semana. No dia seguinte, antes que qualquer pessoa acorde, escapo, pego o ônibus, vou para o centro.

Pelo bairro de Triana, as sacadas colorida, floridas, são os gerânios que minha mãe plantou no jardim lá de casa. E em Triana, um bar, outro bar. Os donos dos bares batizam os locais com seus sobrenomes, como se os bares fossem seus filhos. E todos eles têm nomes parecidos com o meu. Alguns, nomes idênticos. Atravesso a ponte de Triana, cruzo o Guadalquivir. Manolín, no te acerques tanto a la orilla, diz a mãe gorda, com peitos imensos, da sacada à minha direita ao moleque de oito anos à minha esquerda, o moleque pescando no rio. Ao longe, acho que do outro lado do rio, ouço uma pessoa gritanto. Atravesso mais, e a pessoa não está gritando, está cantando, um canto de grande dor ou de amor. Um canto gritado. O canto me atrai. Ando então à sombra da catedral. Sevilla tem cerca de 700 mil habitantes, é a quarta maior cidade da Espanha. Lembro de João Cabral de Melo Neto, brasileiro.

Dentro da vida de Madrid,
onde Castela, monja e bispa,
alguma vez deixa-se rir,
deixa-se ser Andaluzia,

logo se descobria
seu ter-se, de Sevilha:
como, se o riso é claro,
há mais riso em quem ria.

(extrato de Uma Sevillana pela Espanha)

Uma praça famosa, a Alameda de Hércules, é um lixão, está cheia de sujeita e mendigos. Mas o resto da cidade, está OK. Hércules, reza a lenda, fundou Sevilla em aproximadamente 1000 A.C. Isso explica a tal alameda, com uma estátua de Hércules, e também a outra estátua perto da prefeitura. Hércules teria sido um navegador fenício que teve coragem de passar do estreito de Gilbraltar na época que todos tinham medo de fazer isso. Depois, entrou pelo plácido Guadalquivir e se fixou numa ilhota no rio. Catequizou os locais com a religião egípcia. Morreu e foi considerado herói, e sua fama chegou a outras partes do Mediterrâneo. Virou semideus.

Chego à muralha medieval. Meu pai nasceu aqui, na rua Patrício Saez. Depois ele se mudou para o bairro de La Bartola, aqui perto. Tenho um tio que até hoje mora na La Bartola. Mas lá ao lado da muralha eu encontro a igreja. A da Virgem de Macarena. Nunca fui católico praticante, mas ao vê-la sinto um impulso irrefreável de persignar-me. Seu rosto lacrimejante, sua rica túnica dourada, seu sacrifício sempre estiveram presentes na minha casa no Brasil. Tinha uma imagem logo na entrada de casa. Outra, na sala. Dios bendiga esta casa, ao lado da foto da santa. Lembro que preciso ver a Semana Santa em Sevilla. Tomar um jerez ou um vino de manzanilla. E ver a Macarena passear pelas ruas. As pessoas por aqui são fanáticas.

Passo pela plaza de toros. Acho uma selvageria. Mas gosto de ver os cartazes - há um lugar, ali perto, que você pode por seu próprio nome num desses cartazes, substituindo o El Cordobes. Foi engraçado há uns anos, quando assisti Sangue e Areia. Tyrone POWERS perfeito andaluz. Eu entendia as entrelinhas, entendia por que ele era impetuoso, entendia porque as pessoas dizem que eu sou muito nervoso e porque às vezes grito à tôa. Porque, às vezes, sou um bruto, um animal. Nem toda a educação do mundo vai acabar com essa herança incontrolável.

Meu primo de 17 anos passa em casa mais tarde e vamos dar um passeio com outros primos. Vamos a uma espécie de festa a céu aberto. Uma rave, talvez, mas com a diferença de que só se toca esse ritmo típico, as Sevilhanas. Impressionante é que todo mundo sabe os passos. Os passos para dançar as Sevilhanas são difíceis, não é só deixar o corpo se levar, há toda uma seqüência. Meu primo se enrosca com uma loira. Olhos nos olhos. Pés batendo forte no chão. Ela veste jeans apertado, mas segura na longa saia virtual. Todos batem palmas, marcando o ritmo. Há muitas mulheres fortes, morenas. Todas fumam. Todas olham despudoradamente para os homens, e os homens para elas. Há um cheiro de sexo no ar.

Na volta, meu primo de 16 anos está muito borracho e pede para parar o carro. Enquanto ele vomita, eu e meu primo de 17 conversamos sobre viajar. Ele dá a entender que não tem muita vontade de conhecer Paris, ou Londres, ou Nova York. Ele gosta de Sevilla. O que mais se pode querer no mundo?

Vou embora dias depois. Vou ver as minas catalãs. Mas sei que vou voltar.

2001

Eu, meu tio e meu irmão num maravilhoso restaurante na rua Dos de Mayo, pertinho da catedral. Chama-se Mezón de la Infanta, e é um dos melhores daqui. Meu irmão, que é professor de espanhol, me corrige os infinitos erros na minha tentativa de falar andaluz perfeito. Tenho que ignorar boa parte das consoantes no final das palavras, dedo vira deo. Pescado vira pescao. Pescadito vira pescaíto, e é isso que meu tio pede. Eu peço um maravilhoso Gazpacho, uma sopa de legumes servida gelada, perfeita para o calor. O líquido desliza pela minha garganta abaixo. Damos risadas. Olho para meu irmão. Reflito em um milissegundo, esse negócio de herança. Depois, olhando para a catedral, lembro que em 1890 construíram no Madison Square Garden, em Nova York, uma réplica da torre sevilhana. 35 anos depois, a cópia seria destruída. A Giralda, construída pelos árabes muçulmanos, assimilada pelos cristãos, copiada e destruída pelos yankees. Quem diria, até a Giralda já imigrou. E já viveu crise de identidade. Identidade imigrante. Voltando para a casa da minha tia, no mesmo subúrbio imutável de 1985, no mesmo ar quente de deserto de 1997, chego à conclusão que Sevilla sou eu. E, se eu às vezes não me conheço, é só voltar.

Para ir além

Mesón de la Infanta - calle Dos de Mayo, 26, Arenal
Telefone 95456 1554.
Por um gazpacho, uma chuleta de cordeiro e uma cerveja paguei 2675 pesetas.


Arcano9
Londres, 9/7/2001


Mais Arcano9
Mais Acessadas de Arcano9 em 2001
01. Duas formas de perder a virgindade no West End - 5/3/2001
02. O que realmente importa - 17/12/2001
03. Quando road movie encontra inocência adolescente - 19/3/2001
04. Concurso de popstars mostra novo caminho na TV - 19/2/2001
05. Ler ao acaso - 19/11/2001


Mais Especial Viagem
* esta seção é livre, não refletindo necessariamente a opinião do site



Digestivo Cultural
Histórico
Quem faz

Conteúdo
Quer publicar no site?
Quer sugerir uma pauta?

Comercial
Quer anunciar no site?
Quer vender pelo site?

Newsletter | Disparo
* Twitter e Facebook
LIVROS




O QUE É ESPIRITISMO
ALLAN KARDEC
LAKE
(1987)
R$ 3,00



SINASTRIA
RONALD DAVISON
NOVA FRONTEIRA
(1990)
R$ 32,00
+ frete grátis



THETAHEALING AVANÇADO -UTILIZANDO O PODER DE TUDO O QUE É.
VIANNA STIBAL
MADRAS
(2016)
R$ 41,90



COMO FALAR AO TELEFONE
PATRICK FORSYTH
NOBEL
(2003)
R$ 8,00



O CAÇADOR DE PIPAS
KHALED HOSSEINI
GLOBO LIVROS
(2015)
R$ 30,00



VIAGEM PARA O PARAÍSO
OSCAR LOIOLA DE ALENCAR NETO
SCORTECCI
(2014)
R$ 15,00



PARAÍSO- A CIDADE SANTA E A GLÓRIA DO TRONO
ELWOOD SCOTT
PALAVRA DA FÉ
(1992)
R$ 37,80



SEXO E AMOR
FLÁVIO GIKOVATE
MG EDITORES ASSOCIADOS
(1998)
R$ 16,90



WINNING RESULTS WITH GOOGLE ADWORDS, SECOND EDITION
ANDREW GOODMAN
MCGRAW-HILL EDUCATION
(2008)
R$ 50,00



SÃO JOSÉ DA TERRA FIRME
GILBERTO GERLACH E OSNI MACHADO
INDÚSTRIA GRÁFICA
(2007)
R$ 70,00





busca | avançada
28479 visitas/dia
1,1 milhão/mês