Canto Infantil Nº 2: A Hora do Amor | Digestivo Cultural

busca | avançada
64436 visitas/dia
2,1 milhões/mês
Digestivo Cultural
O que é?
Quem faz?

Audiência e Anúncios
Quem acessa?
Como anunciar?

Colaboração e Divulgação
Como publicar?
Como divulgar?

Newsletter | Disparo
* RSS, Twitter e Facebook
Últimas Notas
>>> Caro Francis, documentário de Nelson Hoineff
>>> Górgias, de Platão, por Daniel R.N. Lopes
>>> Estadão: 'não mudar' para mudar
>>> Eu Maior, o filme de Fernando, Paulo e Marco Schultz e Andre Melman
>>> Diálogos de Platão, pela editora da Universidade Federal do Pará
>>> Porta dos Fundos
>>> Os Enamoramentos, de Javier Marías
>>> One Click, a História da Amazon, de Richard L. Brandt
Temas
Mais Recentes
>>> As manifestações sobre o transporte público em SP
>>> O corpo-reconstrução de Fernanda Magalhães
>>> A polícia militar e o atentado à democracia
>>> A poesia concreto-multimídia de Paulo Aquarone
>>> O cavalo branco
>>> Paulo Leminski, o Paulo Coelho da Poesia
>>> Pô, Gostei da Sua Saia
>>> Amar a vida!
>>> Umas armadilhas suaves
>>> Por falar em outras línguas
Colunistas
Mais Recentes
>>> Millôr Fernandes
>>> Daniel Piza (1970-2011)
>>> Steve Jobs (1955-2011)
>>> 11/9: Dez Anos Depois
>>> Séries de TV
>>> Discoteca Básica
Últimos Posts
>>> Vista aérea de 17/6/2013
>>> Fala Antonio Risério
>>> Duda Rangel sobre o fim
>>> 17/6/2013 no Twitter
>>> 17 de Junho de 2013
>>> Documentário sobre Leminski
>>> Disputa Pelo Espaço Público
>>> Um Everest de Desmandos
>>> Falta Política
>>> Por um Brasil livre
Mais Recentes
>>> Sergio Britto & eu
>>> Para o Daniel Piza. De uma leitora
>>> Joey e Johnny Ramone
>>> A Cultura do Consenso
>>> De Kooning em retrospectiva
>>> Delírios da baixa gastronomia
>>> Jane Fonda em biografia definitiva
>>> Psicodelia para Principiantes
Mais Recentes
>>> Luis Salvatore
>>> Catarse
>>> Chico Pinheiro
>>> Sheila Leirner
>>> Guilherme Fiuza
>>> Antonio Henrique Amaral
Mais Recentes
>>> 2 Milhões de Pageviews
>>> 40 mil seguidores no Twitter
>>> Comentários via Facebook
>>> Obrigado, Daniel Piza
>>> Seção Mais Acessados
>>> Digestivo no Facebook
LIVROS
Mais Recentes
>>> O Lavrador de Ipanema
>>> O Futuro de Nós Dois
>>> Cinco Séculos de Poesia
>>> O Ancião que Saiu pela Janela e Desapareceu
>>> A que Ponto Chegamos
>>> O Encantador da Montanha
>>> Bruxos e Bruxas
>>> A Bicicleta Epiplética
>>> Wild Cards - O Começo de Tudo - Livro 1
>>> Quebrada em Grande Estilo
Mais Recentes
>>> Gonzaga - De Pai pra Filho, de Breno Silveira
>>> Mar de Gente, de Ivaldo Bertazzo
>>> A crítica de Jerônimo Teixeira
>>> A deliciosa estética gay de Pierre et Gilles
>>> Outsider: quem não se enquadra
>>> O Afeto Autoritário de Renato Janine Ribeiro
>>> O Afeto Autoritário de Renato Janine Ribeiro
>>> Candidato Aloprado
>>> Quando os mercados falham
>>> Entrevista com Guilherme Fiuza
Mais Recentes
>>> Artistas lançam projeto que une música com outras artes
>>> Evento promete aula de música gratuitas em todo o País Ação que se iniciou no Reino Unido terá ver
>>> Soulution Orchestra é atração no Crossroads
>>> LANÇAMENTO DO LIVRO AFRONTAR AS FRONTEITAS
>>> MOSTRA #TUITERATURA
>>> EdUFSCar lança quatro títulos sobre protocolo de avaliação gerontológica
>>> O livro "Handmade Urbanism', disponível na Alemanha desde abril de 2013, é lançado no Brasil
>>> "A CRUZ QUE ME CARREGA" ESTREIA TEMPORADA NO SESC PINHEIROS
>>> Só Pedrada Musical completa 7 anos e traz DJ Nu-Mark ao Rio!
>>> Evento ensina a pintar sem usar pincéis
COLUNAS

Sexta-feira, 7/11/2003
Canto Infantil Nº 2: A Hora do Amor
Daniel Aurelio

+ de 9600 Acessos
+ 3 Comentário(s)

A primeira das sete vezes em que li “A Hora do Amor”, do romancista Álvaro Cardoso Gomes, foi por urgência. Aos doze anos, eu não passava de um mau aluno estudando em uma má escola pública, que ladeava suas divisas territoriais com o que havia de menos dócil na periferia. Eu tinha tudo para dar errado.

Minha mãe fora convocada pela diretoria da EMPG. Motivo de briga, eu acho. Eu tinha tudo para dar errado, mas ainda sim me pelava com as chineladas maternas. Um completo merdinha. Um merdinha que, apesar dos pesares, consumia sozinho uma página semanal do controle de empréstimos na biblioteca.

Eu precisava despistar o temor. Melhor que ela chegasse logo, com os ouvidos ainda queimando expurgos contra o caçula da prole, que o ínterim é de uma angústia atroz. Precisava ler qualquer coisa. E na estante do meu irmão desbotava-se o livro, herança das obrigações de sua oitava série. Gostei do título: ouvia muita música romântica, Michael Bolton, essas coisas. Naturalmente, eu estava apaixonado pela garota mais bonita da sala, e cultivava uma foto sua - tirada por um amigo numa dessas Cânon antiqüíssimas, toda disforme - debaixo da gaveta de cuecas. Nunca escondi que sou um cara comum, escrevendo sobre coisas comuns. E um cara comum se apaixona pela garota mais bonita da sala, perdendo o foco da lousa a cada trinta segundos. A "Hora do Amor" parecia um título animador.

Não escapuli do merecido castigo. E a leitura não me tele-transportou para paraísos infinitos e multicoloridos, como insinuava uma antiga propaganda do Ministério da Cultura. Não é estritamente necessário perpetrar espaços metafísicos para achar beleza e encantamento. O amor interiorano-interiorizado de Beto e Lúcia Helena fincou meus dois pés no firmamento. O tal cavalgar no arco íris de Bandeira começava a fazer sentido.

A história descrevia a sessentista Americana dos bailinhos, sorvetes, estilingues e pés de goiabeira no quintal, uma excentricidade para quem nasceu e cresceu em uma metrópole cinza-chumbo, amotinado defronte a tv e o vídeo-game.

Eu nunca soube dependurar-me em árvores.

Que faz de um enredo simples e reiterado – a paixão juvenil – arrebatador a ponto de sobressaltar-se na avalanche de paradidáticos despejados a cada temporada no mercado de livros?

A resposta, em parte, está na biografia do autor, ali no ano de nascimento: 1944. Cardoso Gomes atravessou sua juventude no período, um fator que, se não serve de regra inflexível para a construção minuciosa de um cenário, tem a seu favor a placidez da reminiscência pessoal, a pincelada de emotividade que uma obra do gênero pressupõe. Tendo um infanto-juvenil escrito e engavetado pela ditadura da “linha editorial”, atesto o quão saboroso é embrenhar-se por um tempo que lhe pertenceu quando moleque.

Outro aspecto importante, e que não costuma ser privilegiado na escolha do catálogo das editoras especializadas – a julgar pela predileção por contadores de causos operários, ou seja, com metas de publicação a bater – é o refinamento do autor. E Álvaro Cardoso Gomes é um de nossos melhores prosadores, constituindo uma sólida trajetória na literatura adulta, apesar de ser deletado do senso coletivo e reconhecido por uma minoria de iniciados.

Ao cerrar seu mundinho em códigos datados, a obra abarca um mundaréu jovem com o mínimo tino para a leitura. Não é preciso saber quem foi Sivuca para tornar-se cúmplice das desventuras do protagonista.

O traço econômico, marcado por pontuações rápidas e capítulos curtos é a estrutura perfeita para o desfile de preocupações que marcam Cardoso Gomes e seus pares contemporâneos. A sisudez do sistema de ensino – historicamente incapaz de lidar com a adolescência – e os pudores silenciosos das relações familiares, no ato contínuo de castrar-se o indivíduo em um meio marcado pelo rigor e zelo ao “futuro do menino”. E Beto encontrara o amor. Mas também os padrões de ascensão social, como a figura fraudulenta do Tagliato, premiado com um dez por uma redação escrita pelo pai, toda ela recheada de inofensivo parnasianismo, enquanto o potencial inventivo de Beto, insinuado em diversas passagens do livro, era tomado – aos gritos pelo mestre – como personificação do blasfemo. E tinha o Mário António, seu algoz. O cara que roubara sua paixão de tímido flerte, a Lúcia Helena.

Impossível não reconhecer um Mário António por ai, com sua pose galante e narcíseo ao limite. Não que Mário António fosse uma figura do mal, apesar de nos compadecermos pelo Beto: o antagonista era um cidadão sem crimes, sugado pela mentira de sucesso que projeta aos outros e seguramente deve ter tido, a despeito de sua clamorosa superficialidade, uma vida tranqüila mais para frente, com as nádegas a esquentar alguma cadeira de escritório. No teatro da vida, Beto ousara amar. E respeitar a inteligência da amada, desvelando-se um rapaz confuso, sem saber ao certo como dançar a música tão apreciada pelos convivas.

E foi o cosmopolita e letrado Lelo, seu irmão mais velho, quem ensinou o significado da palavra marginal. No sentido amplo e restrito. E também o apresentou à “literatura proibida” de Julio Ribeiro e Balzac. Beto adorou saber disso. Por breve interlúdio, acabou marginal restrito e não é difícil entender o por quê.

O mocinho errante encontrou seu rumo e, no vagão de trem que rumava para a capital, a Lucia Helena. Se nos sentimos vingados por ele, sabemos também que ali se encontrava, nos braços de sua enamorada garota, o “homem mais feliz do mundo”. O começo do fim. O cidadão enlaçado. Não pelo amor. Mas pela via de tráfego mais fácil. O Beto é um cara comum, que optou pela honradez de uma boa noite de sono ao carnaval que sempre tem um fim. Sou mais Beto que Mário António. Só não sei isso é alguma vantagem.

E desde então que peguei essa mania de, ao entrar em desatino, abrir um livro desconhecido. Mania boa essa a minha.

Para ir além






Daniel Aurelio
São Paulo, 7/11/2003

Quem leu este, também leu esse(s):
01. Quando o cotidiano vira espetáculo de Pilar Fazito
02. Os quadrinhos e o castelo do Graal de Gian Danton
03. Magia Verde de Vera Moreira


Mais Daniel Aurelio
Mais Acessadas de Daniel Aurelio em 2003
01. Canto Infantil Nº 2: A Hora do Amor - 7/11/2003
02. O Sociólogo Machado de Assis - 5/9/2003
03. Canto Infantil Nº 1: É Proibido Miar - 26/9/2003
04. O Calígrafo de Voltaire - 13/6/2003
05. Elogio Discreto: Lorena Calábria e Roland Barthes - 19/12/2003


* esta seção é livre, não refletindo necessariamente a opinião do site

ENVIAR POR E-MAIL
E-mail:
Observações:
COMENTÁRIO(S) DOS LEITORES
27/11/2003
15h26min
Daniel: Fiquei sensibilizado com seu texto sobre meu despretensioso "A hora do amor" que, apesar dos pesares, virou um best seller. Por que será? Sei lá, talvez por algumas das coisas que você tão bem aponta. Foi mesmo um prazer lê-lo. Um abraço do Álvaro Cardoso Gomes
[Leia outros Comentários de Álvaro Cardoso Gomes]
11/6/2004
17h51min
Daniel você não é o unico que leu esse livro a força. No meu caso(há anos) foi quase que por acaso e hoje é o meu livro de cabeceira, que me deixa calmo e me faz esquecer da correria do dia-a-dia de nossas cidades grandes. Já perdi as contas de quantas vezes li esse livro e toda a vez que eu o leio faz parecer que é a primeira vez (dou risadas sozinho, choro, fico com raiva do Mario Antonio...) e minha esposa pergunta mais uma vez: vai ler de novo este livro?
[Leia outros Comentários de Wellington Farias]
25/8/2009
19h36min
Adorei lê-lo! Dava altas risadas, entrei na história mesmo... amei! :D Queria saber se tem o número 2 dele :X Qualquer coisa, me avisa? Abraço *-*
[Leia outros Comentários de Maria Izabel]
COMENTE ESTE TEXTO
Nome:
E-mail:
Blog/Twitter:
* o Digestivo Cultural se reserva o direito de ignorar Comentários que se utilizem de linguagem chula, difamatória ou ilegal;

** mensagens com tamanho superior a 1000 toques, sem identificação ou postadas por e-mails inválidos serão igualmente descartadas;

*** tampouco serão admitidos os 10 tipos de Comentador de Forum.

Editora Record
Madras Editora
Bertrand Brasil
Civilização Brasileira
Cortez Editora
Companhia das Letras
Editora Perspectiva
Editora Conteúdo
Best Seller
Nova Fronteira
Editora Contexto
Intrínseca
Globo Livros
WMF Martins Fontes
Editora Francis
José Olympio
Hedra
LIVROS


RISCO E REGULAÇÃO


HIPÓLITO JOSÉ DA COSTA


ARCA SEM NOÉ


CRÍTICA DA ESTRUTURA DA ESCOLA


PROCEDIMENTO SUMARÍSSIMO - VOL. II


PEDAGOGIA EMOCIONAL - SENTIR PARA APRENDER


THE CLASSICAL GREEKS


A BÍBLIA - UM DIÁRIO DE LEITURA


SÃO TÓMAS DE AQUINO E SÃO FRANCISCO DE ASSIS


O QUE ACONTECEU NA TERRA?


BAÍA DA ESPERANÇA


UM ANARQUISTA E OUTROS CONTOS


ANTES QUE ANOCHEZCA


CARTAS A UM JOVEM POETA


EXPEDIÇÃO AO INVERNO


busca | avançada
64436 visitas/dia
2,1 milhões/mês