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Terça-feira, 25/5/2004
George Sand faz 200 anos
Helena Vasconcelos

+ de 3200 Acessos

É impossível evitar a constatação de que a obra literária de Georges Sand está fortemente “datada”, tornando a sua leitura um pouco penosa, o que, no entanto, não retira qualquer fulgor à sua personalidade. Imagine-se uma mulher que fez carreira sozinha – assumiu-se como escritora profissional – que participou intensa e activamente na vida social, política e intelectual do seu tempo, foi sedutoramente feminina – desencadeou paixões avassaladoras nos corações dos homens mais interessantes da época – utilizou poses e vestuário masculinos, quando tal lhe convinha, adorava fazer “tricot” e conseguiu ser castelã e mãe de família, enquanto produzia uma obra formidável, numa média de dois romances e várias centenas de textos de não-ficção por ano. Falta dizer que foi uma melómana entusiasta, que era uma amante do teatro – escreveu várias peças – e que pintava muito bem. (Quando chegou a Paris, para além do que auferia com os artigos para jornais, pintava caixas para ganhar a vida.) As suas aguarelas, sensíveis e delicadas, foram reunidas num volume e editadas em 1992, tendo-lhe sido atribuída a descoberta de um estilo, a “dendritage”. Embora Eugène Delacroix não se tenha mostrado impressionado, ela influenciou pintores como Alexander Herzen e Francois-René de Chateaubriand. Na literatura, estudiosos atentos dão como certa a sua influência nas obras de Dostoëvski, Tolstoi, Gustave Flaubert e Marcel Proust. Henry James, um seu admirador, descreveu a sua perplexidade em relação à produtividade da escritora, elogiando-lhe a capacidade de abordar “a maior parte dos temas do universo”, no exercício primoroso da sua arte.

George Sand nasceu como Amandine-Aurore-Lucile Dupin em Paris, no n°15 da rua Meslay, no dia 1º de Julho de 1804. O seu pai era ajudante de campo do príncipe Murat e acompanhava-o em expedições e campanhas bélicas. Com 4 anos Aurore e a mãe juntaram-se a Maurice em Madrid. Foi a primeira de múltiplas viagens. Pouco tempo depois, com a família de volta a França, Aurore foi confiada aos cuidados da avó, na propriedade familiar de Nohant, depois da morte do pai, vítima de uma queda de cavalo. Passou por um convento (Couvent des Anglaises em Paris, entre 1817-20) e teve preceptores para desenvolver a sua educação mas desde cedo se afirmou como um espírito independente. Depois de uma crise mística, exacerbada pela morte da avó, conheceu François-Casimir Dudevant, um jovem licenciado em Direito com quem se casou em 1822. Foi uma união de pouca dura, embora tenha dado origem a dois filhos, Maurice e Solange. (A menina parece já ter sido fruto de uma relação com um nobre das redondezas). Mas foi um jovem de dezanove anos, Jules Sandeau que provocou a separação. Dudevant, que se tinha tornado proprietário da casa de Nohant que era de Aurore por herança, de acordo com as leis da época, concordou em dar-lhe uma pensão – retirada do dinheiro da mulher – e Aurore foi juntar-se a Jules em Paris. Na cidade cosmopolita onde a lembrança da Revolução estava ainda muito viva a sua actividade não podia ser mais frenética. Começou por ajudar o amante que, na realidade não era muito dotado, escrevendo com ele variadíssimos textos com o intuito de o lançar na cena literária e passou a frequentar o ambiente boémio e fervilhante de ideias da cidade. De Jules (Sandeau) retirou o pseudónimo que a tornou célebre, embora o romance, Rose et Blanche ainda tenha surgido com o nome Jules Sand. Foi com Indiana (1832), que lhe granjeou uma fama imediata, que surgiu o definitivo George Sand. Seguiram-se Valentine (1832) e Lélia (1833) e a partir de 1831 estava já a escrever para o proeminente Le Figaro, iniciando assim a sua longa colaboração em jornais e revistas. Fez amizade com Prosper Mérimée, com o músico Franz Liszt, com Sainte-Beuve, com a actriz Marie Dorval e o seu gosto pelo teatro e pelas representações de marionetas – às quais dedicou grande atenção, tendo mesmo criado, mais tarde o Petit Théâtre de Nohant, num espaço da sua propriedade de família – fez dela uma espectadora atenta e com enorme sentido crítico. Foi por essa altura que adoptou o tipo de vestuário masculino que provocou escândalo mas que se tornou um dos aspectos importantes da sua personalidade.

Celebrar Georges Sand é reavivar as questões das fronteiras entre géneros. Numa época em que a androginia é um facto assumido na moda, na postura social, na arte, na literatura, o cruzamento entre os sexos nunca foi levado tão longe. Em Histoire de ma Vie, Sand explica de uma forma fascinante a forma como resolveu vestir-se à homem, quando começou a sua carreira literária em Paris. “Desejava ardentemente perder o meu provincianismo e informar-me directamente sobre as ideias e as artes do meu tempo… mas estava ao par das dificuldades de uma pobre mulher em gozar esses luxos… Assim, mandei fazer um redingote-guérite (casaco comprido masculino usado em 1830) em pesada fazenda cinzenta bem como calças e casaco a condizer. Com um chapéu também cinzento e um enorme lenço de lã (cravate) tornei-me na imagem de um estudante. Não consigo expressar o prazer que me davam as minhas botas. De boa vontade dormiria com elas… Com aquelas solas revestidas a ferro, sentia-me firme a andar pelas ruas e corri Paris de uma ponta a outra. Dava-me a sensação de que poderia dar a volta ao mundo. Com aquelas roupas não temia absolutamente nada. Saía para a rua estivesse o tempo que estivesse, voltava para casa a qualquer hora da noite, sentava-me em qualquer lugar obscuro do teatro. Ninguém me prestava atenção e ninguém suspeitava do meu disfarce.”

Foi a partir da publicação de Indiana que a sua vida conheceu uma grande mudança. O poeta Alfred de Musset que ela encontrara uma vez em casa de amigos, escreveu-lhe um bilhete com um poema, expressando a sua admiração pelo livro. A escritora respondeu-lhe cautelosamente, lembrando que a idade do poeta (20 anos) talvez fosse a causa de tanta excitação mas não deixou escapar a ocasião para o convidar a visitá-la: “…se, (apesar de tudo) se sente tentado em entrar na cela de uma reclusa, será recebido com gratidão e cordialidade” (Cartas de Georges Sand a Musset). Foi o início de uma grande paixão. Numa questão de semanas partiram juntos para uma viagem romântica a Itália, celebrada por ambos com igual arrebatamento. (Musset lembrava-se como, depois de uma extenuante noite de amor, acordava de madrugada e deparava com Sand a escrever furiosamente à luz da vela). Juntos desceram o vale do Rhône na companhia de Stendhal e instalaram-se em Veneza, onde Musset adoeceu gravemente o que, para além dos arroubos de ciúme mútuo, contribuiu para ensombrar a estadia. Musset desconfiava de uma ligação de Sand com o médico italiano Pagello, tendo este facto apressado a ruptura entre os dois amantes.

As paixões não impediram Sand de continuar a escrever e os anos trinta passam-se num fervor literário e político. A influência de Saint-Simon, que pregava contra os males da sociedade industrializada, de Michel de Bourges, um ardente revolucionário, e de Pierre Leroux que apregoava as suas ideias contra a propriedade e defendia os direitos das mulheres foi decisiva na formação de Sand como escritora panfletária. É importante lembrar que estes eram tempos tumultuosos e que o espírito romântico se deixava arrebatar por ideias de revolução e de defesa de ideais. Sand nunca deixou de defender o socialismo (tinha grandes discussões com Flaubert) mas o falhanço da Revolução de 1848 em França, deixou-a desapontada. Retirou-se para Nohant, fazendo-se rodear da família, de amigos (Liszt e Marie d’Agoult eram visitas habituas) e amantes, criando uma espécie de comunidade livre, na qual se dava primazia à Arte e à Natureza. Foi a partir dos anos quarenta que fez prevalecer nos seus escritos o género de escritora “rural” que passou a ser a sua marca de estilo.

Aos 33 anos, Sand fez uma nova conquista. Desta feita foi Chopin – um homem frágil tal como Musset – que, a princípio não a achou nada atraente. Mas depressa foi arrebatado pela sua forte personalidade, mantendo com ela uma relação apaixonada e muito ligada à música. Ficaram juntos dez anos e o romance acabou em parte porque Sand desconfiava que Chopin poderia ter começado uma relação com a sua filha Solange.

Em 1850 Sand iniciou um novo romance com Alexandre Manceau que era amigo do seu filho e foi seu secretário. A morte da neta, filha de Solange, foi um enorme desgosto, o que a levou a empreender uma nova viagem a Itália, para se afastar do ambiente de luto que invadiu a casa.

Sand passou o resto da sua vida entre Paris e (cada vez mais) em Nohant, mantendo, no entanto, a inquietação que a levava a viajar assiduamente. Viandante inquieta e atenta, escreveu longamente sobre as suas deambulações pela Europa, utilizando a facilidade de expressão para descrever os mais ínfimos pormenores e o seu olhar arguto para observar o que a rodeava: Voyage en Espagne, Voyage en Auvergne, Lettres d'un voyageur, Un hiver à Majorque são alguns dos inúmeros títulos que dedicou a este tema. Incansável, irrequieta, amando a vida e as pessoas Sand morreu e 8 de Junho de 1876 em Nohant. Dois dias depois o seu funeral juntou os amigos e admiradores, incluindo Flaubert, Alexandre Dumas filho e o príncipe Napoleão que vieram de Paris para prestar as suas derradeiras homenagens à mulher que não conheceu o falhanço nem nunca se deixou vencer por contrariedades.

A influência de Sand fez-se sentir quase imediatamente, principalmente porque ela, com a sua vincada personalidade, criou um “tipo” de mulher-poeta/escritora que abalou para sempre as perturbadas fronteiras entre os géneros. Elizabeth Barrett (mais tarde, Browning) celebrou Sand em dois sonetos e Aurore Dupin adoptou mesmo o nome George Sand, em homenagem à escritora.

Balzac, um grande amigo da escritora, inspirou-se na sua figura em romances como Seraphita no qual o tema da androginia é o centro da trama e é ainda de Sand – e das relações desta com personalidades tão delicadamente “femininas” como Chopin e Alfred de Musset – que ele vai buscar personagens como a “ilustre hermafrodita” Félicité de Touches bem como a heroína de Cousin Bette, outro hermafrodita que exercita o seu poder – utilizando “ódio e vingança descomprometidos como acontece em Itália, Espanha e no Oriente” – sobre um pálido poeta polaco. Quanto a Mademoiselle de Maupin de Théophile Gautier – que Sainte-Beuve considerou “a Bíblia do Romantismo” - é um romance histórico sobre uma actriz bissexual e travesti do século XVII que vai buscar à figura de Sand o “espírito viril”, a fisionomia e a pose.

Os livros e a forma como George Sand viveu provocaram sempre controvérsia, principalmente porque ela sempre questionou as questões de género, tendo sido acusada de lesbianismo e ninfomania. Na realidade, ela foi, simplesmente, uma mulher especial num tempo especial, uma escritora que dizia não fazer distinção entre homens e mulheres, entre factos e ficção, entre vida privada e vida pública.

Nota do Editor
Texto gentilmente cedido pela autora. Publicado originalmente na Revista Storm, editada por Helena Vasconcelos em Portugal. (Foi mantida intacta também a grafia original.)


Helena Vasconcelos
Lisboa, 25/5/2004

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