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COLUNAS

Segunda-feira, 1/11/2004
Crônica da Mostra e as 10 lições de Kiarostami
Lucas Rodrigues Pires
+ de 1000 Acessos

Enfim, tive tempo para ir ver algum filme da Mostra. Tentei ver Bens Confiscados, do Carlos Reichenbach (o mesmo diretor de Garotas do ABC, sobre o qual escrevi aqui recentemente), mas não consegui porque a sala do cinema (Cinearte) alterou o horário da sessão. Preparei-me todo para a sessão das 20 horas, mas quando chego lá o meu filme seria só às 22 horas. É de desanimar qualquer um. Mas Mostra Internacional de Cinema é isso mesmo. São quase 300 filmes em menos de 15 dias. É tão incrível o que esse pessoal traz para cá que chega a ser ruim para nós ter tanta oferta. Embaralha tanto que dificulta uma escolha. Há aqueles que buscam os nomes carimbados (nesta diria que são Almodóvar, Bertolucci e Wim Wenders), mas há aqueles que buscam descobrir alguma pérola de um país inusitado. São as opções de cada um.

Meu primeiro filme nesta 28ª edição da Mostra, na verdade, não foi nenhum inédito – 10 (Ten), do Abbas Kiarostami. Para quem não conhece, esse diretor é o homem que popularizou o cinema iraniano no mundo na década de 80. Seus filmes viraram cult e presença garantida em mostras e festivais pelo mundo. De fato, o meu maior interesse era em outro filme do Kiarostami – 10 Sobre 10, uma obra metalingüística em que o diretor, de dentro de um carro, explica coisas de seu filme anterior (10) e fala sobre sua forma de fazer cinema. No fundo, seria uma aula de cinema em 10 passos (daí o título). Eis que pensei: “Preciso ver o 10 antes para poder ver o 10 Sobre 10”. Foi o que fiz, no mesmo dia acabei vendo os dois.

A sessão era às 19h30 horas. Às 21 horas o diretor – o homenageado da Mostra com a retrospectiva – estaria na sala para uma conversa com o público. Daí o auditório da FAAP estar lotado e a organização da faculdade deixar parte do público esperando lá fora para ver se teria lugar para todos. A direção informou que os alunos teriam prioridade de assento. Depois de passar frio esperando, pudemos entrar e consegui me aconchegar lá na frente, um lugar bom para quem não enxerga as legendas com nitidez. Enquanto aguardava o início, uma menina sentou na fileira da frente. Jovem, bonita, virou pra mim e perguntou: “Que filme que vai passar, hein, você sabe?”. Estranhei a pergunta, mas respondi educadamente que seria um filme iraniano e que o diretor estaria aí depois. Em seguida, foi minha vez de perguntar: “Você não estuda aqui na FAAP? Não veio para a palestra do Kiarostami?”. Ouvi de volta: “Não faço Cinema, estudo Publicidade. Nem sabia o que ia ter, mas do que se trata esse filme?”. Sentindo o desastre que se aproximava, tentei explicar para ela o que viria a ser um filme iraniano. “Olha, filme iraniano é meio parado, nesse filme o diretor vai, em 10 planos fixos, falar sobre o que é cinema para ele. E tudo isso de dentro de um carro”. E ela: “Xi, não gosto disso. Estou vendo que vou sair na metade”. Aí terminou nosso papo. 5 minutos depois, antes de começar o filme, ela se levantou e foi embora.

Mas enfim a vida não é, nunca foi e nem nunca será um sistema ideal. Estamos nela para vivenciar a diversidade e na diversidade encontrar algumas semelhanças que nos aproximem de outro alguém. Antes de iniciar a projeção, Kiarostami foi apresentado à platéia. Muitas palmas para ele e para o cineasta português Manoel de Oliveira, outra figurinha carimbada de Mostra que estava na platéia para a exibição do filme do colega. O diretor iraniano, em um discurso rápido aos presentes, disse que acreditava ser aquele público ali presente o mais adequado para ver o seu filme (acho que ele não viu a menina do parágrafo anterior saindo da sala...).

10 e 10 Sobre 10 têm a mesma estrutura: divididos em 10 blocos, se passam dentro de um carro em movimento. A câmera é fixa e filma apenas um personagem. No primeiro, uma mulher dirige e cada plano é uma pessoa com quem ela conversa: seu filho (três vezes), uma prostituta, uma mulher em crise com o noivo, uma outra senhora. Nesse trajeto, que não acontece num único dia, os temas do cotidiano aparecem e o que chama a atenção é a briga da motorista com seu filho, o que acaba com o menino indo morar com o pai.

O mais interessante na verdade é o outro filme, 10 Sobre 10. Aqui, Abbas Kiarostami faz uma reflexão sobre o que é o cinema de hoje e o que ele entende por cinema. Abordando tópicos como direção, cinema digital, atores, roteiro e locação, vai explicando seu método de trabalho e o que busca com seus filmes. Dentro de seu discurso, e explicitamente no último plano, ele polariza seu cinema com o cinema de Hollywood.

Para Kiarostami, cinema é arte e é feito de seres humanos. Daí seu cinema refletir a condição humana, ser um tanto existencialista e baseado no cotidiano. Ele afirma ser um vício o que se criou em torno do cinema: de que o mesmo deve contar uma história. Confundem contar uma história com grandes acontecimentos, ação, aventura, etc. Para seu propósito, um garoto levar um livro esquecido pelo amigo até a casa deste na vila vizinha é uma grande história (Onde Fica a Casa do Meu Amigo?). Tudo que fala sobre o homem é matéria para seu cinema, que ficou mais fácil e espontâneo com a tecnologia digital. Em sua fala, o diretor se entusiasma com a naturalidade e espontaneidade de filmagens feitas com câmera digital. Cita seu filme ABC África, um documentário sobre crianças com Aids em Uganda, como exemplo disso. Seu maior objetivo é buscar a realidade no cinema, fazer um cinema neo-realista. Seus atores não são profissionais e ele faz com que tentem ao máximo interpretar a si mesmos (a mãe e o filho de 10 são mãe e filho na vida real).

Kiarostami fala também sobre angulação de câmera, que nenhum corte ou plano deve ser sem objetivos, e que nunca deu ordens para seus atores ou mandou que se vestissem assim, que não usassem isso ou aquilo. Afirma que seus atores são aquilo que aparece em cena, mais uma tentativa de se aproximar daquela realidade que ele frisou almejar. Ao final, o diretor explica como se fazia e se faz cinema. “A primeira geração de cineastas, de quando nasceu o cinema, olhava a vida e fazia filmes. A segunda olhava para esses filmes e para a vida e fazia filmes. A terceira voltava seus olhos para os filmes até então feitos para fazer seus filmes. A quarta, que é a nossa, não olha nem para os filmes e nem para a vida para fazer seus filmes. Ela vê só o que é possível fazer em termos de efeitos e tecnologia”.

Terminadas as 10 lições de cinema, Kiarostami aconselha os jovens: “Se querem fazer sucesso, sigam as fórmulas americanas de cinema” (basicamente: emocionar, fazer chorar e não dar tempo para pensar). Depois disso, volta-se para a câmera e diz ao público que aproveitasse a paisagem enquanto ele daria a volta no carro para desligar o equipamento. Ele sai de cena, mas não a desliga ainda. Pega a câmera, tira-a do carro e filma em close um buraco de formiga na estrada de terra em que parara o carro e do qual formigas saíam e entravam carregando comida. Eis a metáfora ideal de Kiarostami: seus filmes são como pequenas formigas.

Post Scriptum
Como são bonitas e criativas as apresentações da Mostra de Cinema baseadas nos cartazes de cada ano. Eu me refiro àquele vídeo que é exibido antes de cada sessão. Um primor, um primor. Vale tanto quanto os filmes. O deste ano (cartaz abaixo) foi criado pelo israelense Amos Gitai, que apresenta nesta edição da Mostra o filme Terra Prometida.



Lucas Rodrigues Pires
São Paulo, 1/11/2004

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