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COLUNAS

Quarta-feira, 26/1/2005
Sexo pra quê? Texto onde?
Ana Elisa Ribeiro

+ de 7300 Acessos

Até o século XIX, mulher tinha que andar vestida até o pé. Mostrar as canelas já era sensual demais pra uma boa moça. Nos livros de Machado de Assis, especialmente os da primeira fase, era o orgasmo espontâneo para um homem assistir a uma pequena amostra dos braços alvos das senhorinhas ingênuas e desavisadas. Quem não teve que ler, ao menos na escola, o conto "Missa do Galo", em que o mestre apresentava ao leitor uma atmosfera sensual só porque o garoto desejava, timidamente, uma senhoura casada?

Naquela época também não existia esse conceito de "politicamente correto", então o conto meio "corrupção de menor" não dava o que falar por este motivo, mas, talvez, por outros. Assim como Alencar, um tanto antes, construiu nem sei quantas cortesãs, que hoje aparecem com outro nome, numa literatura moralista de moças que se tornaram putas por um desvio do destino, sofreram como Marias e morreram tísicas, que era pra ficar claro que mulher tem que ter boa conduta.

Já no Realismo, as ex-cortesãs começam a aparecer menos limpinhas e educadinhas e passam a transar com todo mundo no pátio do cortiço. Em troca de alimento, no entanto, e não descaradamente em troca de um prazer desmesurado.

Mas quem andava a escrever essas ousadias era sempre homem. Os jovens Alencar, Assis e Aluísio tagarelavam sobre cenas de sexo discretas, mas podiam dizer dessas coisas o que quisessem, embora com um vocabulário muito improvável para a atualidade. Quem aqui leu uma escritora do século XIX? Alguém? E sobre o que ela versava? Então me citem uma estrangeira famosa? E uma cena de sexo? Vão citar Sade? Mas isso é de muito antes, numa época em que ser lésbica era cultural, e não um problema social, como ficou sendo mais recentemente.

No século XX, as moças escritoras começaram a aparecer e teceram assuntos como a seca nordestina e o dia-a-dia maquinal de uma mulher urbana. Rachel, Cecília e Clarice vêm acenando com sua competência lingüística incomum e seus temas levemente diversos daqueles que eram comuns aos escritores. A seca de Rachel é diferente das secas de Graciliano e de José Lins. Os narradores são estranhamente deslocados entre si. O jeito de observar não é o mesmo e então uma nova direção de arte começa a acontecer pelos olhos de uma mulher que escreve.

Talvez José Lins não tenha se detido em narrar uma moça chupando chiclete ou uma galinha fujona. Mas se deteve no sertão tórrido dos engenhos. E as moças vieram somar olhares à literatura angular dos homens.

No entanto, Cecília prima pela delicadeza e pela destreza com a poesia. Não apareceu porque narrava cenas de sexo explícito na década de 1930. O mesmo ocorre com Clarice, que embora fosse extremamente sexy na forma de observar os fatos e mostrá-los ao leitor, não é conhecida pela qualidade dos palavrões que emprega com ou sem propriedade. Henriqueta também não virou uma persona puta de sua própria obra. São todas escritoras que desferem golpes com suas escritas semiperfeitas, mas não deixam de lado a elegância. Elegância esta que também pode ser aprendida pelos homens que escrevem.

Depois delas, apareceram mais tantas mulheres e suas obras fantásticas. Na década de 1970, as jovens marginais e difusoras de uma poesia incisiva. Os assuntos jamais, entre homens e mulheres, deixaram de estar ligados à história social de todos. No entanto, essa mesma história cai com pesos diferentes sobre os ombros de uns e outros. Se não posso citar dez escritoras conhecidas no século XIX, então isso faz parte da não-cultura letrada da história forçada das mulheres. E isso dá à cena ângulos diversos dos masculinos, que podem ser citados desde imemoráveis tempos.

No entanto, hoje estão aí séries de escritoras conhecidas, de gerações diversas, sobre as quais a história incide de várias formas e me intriga muito o fato de essa nova literatura primar nem tanto pela qualidade, mas pela tentativa de se parecer com o olhar do macho. Não uma sensualidade oportuna, mas um tesão forçado e gratuito pela palavra tosca e pela cena sexual despropositada. O mesmo digo dos homens, que, em alguns casos (fique claro), mostram listas de impropérios e assunto nenhum.

Narrar sexo é difícil. Um homem narrando sexo tem grandes chances de soar ridículo, quando não falso e exagerado. Uma mulher narrando sexo tem ainda mais riscos de se parecer um pastiche do mau narrador homem. Porque o olhar de cada um é diverso, assim como a sensibilidade, mesmo porque a mulher tem lá sua ocupação na transa, que não é a mesma (ao menos que eu saiba) do macho injetor.

Então pra quê achar que está indo bem porque se parece um homem? Por que não sair da fase freudiana em que se tem inveja do pau? Por que a referência masculina para algo que pode ser excelente, mesmo sendo diferente? Por que empregar palavrão gratuito se o importante é a literatura?

É por essas e outras que Ivana Arruda Leite continua sendo universal, porque é uma contadora de histórias que consegue ser andrógina e atriz quando constrói com sua lança um olhar de mulheres e de homens com suas respectivas sexualidades e percepções. É por isso que a poesia de Micheliny Verunschk pode ser tão cheia de imagens e tão delicada, mesmo que cause um impacto bruto. Assim também o texto arredondado de Daniela Castilho e a prosa por estocadas de Índigo. Todas elas no Especial Harém do Patife.

Eu ainda espero pelo século em que será possível ao leitor citar muitas escritoras que primaram pela qualidade e pela graça de serem escritoras, com M maiúsculo.

E por falar nisso...
Ao contrário do que rezam as lendas sobre a índole desordeira e sonhadora dos poetas, Ana Cristina César era professora de português e mestre em Comunicação Social pela UFRJ. Viajada, culta, poliglota e tradutora, bonita e talentosa. A única coisa que a torna legendária é o suicídio aos 31 anos, idade que parece tão produtiva e acelerada. (No Brasil, estamos começando agora a não ter que falsificar atestados de óbito para ficarmos famosos).

Para não fazer injustiça, é bom mencionar a obra poética de Ana Cristina, que escreveu desde muito jovem e vem sendo reeditada sempre. Exemplo disso é a coleção Novas Seletas, da Editora Nova Fronteira, que colocou a poeta entre os nomes que merecem ser relembrados com uma cuidadosa e sintética coletânea dos melhores textos.

No caso de Ana Cristina, o amigo e curador de sua obra, Armando Freitas Filho, cuidou da organização de um livro leve e fotográfico da produção literária da carioca. Projeto gráfico moderno, atitude didática e leveza sedutora são características de uma coleção que tem, nitidamente, a intenção de ser apresentada aos ensinos fundamental ou médio das escolas brasileiras. Isso porque se a editora tem fins lucrativos (e paradidático é um bom negócio), os artistas têm fins de divulgação da obra. Sendo assim, preparou-se um glossário de termos mais complicados, além de um ensaio de Silviano Santiago, uma nota do próprio Armando Freitas Filho e uma biografia resumida da autora.

Poemas de todos os livros de Ana Cristina foram organizados por datas e levam o leitor a um passeio pela trajetória poética da autora, dando a nítida impressão de um aclive, sem muita sinuosidade.

Ana Cristina era breve, no entanto extremamente metafórica, sem ser chula gratuitamente. Se alguns poemas são curtos, simples e delicados, outros beiram o hermetismo. E mania que ela jamais parece ter abandonado foi a de citar trechos inteiros de outros poetas, atitude que para uns pode parecer pastiche, para outros, charme.

A autora mostra-se leitora contumaz de literatura contemporânea a ela e mostra uma janela transparente por onde o leitor pode vislumbrar o que ela lê. Deixa nos versos (livres e desimpedidos) e sensação de que escreve enquanto respira e a vida lhe atravessa as palavras. Não esconde e nem inventa, apenas empresta aos leitor as lentes com que enxerga. Se ela se pergunta: “A poesia pode me esperar?”, a certa altura, responde: “Não quero mais pôr poemas no papel/ nem dar a conhecer minha ternura”. Se viveu na década de 1970, afirmou que “Sou uma mulher do século XIX/ disfarçada em século XX”.

Nem a poesia nem a vida esperaram por Ana, que parecia viver um tom abaixo da nota de referência ou num eterno bemol. A poesia que ficou, no entanto, dá fé da poeta intensa e da escrita enciumada.

Bom livro para se ler deitado, com a janela aberta e a corrente de vento suave. Talvez as escolas também devessem investir mais na leitura de quem produziu literatura de 1970 para cá. Eis uma boa oportunidade.

Para ir além






Ana Elisa Ribeiro
Belo Horizonte, 26/1/2005

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