A Invenção de Orfeu de Jorge de Lima | Fabrício Carpinejar | Digestivo Cultural

busca | avançada
48122 visitas/dia
1,5 milhão/mês
Mais Recentes
>>> Documentário "Trieletrizado" destaca a malha multicultural do carnaval de Salvador
>>> Fotógrafo celebra esporte e felicidade no samba
>>> TV Brasil apresenta atrações do Carnaval de Salvador nesta sexta (5)
>>> A AUTOESTIMA DO SEU FILHO,
>>> Coisas do Brechó estreia dia 12, no Teatro Municipal Café Pequeno
* clique para encaminhar
Mais Recentes
>>> A proposta libertária
>>> O regresso, a última viagem de Rimbaud
>>> E Foram Felizes Para Sempre
>>> O Olhar das Bruxas: Quatro Versões de 'Macbeth'
>>> Lira da resistência ao futebol gourmet
>>> Com quantos eventos literários se faz uma canoa?
>>> Terna e assustadora realidade
>>> De louco todos temos um pouco
>>> A coerência de Mauricio Macri
>>> Em 2016, pare de dizer que você tem problemas
Colunistas
Últimos Posts
>>> Patuá em festa
>>> Literatura: direito humano
>>> Geraldo Rufino no #MitA
>>> Portal dos Livreiros: 6 meses!
>>> Ryley Walker
>>> Leia Mulheres - BH
>>> Adagio ma non troppo
>>> Psiu Poético 30 anos
>>> Uma cidade se inventa
>>> Vale a pena ver de novo
Últimos Posts
>>> AÇÃO DE GRAÇA
>>> Metáfora em cedro
>>> Quimeras
>>> Em busca de extrema unção
>>> Malabar
>>> O voo, o véu e a verdade
>>> Tipos inesquecíveis da política americana
>>> Sangue oxigenado
>>> 20 anos de Graça Infinita, de David Foster Wallace
>>> A inveja é a arma dos incompetentes - Artigo
Blogueiros
Mais Recentes
>>> Ode à Mulher
>>> 16 de Agosto
>>> Hitler e outros autores
>>> O Aspirante a Corrupto
>>> Chico Buarque e o Leite derramado
>>> A derrota do Brasil e as arbitragens na Copa
>>> Vale a pena ver de novo
>>> O melhor das revistas na era da internet
>>> FLIP 2006 I
>>> Te ganhar ou perder sem engano
Mais Recentes
>>> COORDENADOR/SUPERVISOR PEDAGÓGICO: Desafios, Reflexões e Perspectivas na Prática do Cotidiano
>>> DOENÇAS, CURA E SAÚDE à luz do espiritismo
>>> MENTE SEM LIMITES- como desenvolver a visão remota e aplicá-la na cura a distância e na transformação da consciência
>>> LÍNGUA E CONHECIMENTO LINGUÍSTICO- Para uma História das Ideias no Brasil
>>> As Crônicas de Nárnia
>>> Por Que os Homens Têm Medo de Compromisso?
>>> Fazendo Pose
>>> O PROFETA FERIDO-Um retrato de Henri J.M. Nouwen
>>> Lucíola
>>> Vinha das Ira, As
>>> O Alienista
>>> Bíblia King James
>>> Deus não se cansa de perdoar!- Mensagens de misericórdia
>>> Terapia não- convencional- As Técnicas Psiquiátricas de Milton H. Erickson
>>> deus não é Grande
>>> Coleção Teláris - Ciências 9° ano
>>> DESTINO DO TOXICÔMANO
>>> A vida espiritual segundo sao Tomás de Aquino na suma teológica
>>> Marley & Eu
>>> O estado
>>> Curando com Amor
>>> MITO E METAFÍSICA- Introdução à Filosofia
>>> 3096 dias
>>> PAZ INTERIOR
>>> Os Litigantes
>>> O TESTAMENTO DE SÃO JOÃO
>>> Indecisão
>>> AS TÁTICAS E O JOGO DE PODER DE JESUS CRISTO e outros ensaior
>>> O Sacerdócio Expiatório de Jesus Cristo
>>> Em busca do perispírito
>>> Apologia contra os livros de Rufino
>>> TAO TE KING-o livro que revela Deus
>>> Jogando por Pizza
>>> O Último Jurado
>>> O Rei das Fraudes
>>> O Advogado
>>> Convergências
>>> O RENASCIMENTO DA NATUREZA- O Reflorescimento da Ciência e de Deus
>>> Fogos da primavera
>>> Quando nosso boteco fecha as portas
>>> Michael Kohlhaas
>>> Estilo Ipanema
>>> Incrivelmente simples
>>> Filosofia em 60 segundos
>>> Existencialismo
>>> Câncer tem cura!
>>> O Homem Que Fazia Chover
>>> A fazenda - brincando com dobraduras
>>> Meu 1º atlas
>>> Aprendendo a desenhar
COLUNAS

Quinta-feira, 14/7/2005
A Invenção de Orfeu de Jorge de Lima
Fabrício Carpinejar

+ de 27700 Acessos
+ 1 Comentário(s)

O alagoano Jorge de Lima cumpriu um prodígio. Sua última obra, Invenção de Orfeu, publicada um ano antes de falecer, em 1952, até hoje é um enigma aos leitores e críticos, que se debatem em hipóteses e subterrâneos para entender seu longo poema de dez cantos. O escritor não facilitou o caminho para ninguém, criou um hipertexto lírico a inaugurar a pós-modernidade as trevas na poesia brasileira.

O desafio novamente está posto. A editora Record recoloca Invenção de Orfeu (430 páginas) nas prateleiras, depois da obra ficar vinte anos fora de catálogo. A resistência ao livro, ainda culto de iniciados, deve-se ao predomínio de uma crítica realista no Brasil, que enfatizou a cotidianização da linguagem e o apelo ao engajamento social e à compreensão estrutural da realidade. Jorge de Lima, adepto da transcendência, ficou de fora do panteão dos clássicos. Aliás, é de se preocupar o medo que a crítica tem de "Deus" na poesia. Parece que o ateísmo virou, de modo equivocado, sinônimo de boa literatura. Cecília Meireles somente agora está sendo redescoberta (graças inclusive à acurada leitura de Ítalo Morriconi em sua antologia de cem melhores poemas), Augusto Frederico Schmidt desapareceu completamente das livrarias, Murilo Mendes sobreviveu em função do experimentalismo de Convergência, mas pagou alto o preço de seu catolicismo e de seu projeto que buscava restaurar a poesia em Cristo, ao lado do próprio Jorge de Lima, seu parceiro do livro Tempo e Eternidade (1935). A tradição ibérica, barroca e religiosa foi catalogada como uma ramificação secundária quando, na verdade, é o tronco da literatura do país. Falsearam a história literária? É certo que o cânone seria outro, se uma produção inconsciente e mística tivesse chance de ser lida e discutida.

Jorge de Lima era considerado por Mário Faustino "um pequeno poeta maior", mas o "nosso único poeta maior". Invenção de Orfeu se constitui em o poema mais ambicioso da literatura brasileira, cosmogonia dotada dos mais altos vôos e das piores quedas. Magnus opus do autor ou fenomenologia do ser ("como conhecer as coisas, senão sendo-as"), relata a trajetória de um "barão assinalado, sem brasão, sem gume e fama" que relembra seus dias de aventura desde a fundação da ilha (metáfora do Brasil, arquipélago infernal onde permaneciam os heróis gregos) até o apocalipse final. O livro é um épico subjetivo, o que já era uma novidade na época. Pois todo épico pressupõe objetividade e Jorge de Lima não sustenta a linearidade, impregnando sua escrita de ecos, comparações, citações e uma trepidação nervosa que funde passado, presente e futuro no mesmo tom dramático. Não tem a segurança da narração, característica do épico, que tudo observa e julga, porém a insegurança de quem se descobre réu de sua história. Assim como não existe um tempo histórico, e sim um tempo ininterrupto de linguagem. Apesar do tema único, a obra não revela uma unidade. É um emaranhado de planos e interfaces, que ora se perfazem, ora se repelem. O manto lingüístico funciona como uma feitiçaria verbal, um fluxo de consciência, onde a "voz poética" não tem direito às censuras e mentiras, às fugas e evasões, vivendo um estado de permanente verdade, confissão e delírio febril. "Para unidade deste poema,/ ele vai durante a febre,/ ele se mescla e se amealha,/ e por vezes se devassa".

É pouco estudada a relação de Jorge de Lima pintor, premiado com menções no Salão Nacional de Belas Artes e na 1ª Bienal de São Paulo, com Jorge de Lima poeta. A natureza polifônica de Invenção de Orfeu talvez resida nesse cruzamento de técnicas. A pintura em pânico, seu álbum de fotomontagens de 1943, revela o processo de Invenção de Orfeu. A colagem é a marca de um trabalho surrealista que mistura o sagrado e o profano, o vulgar e a erudição, em camadas sobrepostas de oratória. Uma medusa que aponta para todos os lados. Longe de um texto hierárquico, denota uma poesia convulsionada, que esconde, distorce e deforma, rica em signos, símbolos e excertos de diversas fontes em uma viagem sem volta. O crítico capixaba Luiz Busatto teve a clarividência de exceção e desvendou parte do segredo da intertextualidade, em Montagem em Invenção de Orfeu (1978). Jorge de Lima parafraseia, sem aspas, e edita trechos inteiros da Divina Comédia, de Dante, do Paraíso perdido, de John Milton, d'Os Lusíadas, de Luís Camões, e de Eneida e Geórgicas, de Virgílio. Desenraiza as identidades dos fragmentos, altera o chassi e raspa a numeração. Invenção de Orfeu pode ser visto como um cemitério de carros roubados.

Tal palimpsesto e com um ímpeto de transgressão modernista, Jorge de Lima reescreve sobre um texto clássico, introduzindo pequenas diferenças e paralelos e espelhando cada vez mais o fundo. Mais do que se pôr de igual para igual com seus mestres, reencarna-os na glosa. Um exemplo é a quadra de um dos mais belos sonetos do livro: "A garupa da vaca era palustre e bela,/ uma penugem havia em seu queixo formoso;/ e na fronte lunada onde ardia uma estrela/ pairava um pensamento em constante repouso." O trecho remete à Geórgicas III, de Virgílio, em tradução de Antônio Feliciano de Castilho, em que a descrição da vaca igualmente começa com sua beleza e termina com seu repouso. E o pior, a vaca virgiliana apresenta a pedra-de-toque do verso: a "fronte lunada".

Lima não empregou impunemente essas paráfrases em sua corrente sanguínea. As apropriações têm um claro desejo e objetivo. Invenção de Orfeu almeja ser a história espiritual da poesia do Ocidente. É o poeta, todos poetas em um (Dante, Camões, Virgílio, Homero, Ovídio, John Donne, Rimbaud, Gerard Manley Hopkins), que está em julgamento. "Éramos graves, éramos poetas", no "reino unido das abelhas, solo de ouro". Daí "o inventário do verso", como caracterizou Mário Faustino, utilizando várias formas poéticas como oitavas clássicas, tercetos e sextinas. Entre os mistérios da morte e a efusão da infância, evoca os círculos do inferno e do paraíso, monstros e bestas, reinventa mitos como Inês de Castro. Poesia dentro de poesia, metalinguagem em estado puro. Um testamento coletivo, a biografia de uma fé. O poeta pede perdão em sua derradeira obra. Insinua que o verbo não salva, condena. O escritor seria um condenado. Invenção de Orfeu não é mesmo um épico, mas uma oração. Deus não escreve, tarefa confiada aos seus apóstolos. Somente Jorge de Lima poderia terminar seu livro com "Amém".

Nota do Editor
Fabrício Carpinejar é poeta, autor de sete livros: entre eles, Como no céu/Livro de visitas (2005), Cinco Marias (2004) e Caixa de Sapatos (2003). Este texto foi originalmente publicado no "Caderno Fim de Semana", da Gazeta Mercantil, e reproduzido aqui com sua autorização.

Para ir além






Fabrício Carpinejar
São Leopoldo, 14/7/2005


Quem leu este, também leu esse(s):
01. Livro das Semelhanças, de Ana Martins Marques de Jardel Dias Cavalcanti
02. A trilogia Qatsi de Guilherme Carvalhal
03. Marcelo Mirisola: entrevista de Jardel Dias Cavalcanti
04. Mais uma crise no jornalismo brasileiro de Julio Daio Borges
05. O romance do 'e se...' de Cassionei Niches Petry


Mais Fabrício Carpinejar
Mais Acessadas de Fabrício Carpinejar em 2005
01. A Invenção de Orfeu de Jorge de Lima - 14/7/2005
02. Separar-se, a separação e os conselhos - 18/1/2005
03. Pais e filhos, maridos e esposas II - 20/4/2005
04. Separar-se, a separação e os conselhos II - 11/3/2005
05. Pais e filhos, maridos e esposas - 25/3/2005


* esta seção é livre, não refletindo necessariamente a opinião do site

ENVIAR POR E-MAIL
E-mail:
Observações:
COMENTÁRIO(S) DOS LEITORES
15/7/2005
23h45min
Ótimo texto, caro Carpinejar. Jorge de Lima, que influenciou Glauber Rocha, merece de fato ser revisitado. Assim como, você lembra, Murilo Mendes. Às vezes é bom lembrar nossos bons poetas, que de tempos em tempos ficam esqucidos. Daí a importância inegável de tua resenha sobre a "Invenção de Orfeu", que a Record está colocando na praça.
[Leia outros Comentários de Humberto Pereira]
COMENTE ESTE TEXTO
Nome:
E-mail:
Blog/Twitter:
* o Digestivo Cultural se reserva o direito de ignorar Comentários que se utilizem de linguagem chula, difamatória ou ilegal;

** mensagens com tamanho superior a 1000 toques, sem identificação ou postadas por e-mails inválidos serão igualmente descartadas;

*** tampouco serão admitidos os 10 tipos de Comentador de Forum.




Digestivo Cultural
Histórico
Quem faz

Conteúdo
Quer publicar no site?
Quer sugerir uma pauta?

Comercial
Quer anunciar no site?
Quer vender pelo site?

Newsletter | Disparo
* Twitter e Facebook
LIVROS




MAHATMA GANDHI - O APÓSTOLO DA NÃO-VIOLÊNCIA
HUBERTO ROHDEN
MARTIN CLARET
(2014)
+ frete grátis



ESTRATÉGIA COMPETITIVA
MICHAEL E. PORTER
CAMPUS
(2004)
+ frete grátis



A CARTA DO PIRATA FRANCÊS
ROGÉRIO ANDRADE BARBOSA
SARAIVA
(2000)
+ frete grátis



HEADHUNTERS
JO NESBO
RECORD
(2012)
+ frete grátis



TRANSÍSTOR - ANTOLOGIA DE PROSA
MURILO MENDES
NOVA FRONTEIRA
(1980)
+ frete grátis



EXISTENCIALISMO
JACK REYNOLDS
VOZES
(2013)
+ frete grátis



VIDA DE MARIONETES
INGMAR BERGMAN
NÓRDICA
(1983)
+ frete grátis



MARIA NO NOVO TESTAMENTO
R.E.BROWN; K.P. DONFRIED; J.A. FITZMYER, J.REUMANN ( ORGS)
PAULINAS
(1985)
+ frete grátis



CORRESPONDANCE (EM FRANCÊS)
MARX E ENGELS
ÉDITIONS SOCIALES / PARIS
(1971)
+ frete grátis



TUDO SOBRE REGÊNCIA E CRASE
LUIZ ANTÔNIO SACCONI
ESCALA EDUCACIONAL
(2014)
+ frete grátis





busca | avançada
48122 visitas/dia
1,5 milhão/mês