A Invenção de Orfeu de Jorge de Lima | Fabrício Carpinejar | Digestivo Cultural

busca | avançada
37356 visitas/dia
1,2 milhão/mês
Digestivo Cultural
O que é?
Quem faz?

Audiência e Anúncios
Quem acessa?
Como anunciar?

Colaboração e Divulgação
Como publicar?
Como divulgar?

Newsletter | Disparo
* Histórico & Feeds
TT, FB e Instagram
Últimas Notas
>>> Daily Rituals - How Artists Work, by Mason Currey
>>> Fernando Pessoa, o Livro das Citações, por José Paulo Cavalcanti Filho
>>> A Loja de Tudo - Jeff Bezos e a Era da Amazon, de Brad Stone
>>> Reflexões ou Sentenças e Máximas Morais, de La Rochefoucauld
>>> O Capital no Século XXI, de Thomas Piketty, o livro do ano
>>> Trágico e Cômico, o livro, de Diogo Salles
>>> Blue Jasmine, de Woody Allen, com Cate Blanchett
>>> The Devil Put Dinosaurs Here, do Alice in Chains
Temas
Mais Recentes
>>> 10 maneiras de tentar abolir o debate
>>> Em Tempos de Eleição
>>> 150 anos de Miguel de Unamuno
>>> Eleanor Catton e seus luminares
>>> O medo como tática em disputa eleitoral
>>> Cavaleiros e o Inexplicável
>>> Hércules reduzido a lenda
>>> O assassinato de Herzog na arte
>>> A vida do livreiro A.J. Fikry, de Gabrielle Zevin
>>> Quando as rodas param
Colunistas
Mais Recentes
>>> O Digestivo nas Copas
>>> Idade
>>> Origens
>>> Protestos
>>> Millôr Fernandes
>>> Daniel Piza (1970-2011)
Últimos Posts
>>> Luiz Eduardo Soares fala...
>>> Chico Buarque já votou em FHC
>>> Sobre o debate no SBT
>>> O melhor canal nestas eleições
>>> Pense nos brasileiros
>>> Sobre as novas pesquisas
>>> Mestres
>>> Paternidade
>>> Jó no Clube de Leitura
>>> O voto na utopia (ou não)
Mais Recentes
>>> Lembranças de Ariano Suassuna
>>> Harold Ramis (1944-2014)
>>> Sergio Britto & eu
>>> Para o Daniel Piza. De uma leitora
>>> Joey e Johnny Ramone
>>> A Cultura do Consenso
>>> De Kooning em retrospectiva
>>> Delírios da baixa gastronomia
Mais Recentes
>>> Jaime Pinsky
>>> Luis Salvatore
>>> Catarse
>>> Chico Pinheiro
>>> Sheila Leirner
>>> Guilherme Fiuza
Mais Recentes
>>> Digestivo Books
>>> Caixa Postal
>>> Nova Seção Livros
>>> Digestivo no Instagram
>>> 2 Milhões de Pageviews
>>> 40 mil seguidores no Twitter
Mais Recentes
>>> Granta 11 - Os Melhores Jovens Escritores Britânicos
>>> Guia Amsterdã de Bicicleta
>>> Como esquecer um grande amor
>>> SemiÓtica
>>> Sobre como ferrar a África
>>> Crepúsculo de Stephenie Meyer, o filme
>>> A odisseia do homem tecnomediado
>>> The rock'n'roll of our time
>>> EUA: uma nação de idiotas
>>> Jose Pepe Mujica na ONU
LIVROS
Mais Recentes
>>> Recordação Mortal
>>> Golias
>>> O Anti-Maquiavel
>>> O Cavalo de Lata
>>> Casais inteligentes enriquecem juntos
>>> A Canção de Susannah - Edição de Bolso
>>> Caminhos da Evolução
>>> A Caixa dos Perigos
>>> O Burguês - Entre a História e a Literatura
>>> Brigitte Bardot
>>> O Brasil Privatizado
>>> Brasil 12 X 12 Alemanha
>>> Bolsa Blindada 2
>>> Bicicleta
>>> Avioes 2 - Nova Profissao
>>> Atrás do Espelho
>>> A arte de pensar claramente - Edição ampliada
>>> A arte da apresentação vencedora
>>> Arquivos Serial Killers - Made In Brasil
>>> Arquivos Serial Killers - Louco ou Cruel?
>>> Anjos na Escuridão
>>> Um Amor Para Eternidade
>>> O amor não tem leis - O julgamento final
>>> Amandine
>>> Alabardas, alabardas, espingardas, espingardas
>>> Adhemar - Fé Em Deus e Pé na Tábua
>>> O Abc da Mulher Moderna
>>> 365 Orações Para Dormir Melhor
>>> 100 Dias de Felicidade
>>> Aconteceu Em Veneza
>>> 365 historias da Biblia
>>> 100 Anos de Moda Masculina
>>> Escrevendo a Nova História
>>> O Pagador de Promessas
>>> Mil Vezes Mais Justo
>>> A Cidade Vista - Mercadorias e Cultura Urbana
>>> Asylum
>>> Angry Birds Star Wars II The Pork Side
>>> Angry Birds Star Wars II Brave Birds
>>> Palmeiras, 100 Anos de Academia
>>> 1808 - Edição Revista e Ampliada
>>> As Aventuras do Capitão Pirata da Barba Verde
>>> Avantesmas: 13 Histórias Clássicas de Fantasmas
>>> Assim É Como Termina
>>> Assassinato no Expresso do Oriente
>>> Aniquilação - Volume 1
>>> Amo Você, Papai!
>>> Almanaque Ciência em Show Master Pop
>>> Alimentos para o bem-estar
>>> Aliens Vs. Cientistas Loucos no Fundo do Oceano
COLUNAS

Quinta-feira, 14/7/2005
A Invenção de Orfeu de Jorge de Lima
Fabrício Carpinejar

+ de 25500 Acessos
+ 1 Comentário(s)

O alagoano Jorge de Lima cumpriu um prodígio. Sua última obra, Invenção de Orfeu, publicada um ano antes de falecer, em 1952, até hoje é um enigma aos leitores e críticos, que se debatem em hipóteses e subterrâneos para entender seu longo poema de dez cantos. O escritor não facilitou o caminho para ninguém, criou um hipertexto lírico a inaugurar a pós-modernidade as trevas na poesia brasileira.

O desafio novamente está posto. A editora Record recoloca Invenção de Orfeu (430 páginas) nas prateleiras, depois da obra ficar vinte anos fora de catálogo. A resistência ao livro, ainda culto de iniciados, deve-se ao predomínio de uma crítica realista no Brasil, que enfatizou a cotidianização da linguagem e o apelo ao engajamento social e à compreensão estrutural da realidade. Jorge de Lima, adepto da transcendência, ficou de fora do panteão dos clássicos. Aliás, é de se preocupar o medo que a crítica tem de “Deus” na poesia. Parece que o ateísmo virou, de modo equivocado, sinônimo de boa literatura. Cecília Meireles somente agora está sendo redescoberta (graças inclusive à acurada leitura de Ítalo Morriconi em sua antologia de cem melhores poemas), Augusto Frederico Schmidt desapareceu completamente das livrarias, Murilo Mendes sobreviveu em função do experimentalismo de Convergência, mas pagou alto o preço de seu catolicismo e de seu projeto que buscava restaurar a poesia em Cristo, ao lado do próprio Jorge de Lima, seu parceiro do livro Tempo e Eternidade (1935). A tradição ibérica, barroca e religiosa foi catalogada como uma ramificação secundária quando, na verdade, é o tronco da literatura do país. Falsearam a história literária? É certo que o cânone seria outro, se uma produção inconsciente e mística tivesse chance de ser lida e discutida.

Jorge de Lima era considerado por Mário Faustino “um pequeno poeta maior”, mas o “nosso único poeta maior”. Invenção de Orfeu se constitui em o poema mais ambicioso da literatura brasileira, cosmogonia dotada dos mais altos vôos e das piores quedas. Magnus opus do autor ou fenomenologia do ser (“como conhecer as coisas, senão sendo-as”), relata a trajetória de um “barão assinalado, sem brasão, sem gume e fama” que relembra seus dias de aventura desde a fundação da ilha (metáfora do Brasil, arquipélago infernal onde permaneciam os heróis gregos) até o apocalipse final. O livro é um épico subjetivo, o que já era uma novidade na época. Pois todo épico pressupõe objetividade e Jorge de Lima não sustenta a linearidade, impregnando sua escrita de ecos, comparações, citações e uma trepidação nervosa que funde passado, presente e futuro no mesmo tom dramático. Não tem a segurança da narração, característica do épico, que tudo observa e julga, porém a insegurança de quem se descobre réu de sua história. Assim como não existe um tempo histórico, e sim um tempo ininterrupto de linguagem. Apesar do tema único, a obra não revela uma unidade. É um emaranhado de planos e interfaces, que ora se perfazem, ora se repelem. O manto lingüístico funciona como uma feitiçaria verbal, um fluxo de consciência, onde a “voz poética” não tem direito às censuras e mentiras, às fugas e evasões, vivendo um estado de permanente verdade, confissão e delírio febril. “Para unidade deste poema,/ ele vai durante a febre,/ ele se mescla e se amealha,/ e por vezes se devassa”.

É pouco estudada a relação de Jorge de Lima pintor, premiado com menções no Salão Nacional de Belas Artes e na 1ª Bienal de São Paulo, com Jorge de Lima poeta. A natureza polifônica de Invenção de Orfeu talvez resida nesse cruzamento de técnicas. A pintura em pânico, seu álbum de fotomontagens de 1943, revela o processo de Invenção de Orfeu. A colagem é a marca de um trabalho surrealista que mistura o sagrado e o profano, o vulgar e a erudição, em camadas sobrepostas de oratória. Uma medusa que aponta para todos os lados. Longe de um texto hierárquico, denota uma poesia convulsionada, que esconde, distorce e deforma, rica em signos, símbolos e excertos de diversas fontes em uma viagem sem volta. O crítico capixaba Luiz Busatto teve a clarividência de exceção e desvendou parte do segredo da intertextualidade, em Montagem em Invenção de Orfeu (1978). Jorge de Lima parafraseia, sem aspas, e edita trechos inteiros da Divina Comédia, de Dante, do Paraíso perdido, de John Milton, d’Os Lusíadas, de Luís Camões, e de Eneida e Geórgicas, de Virgílio. Desenraiza as identidades dos fragmentos, altera o chassi e raspa a numeração. Invenção de Orfeu pode ser visto como um cemitério de carros roubados.

Tal palimpsesto e com um ímpeto de transgressão modernista, Jorge de Lima reescreve sobre um texto clássico, introduzindo pequenas diferenças e paralelos e espelhando cada vez mais o fundo. Mais do que se pôr de igual para igual com seus mestres, reencarna-os na glosa. Um exemplo é a quadra de um dos mais belos sonetos do livro: “A garupa da vaca era palustre e bela,/ uma penugem havia em seu queixo formoso;/ e na fronte lunada onde ardia uma estrela/ pairava um pensamento em constante repouso.” O trecho remete à Geórgicas III, de Virgílio, em tradução de Antônio Feliciano de Castilho, em que a descrição da vaca igualmente começa com sua beleza e termina com seu repouso. E o pior, a vaca virgiliana apresenta a pedra-de-toque do verso: a “fronte lunada”.

Lima não empregou impunemente essas paráfrases em sua corrente sanguínea. As apropriações têm um claro desejo e objetivo. Invenção de Orfeu almeja ser a história espiritual da poesia do Ocidente. É o poeta, todos poetas em um (Dante, Camões, Virgílio, Homero, Ovídio, John Donne, Rimbaud, Gerard Manley Hopkins), que está em julgamento. “Éramos graves, éramos poetas”, no “reino unido das abelhas, solo de ouro”. Daí “o inventário do verso”, como caracterizou Mário Faustino, utilizando várias formas poéticas como oitavas clássicas, tercetos e sextinas. Entre os mistérios da morte e a efusão da infância, evoca os círculos do inferno e do paraíso, monstros e bestas, reinventa mitos como Inês de Castro. Poesia dentro de poesia, metalinguagem em estado puro. Um testamento coletivo, a biografia de uma fé. O poeta pede perdão em sua derradeira obra. Insinua que o verbo não salva, condena. O escritor seria um condenado. Invenção de Orfeu não é mesmo um épico, mas uma oração. Deus não escreve, tarefa confiada aos seus apóstolos. Somente Jorge de Lima poderia terminar seu livro com “Amém”.

Nota do Editor
Fabrício Carpinejar é poeta, autor de sete livros: entre eles, Como no céu/Livro de visitas (2005), Cinco Marias (2004) e Caixa de Sapatos (2003). Este texto foi originalmente publicado no "Caderno Fim de Semana", da Gazeta Mercantil, e reproduzido aqui com sua autorização.

Para ir além






Fabrício Carpinejar
São Leopoldo, 14/7/2005

Quem leu este, também leu esse(s):
01. Fake na art e a pet humana de Gian Danton
02. Senna de Paulo Polzonoff Jr
03. Os 60 de Eugenia Zerbini
04. Memórias de um caçador, de Ivan Turguêniev de Ricardo de Mattos
05. O que está por baixo do medo de usar saia? de Adriana Baggio


Mais Fabrício Carpinejar
Mais Acessadas de Fabrício Carpinejar em 2005
01. A Invenção de Orfeu de Jorge de Lima - 14/7/2005
02. Separar-se, a separação e os conselhos - 18/1/2005
03. Pais e filhos, maridos e esposas II - 20/4/2005
04. Separar-se, a separação e os conselhos II - 11/3/2005
05. Pais e filhos, maridos e esposas - 25/3/2005


* esta seção é livre, não refletindo necessariamente a opinião do site

ENVIAR POR E-MAIL
E-mail:
Observações:
COMENTÁRIO(S) DOS LEITORES
15/7/2005
23h45min
Ótimo texto, caro Carpinejar. Jorge de Lima, que influenciou Glauber Rocha, merece de fato ser revisitado. Assim como, você lembra, Murilo Mendes. Às vezes é bom lembrar nossos bons poetas, que de tempos em tempos ficam esqucidos. Daí a importância inegável de tua resenha sobre a "Invenção de Orfeu", que a Record está colocando na praça.
[Leia outros Comentários de Humberto Pereira]
COMENTE ESTE TEXTO
Nome:
E-mail:
Blog/Twitter:
* o Digestivo Cultural se reserva o direito de ignorar Comentários que se utilizem de linguagem chula, difamatória ou ilegal;

** mensagens com tamanho superior a 1000 toques, sem identificação ou postadas por e-mails inválidos serão igualmente descartadas;

*** tampouco serão admitidos os 10 tipos de Comentador de Forum.




>>> Partituras recebe o Trio Brasileiro de Trombones neste domingo (19)
>>> A bênção do canto na Poétnica de Nei Lopes
>>> RESTAURANTE OPIUM ADERE AO OUTUBRO ROSA - Campanha contra o câncer de mama ganha suco terapêutico
>>> Exposição Peça Gráfica
>>> João Adolfo Hansen e Marcello Moreira lançam as obras completas de Gregório de Matos com palestra em
>>> Cia Fragmento de Dança apresenta "Aos vencedores, as batatas", na Olido
* clique para encaminhar

Editora Perspectiva
Editora Conteúdo
Editora Record
Best Seller
Civilização Brasileira
WMF Martins Fontes
Globo Livros
Hedra
Bertrand Brasil
José Olympio
Companhia das Letras
Arquipélago Editorial
Nova Fronteira
Cortez Editora
Primavera Editorial
Intrínseca
Busca Sebos
LIVROS


ATRÁS DO ESPELHO
Por R$ 33,95
+ frete grátis



1808 - EDIÇÃO REVISTA E AMPLIADA
Por R$ 38,95
+ frete grátis



100 ANOS DE MODA MASCULINA
Por R$ 58,95
+ frete grátis



GUARDIÃ DOS SEGREDOS DO AMOR
Por R$ 38,95
+ frete grátis



GANHAR PARA PERDER
Por R$ 28,95
+ frete grátis



DESCOBRINDO O VALOR DAS COISAS
De R$ 69,90
Por R$ 59,85
Economize R$ 10,05



FAMÍLIA, AFETO E FINANÇAS
Por R$ 24,89
+ frete grátis



MACSWEEN'S PATHOLOGY OF THE LIVER
Por R$ 787,95
+ frete grátis



DIREITO PREVIDENCIÁRIO
Por R$ 62,95
+ frete grátis



VIDAS DOS ARTISTAS
De R$ 125,00
Por R$ 87,49
Economize R$ 37,51



busca | avançada
37356 visitas/dia
1,2 milhão/mês