A Invenção de Orfeu de Jorge de Lima | Fabrício Carpinejar | Digestivo Cultural

busca | avançada
45922 visitas/dia
1,3 milhão/mês
Mais Recentes
>>> Fórum ampliado do PMLLB.Rio
>>> São Caetano do Sul recebe a primeira ABC Comic-Con em 7 de maio
>>> Fernanda Magalhães apresenta nova performanceno Sesc Cadeião em Londrina
>>> Especialistas em gestão de mídias sociais voltam à Universidade do Livro para discutir especificidad
>>> Revista do Cinema Brasileiro visita o set de "Os Saltimbancos Trapalhões - Rumo a Hollywood"
* clique para encaminhar
Mais Recentes
>>> Tricordiano, o futebol é cardíaco
>>> Ação Social
>>> Antes que seque
>>> Etapas em combustão
>>> Antonia, de Morena Nascimento
>>> O suicídio na literatura
>>> 'As vantagens do pessimismo', de Roger Scruton
>>> E+ ou: O Estadão tentando ser jovem, mais uma vez
>>> Literatura engajada
>>> O Novo Museu da Estação da Luz: uma Proposta
Colunistas
Últimos Posts
>>> Temporada 2016 do Mozarteum
>>> Curso de projetos literários
>>> Patuá em festa
>>> Literatura: direito humano
>>> Geraldo Rufino no #MitA
>>> Portal dos Livreiros: 6 meses!
>>> Ryley Walker
>>> Leia Mulheres - BH
>>> Adagio ma non troppo
>>> Psiu Poético 30 anos
Últimos Posts
>>> d'EUS
>>> 5 coisas que o escritor iniciante precisa saber
>>> Passando o Caixa
>>> Rito e mito, falando serio.
>>> A diferença entre um mestre e um doutor
>>> Blow up: depois daquele beijo
>>> Uma propina da mesma Orcrim quando apareceu
>>> Born To Be Wild
>>> O Autorretrato
>>> Mãos Sujas
Blogueiros
Mais Recentes
>>> @mores bizarros
>>> Para o Daniel Piza. De uma leitora
>>> Todo mundo quer informação
>>> O titânico Anselm Kiefer no Centre Pompidou
>>> Dalton Trevisan revisitado
>>> Django Unchained, de Quentin Tarantino
>>> Ryley Walker
>>> Daniel Piza me fez começar a escrever
>>> O elogio da narrativa
>>> Será que livro é lugar de crônica?
Mais Recentes
>>> UM BRASIL PARA CRIANÇAS-para conhecer a literatura infantli brasileira:histórias, autores e textos
>>> Abraçado ao meu rancor
>>> Rimbaud da América e Outras Iluminações
>>> Contos, Fábulas e Aforismos
>>> A Força da Palavra
>>> Lavoura Arcaica
>>> Os Contos de Belazarte
>>> À Margem da Linha
>>> O Avesso dos Dias
>>> O Estaleiro
>>> Divisão Hollywood
>>> A Morte de um Holandês
>>> Os Filhos da Noite
>>> A Lua É um Balão
>>> Cavalos de Raça e Mulheres de Classe
>>> As Moscas Azuis
>>> Os Demônios Morrem Duas Vezes
>>> O Livro Roubado
>>> O Poder do Ouro - A história de uma obssesão
>>> Também o Cisne Morre
>>> Desengano
>>> Pensadores da Liberdade - Em torno de um conceito V1
>>> 1.280 Almas
>>> Tudo Para Entrar no Guiness - A jornada de um homem para entrar no Livro dos Recordes
>>> O Aviso na Muralha - A China e o Ocidente no Século XXI
>>> Zoom - A Corrida Global para Abastecer o Carro do Futuro
>>> Dinheiro Fácil
>>> As Duas Faces de Janeiro
>>> Longe de Manaus
>>> Ascensão e Queda do Imperio X
>>> América Aracnídea
>>> Abel Sánchez - Uma história de paixão
>>> O Senhor Ventura
>>> Meu Marido
>>> Pelas Pedras do Caminho Mineral
>>> O Coração da Floresta
>>> O Petróleo e a Glória - A corrida pelo Império e a fortuna do Mar Cáspio
>>> O Bandido da Chacrete - Ascensão e Queda de um Fundador do Comando Vermelho
>>> Cupom Zero
>>> Descanse em Paz - Histórias Sobre os Últimos Dias de Poe, Dickinson, Twain, Jmaes e Hemingway
>>> Noites de Sábado e Outras Noites Cariocas
>>> Bilhar Indiscreto
>>> A Busca - Energia, Segurança e a Reconstrução do Mundo Moderno
>>> Desagregação - Por Dentro de Uma Nova América
>>> A Casa do Meu Avô
>>> Como Funciona a Ficção
>>> Um Riso em Decúbito
>>> Memória do Cotidiano Volume 6
>>> Decameron - 10 Novelas Selecionadas
>>> O Estaleiro
COLUNAS

Quinta-feira, 14/7/2005
A Invenção de Orfeu de Jorge de Lima
Fabrício Carpinejar

+ de 27900 Acessos
+ 1 Comentário(s)

O alagoano Jorge de Lima cumpriu um prodígio. Sua última obra, Invenção de Orfeu, publicada um ano antes de falecer, em 1952, até hoje é um enigma aos leitores e críticos, que se debatem em hipóteses e subterrâneos para entender seu longo poema de dez cantos. O escritor não facilitou o caminho para ninguém, criou um hipertexto lírico a inaugurar a pós-modernidade as trevas na poesia brasileira.

O desafio novamente está posto. A editora Record recoloca Invenção de Orfeu (430 páginas) nas prateleiras, depois da obra ficar vinte anos fora de catálogo. A resistência ao livro, ainda culto de iniciados, deve-se ao predomínio de uma crítica realista no Brasil, que enfatizou a cotidianização da linguagem e o apelo ao engajamento social e à compreensão estrutural da realidade. Jorge de Lima, adepto da transcendência, ficou de fora do panteão dos clássicos. Aliás, é de se preocupar o medo que a crítica tem de "Deus" na poesia. Parece que o ateísmo virou, de modo equivocado, sinônimo de boa literatura. Cecília Meireles somente agora está sendo redescoberta (graças inclusive à acurada leitura de Ítalo Morriconi em sua antologia de cem melhores poemas), Augusto Frederico Schmidt desapareceu completamente das livrarias, Murilo Mendes sobreviveu em função do experimentalismo de Convergência, mas pagou alto o preço de seu catolicismo e de seu projeto que buscava restaurar a poesia em Cristo, ao lado do próprio Jorge de Lima, seu parceiro do livro Tempo e Eternidade (1935). A tradição ibérica, barroca e religiosa foi catalogada como uma ramificação secundária quando, na verdade, é o tronco da literatura do país. Falsearam a história literária? É certo que o cânone seria outro, se uma produção inconsciente e mística tivesse chance de ser lida e discutida.

Jorge de Lima era considerado por Mário Faustino "um pequeno poeta maior", mas o "nosso único poeta maior". Invenção de Orfeu se constitui em o poema mais ambicioso da literatura brasileira, cosmogonia dotada dos mais altos vôos e das piores quedas. Magnus opus do autor ou fenomenologia do ser ("como conhecer as coisas, senão sendo-as"), relata a trajetória de um "barão assinalado, sem brasão, sem gume e fama" que relembra seus dias de aventura desde a fundação da ilha (metáfora do Brasil, arquipélago infernal onde permaneciam os heróis gregos) até o apocalipse final. O livro é um épico subjetivo, o que já era uma novidade na época. Pois todo épico pressupõe objetividade e Jorge de Lima não sustenta a linearidade, impregnando sua escrita de ecos, comparações, citações e uma trepidação nervosa que funde passado, presente e futuro no mesmo tom dramático. Não tem a segurança da narração, característica do épico, que tudo observa e julga, porém a insegurança de quem se descobre réu de sua história. Assim como não existe um tempo histórico, e sim um tempo ininterrupto de linguagem. Apesar do tema único, a obra não revela uma unidade. É um emaranhado de planos e interfaces, que ora se perfazem, ora se repelem. O manto lingüístico funciona como uma feitiçaria verbal, um fluxo de consciência, onde a "voz poética" não tem direito às censuras e mentiras, às fugas e evasões, vivendo um estado de permanente verdade, confissão e delírio febril. "Para unidade deste poema,/ ele vai durante a febre,/ ele se mescla e se amealha,/ e por vezes se devassa".

É pouco estudada a relação de Jorge de Lima pintor, premiado com menções no Salão Nacional de Belas Artes e na 1ª Bienal de São Paulo, com Jorge de Lima poeta. A natureza polifônica de Invenção de Orfeu talvez resida nesse cruzamento de técnicas. A pintura em pânico, seu álbum de fotomontagens de 1943, revela o processo de Invenção de Orfeu. A colagem é a marca de um trabalho surrealista que mistura o sagrado e o profano, o vulgar e a erudição, em camadas sobrepostas de oratória. Uma medusa que aponta para todos os lados. Longe de um texto hierárquico, denota uma poesia convulsionada, que esconde, distorce e deforma, rica em signos, símbolos e excertos de diversas fontes em uma viagem sem volta. O crítico capixaba Luiz Busatto teve a clarividência de exceção e desvendou parte do segredo da intertextualidade, em Montagem em Invenção de Orfeu (1978). Jorge de Lima parafraseia, sem aspas, e edita trechos inteiros da Divina Comédia, de Dante, do Paraíso perdido, de John Milton, d'Os Lusíadas, de Luís Camões, e de Eneida e Geórgicas, de Virgílio. Desenraiza as identidades dos fragmentos, altera o chassi e raspa a numeração. Invenção de Orfeu pode ser visto como um cemitério de carros roubados.

Tal palimpsesto e com um ímpeto de transgressão modernista, Jorge de Lima reescreve sobre um texto clássico, introduzindo pequenas diferenças e paralelos e espelhando cada vez mais o fundo. Mais do que se pôr de igual para igual com seus mestres, reencarna-os na glosa. Um exemplo é a quadra de um dos mais belos sonetos do livro: "A garupa da vaca era palustre e bela,/ uma penugem havia em seu queixo formoso;/ e na fronte lunada onde ardia uma estrela/ pairava um pensamento em constante repouso." O trecho remete à Geórgicas III, de Virgílio, em tradução de Antônio Feliciano de Castilho, em que a descrição da vaca igualmente começa com sua beleza e termina com seu repouso. E o pior, a vaca virgiliana apresenta a pedra-de-toque do verso: a "fronte lunada".

Lima não empregou impunemente essas paráfrases em sua corrente sanguínea. As apropriações têm um claro desejo e objetivo. Invenção de Orfeu almeja ser a história espiritual da poesia do Ocidente. É o poeta, todos poetas em um (Dante, Camões, Virgílio, Homero, Ovídio, John Donne, Rimbaud, Gerard Manley Hopkins), que está em julgamento. "Éramos graves, éramos poetas", no "reino unido das abelhas, solo de ouro". Daí "o inventário do verso", como caracterizou Mário Faustino, utilizando várias formas poéticas como oitavas clássicas, tercetos e sextinas. Entre os mistérios da morte e a efusão da infância, evoca os círculos do inferno e do paraíso, monstros e bestas, reinventa mitos como Inês de Castro. Poesia dentro de poesia, metalinguagem em estado puro. Um testamento coletivo, a biografia de uma fé. O poeta pede perdão em sua derradeira obra. Insinua que o verbo não salva, condena. O escritor seria um condenado. Invenção de Orfeu não é mesmo um épico, mas uma oração. Deus não escreve, tarefa confiada aos seus apóstolos. Somente Jorge de Lima poderia terminar seu livro com "Amém".

Nota do Editor
Fabrício Carpinejar é poeta, autor de sete livros: entre eles, Como no céu/Livro de visitas (2005), Cinco Marias (2004) e Caixa de Sapatos (2003). Este texto foi originalmente publicado no "Caderno Fim de Semana", da Gazeta Mercantil, e reproduzido aqui com sua autorização.

Para ir além






Fabrício Carpinejar
São Leopoldo, 14/7/2005


Quem leu este, também leu esse(s):
01. A futebolização da política de Luís Fernando Amâncio
02. Sinédoque São Paulo de Duanne Ribeiro
03. O que você vai ser quando crescer? de Fabio Gomes
04. Conto de amor tétrico ou o túmulo do amor de Jardel Dias Cavalcanti
05. Memorial de Berlim de Marilia Mota Silva


Mais Fabrício Carpinejar
Mais Acessadas de Fabrício Carpinejar em 2005
01. A Invenção de Orfeu de Jorge de Lima - 14/7/2005
02. Separar-se, a separação e os conselhos - 18/1/2005
03. Pais e filhos, maridos e esposas II - 20/4/2005
04. Separar-se, a separação e os conselhos II - 11/3/2005
05. Pais e filhos, maridos e esposas - 25/3/2005


* esta seção é livre, não refletindo necessariamente a opinião do site

ENVIAR POR E-MAIL
E-mail:
Observações:
COMENTÁRIO(S) DOS LEITORES
15/7/2005
23h45min
Ótimo texto, caro Carpinejar. Jorge de Lima, que influenciou Glauber Rocha, merece de fato ser revisitado. Assim como, você lembra, Murilo Mendes. Às vezes é bom lembrar nossos bons poetas, que de tempos em tempos ficam esqucidos. Daí a importância inegável de tua resenha sobre a "Invenção de Orfeu", que a Record está colocando na praça.
[Leia outros Comentários de Humberto Pereira]
COMENTE ESTE TEXTO
Nome:
E-mail:
Blog/Twitter:
* o Digestivo Cultural se reserva o direito de ignorar Comentários que se utilizem de linguagem chula, difamatória ou ilegal;

** mensagens com tamanho superior a 1000 toques, sem identificação ou postadas por e-mails inválidos serão igualmente descartadas;

*** tampouco serão admitidos os 10 tipos de Comentador de Forum.




Digestivo Cultural
Histórico
Quem faz

Conteúdo
Quer publicar no site?
Quer sugerir uma pauta?

Comercial
Quer anunciar no site?
Quer vender pelo site?

Newsletter | Disparo
* Twitter e Facebook
LIVROS




SOBRE O CÉU E A TERRA
JORGE BERGOGLIO E ABRAHAM SKORKA
PARALELA
(2013)



MAS SERÁ O BENEDITO? - DICIONÁRIO DE PROVÉRBIOS, EXPRESSÕES E DITOS POPULARES
MARIO PRATA
PLANETA
(2012)



FRAGMENTOS DE SABONETE
JORGE MAUTNER
GROUND
(1976)



VENDO CRISTO NO NOVO TESTAMENTO VOLUME 3
STEPHEN KAUNG
LITERATURA CRISTÃ
(1994)



O HOMEM DO AVESSO
FRED VARGAS
COMPANHIA DAS LETRAS
(2005)



MARTE E VÊNUS NO QUARTO
JOHN GRAY
ROCCO
(1998)



DRINKS - FAMOSOS COQUETÉIS INTERNACIONAIS
SIGLOCH EDITION *REALIZAÇÃO*
MELHORAMENTOS
(1997)



ENCONTRO INTERNO ( A CONSCIÊNCIA -NAVE)
TRIGUEIRINHO
PENSAMENTO
(1991)



ENSAIOS
TRUMAN CAPOTE
LEYA
(2010)



FREUD: VIDA E AGONIA- UMA BIOGRAFIA
MAX SCHUR
IMAGO
(1981)





busca | avançada
45922 visitas/dia
1,3 milhão/mês