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COLUNAS

Segunda-feira, 1/8/2005
O faroeste não morreu. Está hibernando
Marcelo Miranda
+ de 7300 Acessos

Dizem por aí que o faroeste morreu. Não é mentira, mas também não é verdade. O crepúsculo do “gênero americano por excelência” certamente pode ser considerado a obra-prima Os Imperdoáveis, que Clint Eastwood entregou ao mundo em 1992. O filme não era só mais um faroeste. Era o último dos faroestes, o capítulo final de um gênero nascido mais de 90 anos antes. Eastwood, que deve grande parte de seu prestígio como artista de respeito ao bangue-bangue, dirigiu e protagonizou aquele que pode, sem dúvida alguma, ser definido como a conclusão da saga do Velho Oeste. O significado de Os Imperdoáveis é muito maior do que imaginamos e do que já se escreveu dele. É o testamento post-mortem de algo que já estava agonizando e precisava apenas da palavra de alguém que sabia o quê, como e quando fazer.

O que Os Imperdoáveis tem de tão avassalador? Bom, este não é um texto especificamente sobre o filme, mas vale registrar algumas palavras que eu mesmo escrevi há uns dois anos, para um curso de crítica de cinema no qual participei – texto este que, posteriormente, publiquei no Cinefilia. Com o perdão do egocentrismo, segue trecho: “se o pistoleiro interpretado por Clint Eastwood nos spaghetti-western de Sergio Leone (e em tantos outros filmes) fosse encontrado muitos anos depois, certamente a imagem que teríamos seria a dele acalmando porcos doentes e repousando em sua fazenda, como vemos Will Munny nas primeiras cenas (...) É disso que trata esta produção (...): do pistoleiro sangüinário, violento e insensível retratado décadas depois de seu ‘auge’”.

O que tornava o filme especial era que, mais do que homens atrás de dinheiro ou poder, como retratado por décadas a fio, Eastwood mostrava homens em busca de honra, de dignidade, de respeito, num mundo que não mais comportava seus atos. Além disso, o diretor inseriu no enredo um personagem que servia de expiação: o escritor que acompanha o mercenário interpretado por Richard Harris. Ele representa aquele que vai desvendar os segredos do Oeste e revelar a todos que os homens pintados como salvadores do país, dispostos a expulsarem das terras os “bárbaros” índios, não passavam de uns covardes frouxos interessados apenas na fama e no renome. Eram, antes de tudo, fracos de espírito e fortes de atitudes mesquinhas. Nunca gente respeitável, como se tentou apregoar através do próprio cinema.

Os Imperdoáveis
Os Imperdoáveis

Mas como diria nosso editor Julio Daio Borges, divago. O que interessa por agora é que, apesar de Os Imperdoáveis, o faroeste não deixou de existir. Não como produto de cinema, mas talvez como gênero puro. Depois de nascer em 1902 (O Grande Roubo do Trem) e passar por diversas fases e estilos (faroestes A e B, psicológicos, dramáticos, românticos, épicos, macarrônicos), chegou-se a um ponto em que não existia espaço para o bangue-bangue. Criado como forma de exaltar as ações dos grandes vaqueiros que invadiam o Oeste selvagem norte-americano, o western foi perdendo interesse e cansando o público – e aqui entram os chamados “filmes crepusculares”, como Meu Ódio Será sua Herança e O Homem que Matou o Facínora, que preparam terreno para Os Imperdoáveis. Quando este chegou às telas, deixava à mostra o que estava óbvio há anos: o fim.

Só que a máquina de Hollywood não deixou de lado o faroeste. Interessante notar que, depois do filme de Eastwood, toda e qualquer produção do gênero ou usa o Oeste apenas como cenário ou reverencia os grandes clássicos dos anos 30, 40 e 50 dentro do universo do western. E todos, sem exceção, não conseguem ser grandes filmes. Variam do insuportavelmente ruim ao meramente interessante, sem se sobressair. Exemplos? O ano de 1994 é prolífico para exemplos. Curiosamente, boa quantidade de faroestes foi lançada nessa época, sabe-se lá o porquê. Maverick foi um deles. Inspirado em antigo seriado homônimo, trazia as estrelas limpinhas e cheirosas de Mel Gibson e Jodie Foster enfrentando os perigos da jogatina, dos bandidos e, claro, dos índios. Mas era comédia, não era? Uma grande brincadeira com o gênero, afinal de contas. Então vejamos um mais sério, como o grandioso Wyatt Earp, com Kevin Costner. É outra releitura do mito de Billy the Kid, o exímio pistoleiro que infernizava o Oeste. Não é um filme de todo negativo, mas peca pelos excessos – de tamanho, de pompa, de ambição, de vontade de ser grande. Não é um legítimo faroeste porque regurgita sem brilho algumas convenções típicas sem nada acrescentar a elas.

Costner faria muito melhor nove anos depois, ao dirigir e estrelar Pacto de Justiça, outra tentativa de dar fôlego ao faroeste. Este talvez seja o melhor filme do gênero dentro dessa fase mais morta. Bem conduzido e interpretado, com referências e gigantesco respeito aos cânones (desde formas de pensar a citações a cenas específicas de pérolas como Matar ou Morrer e Rio Vermelho), prima pelo ritmo ágil e pela despretensão com que trabalha o bangue-bangue. Ainda assim, não se legitima por ser um exemplar do verdadeiro western: antes disso (e até mesmo de ter essa intenção), é uma grande homenagem a nomes como John Ford, Fred Zinnemann, Howard Hawks, Anthony Mann e tantos mais. Costner, aqui, tira o chapéu para essas feras e jamais quer se igualar a elas – quer, simplesmente, se incluir no legado delas. Por um lado, torna Pacto de Justiça digno de ser visto; por outro, retira dele qualquer possibilidade de se transformar num clássico ou mesmo num exemplar de maior prestígio.

Pacto de Justiça
Pacto de Justiça

Outro filme de razoável qualidade e que deve sua existência ao passado de tiros e pistoleiros é Desaparecidas, de Ron Howard, lançado em 2003. O enredo (mulher persegue pelo Oeste as duas filhas seqüestradas por um bruxo índio) foca mais o suspense, e essencialmente poderia se passar em qualquer época e lugar. Mas a simples definição pelo Novo México, possibilitando vermos pradarias, desertos, paisagens, cavalos, tiros, torna-o, forçadamente, um faroeste. Talvez porque, de uma forma ou outra, o filme vá ao encontro da perfeita definição do crítico francês André Bazin sobre o que é, afinal, o faroeste: o encontro de uma mitologia (a saga do homem branco no Oeste bravio) com um meio de expressão (o cinema). E Desaparecidas, de alguma forma, tem lá encravada a sua própria mitologia de um universo perigoso e traiçoeiro, sujo e cheio de homens maus, mas também de homens de bem, prontos a enfrentar os mistérios e a aridez do Oeste para chegar a um objetivo. Howard prefere provocar tensão, chega a produzir um thriller, mas não consegue esconder a vontade e até necessidade de também se incluir nas prateleiras do gênero criado pelos seus “ancestrais” cinematográficos.

Outras produções flertaram com o faroeste, nenhuma digna de um parágrafo. Rápida e Mortal (1994), de Sam Raimi, é catastrófico e idiota. Quatro Mulheres e Um Destino (1994) parece um libelo mal arranjado da supremacia feminina num universo predominantemente masculino – e hoje a presença de Drew Barrymore no elenco faz inevitavelmente enxergar este filme como a versão bangue-bangue de As Panteras. Ainda há Jovens Demais para Morrer, Soldados Bufallo, Tombstone – A Justiça está Chegando, todos beirando o risível na tentativa de soar verdadeiros e autênticos.

No fundo, eu acredito que o western ainda não acabou. O musical, outro gênero consagrado pelo cinema americano, renasceu com a revolução de Moulin Rouge – goste-se ou não, este filme deu nova linguagem e roupagem ao gênero, oferecendo-lhe fôlego para investidas mais distintas do que meras cópias daquilo que já foi sucesso um dia. O faroeste pode ter a sua hora, sem dúvida. Clint Eastwood colocou o ponto final, mas isso não significa que alguém não possa surgir com algo completamente novo, uma leitura ou interpretação absolutamente brilhante, e assim recomeçar o ciclo. Essa hora ainda pode chegar. Enquanto isso, os aprendizes vão tentando dar caras modernas à árida e hostil realidade do Velho Oeste.


Marcelo Miranda
Juiz de Fora, 1/8/2005

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