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COLUNAS

Segunda-feira, 15/8/2005
Nem Godzilla faria melhor
Marcelo Miranda
+ de 1700 Acessos

1.
Inspirado pelo assalto ao Banco Central de Fortaleza na semana que passou (ladrões cavaram um túnel entre a casa onde estavam e o cofre do banco, levando mais de R$ 160 milhões em 3,5 toneladas de notas de R$ 50, atingindo o feito de maior roubo da história do país), ia escrever sobre alguns filmes que explicariam o porquê do crime estar sendo qualificado em toda a mídia como “cinematográfico” – em especial, pretendia falar de três ou quatro filmes interessantes e semelhantes ao acontecido no Ceará. Só que, graças a uma pane no meu aparelho de DVD, não pude assistir a Rififi, clássico noir de 1955, dirigido pelo francês Jules Dassin e recentemente lançado em formato digital pela Aurora DVD. Como o mote da coluna era partir de Rififi, que narra o brilhante roubo a uma joalheria, para depois falar dos assaltantes brasileiros, terminei frustrado nas minhas idéias. Fica para uma próxima, que será em breve, com certeza.

Feito o desabafo, vamos falar então de outro assunto oportuno e atualíssimo: os filmes de terror americanos baseados em originais japoneses. O momento é bom, pois acaba de chegar aos cinemas do Brasil o mais novo remake de um produto nipônico, Água Negra – curiosamente dirigido pelo conterrâneo Walter Salles, num projeto de encomenda que marca sua primeira incursão no mercado de Hollywood. Mas o que nos interessa no momento não é a chegada de um brasileiro ao mainstream (assunto já comentado na Bravo! deste mês), mas o fascínio que este tipo de filme vem causando nas platéias ocidentais, em especial as norte-americanas, fazendo girar um ciclo de produção que parece estar longe de terminar.

Afinal, o que faz o terror do Japão tão fascinante ao paladar dos americanos? Mais que isso: o que faz com que produtores de estúdios grandes como DreamWorks (propriedade do mago Steven Spielberg), Columbia e Buena Vista invistam milhões na produção e distribuição de versões “alternativas” dos filmes originais criados no Japão? Além das adaptações de histórias em quadrinhos, as refilmagens de fitas de terror nipônicas são nova moda no cinemão, mantendo em êxtase regado a sustos e calafrios milhões de espectadores. Um indício do porquê de tanto sucesso talvez esteja na forma dos japoneses lidarem com o horror. Uma forma muito mais implícita, internalizada, tensa, obscura.

Água Negra
Nova versão de Água Negra

O gênero de suspense e terror estava em queda nos EUA no começo dos anos 90 até a estréia de Pânico em 1996. Wes Craven revigorou os assassinos psicopatas simplesmente parodiando os grandes clássicos, desde Psicose à sua própria (e maior) criação, A Hora do Pesadelo. Funcionou tanto que gerou a mania de se colocar um bando de adolescentes sendo trucidados por algum maníaco em perseguições cheias de exagero – e dá-lhe Eu Sei o que Vocês Fizeram no Verão Passado, Lenda Urbana e muitas, muitas seqüências, entre elas o risível Eu Ainda Sei o que Vocês Fizeram no Verão Passado. Como toda moda, cansou. O público parou de prestigiar, e a linha de produção cessou junto. Algo precisava novamente levantar as platéias da poltrona. Se o explícito destes filmes não mais surpreendia, o jeito era apelar para o inverso. Mas ter idéias dá trabalho demais, então algum gênio deve ter pensado “que tal irmos ao outro lado do mundo buscar a nossa solução?”. Vasculhando o que havia repercutido bem no cinema japonês, uma pérola de nome Ringu, de Hideo Nakata, inspirada em livro de Kôji Suzuki (o “Stephen King japonês”) e lançada em 1998 chamou atenção. Falava sobre a agonia de certa repórter de TV às voltas com uma fita de vídeo amaldiçoada – quem a assistisse morria exatos sete dias depois. Pronto: ali estava a nova mina de ouro de Hollywood.

A esperteza dos executivos foi saber escolher o produto. Ringu não era um caça-níqueis, e sim um filme de atmosfera sombria e misteriosa, cheio de lances imprevisíveis e com enredo realmente assombroso, lidando com medos do cotidiano. E melhor: ia totalmente contra o esquema “mata-e-esfola” dos derivados de Pânico, servindo como algo novo no combalido cinemão americano. Como os espectadores ianques têm ojeriza a legendas e certos preconceitos quanto a produtos “estrangeiros”, veio outra idéia de gênio: refilmar Ringu nos EUA, com diretor e atores do país e seguindo o esquema típico das superproduções. Deu-se a largada para a invasão de remakes quando a estréia de O Chamado (a versão remodelada de Ringu), sob a batuta de Gore Verbinski, faturou U$ 15 milhões (um terço de seu custo) já no fim de semana de estréia, em outubro de 2002. Com as moedas tilintando, uma nova franquia nascia, originando em seguida O Grito (refilmagem de Ju-on), o inevitável O Chamado 2 (que não é exatamente uma releitura de Ringu 2, mas tinha no comando o mesmo Hideo Nakata do filme original) e agora Água Negra, surgido a partir de Honogurai Mizu no Soko Kara, novamente de Nakata. Outros estão sendo produzidos, todos “encomendados” da terra do sol nascente: Kairo, Chakushin Ari (ou One Missed Call) e, obviamente, O Chamado 3 e O Grito 2. Nem o monstrão Godzilla faria melhor caso se mudasse para a terra de Bush.

Ringu
Ringu: refilmado nos EUA como O Chamado

E voltamos à pergunta (quase) inicial: o que torna esse terror tão atrativo? Não há uma resposta certeira, mas a descrição dos elementos pode dar pistas. O terror produzido atualmente no Japão se fixa no antagonismo passado versus presente. Em quaisquer dos filmes citados acima, teremos o enfrentamento de forças físicas da realidade atual contra espíritos de outros tempos que não conseguiram descansar em paz por algum motivo – e é esse motivo que geralmente serve de gancho para a narrativa começar. Assim, não necessariamente são poderes do mal contra poderes do bem. No fundo, acompanhamos a tentativa de fantasmas ganharem atenção e conseguirem depois das agonias da Terra, ficarem tranqüilos do outro lado. A figura encarnada desses “inimigos” costuma ser alguma garota de cabelos compridos e pretos que surge para infernizar a personagem principal e todos que a rodeiam, criando cenas de pavor por vezes absoluto – como a menina saindo da tela da TV em O Chamado ou o menino sinistro de O Grito.

Para que esses espíritos relaxem, é preciso que se resolvam suas pendências. Ou descobrir seu corpo, ou desvendar as causas da morte, ou punir os culpados por um sofrimento anterior. Os motivos variam, mas o objetivo se mantém firme: livrar-se do físico para cair de vez no espiritual. Há algo de puramente transcendental e, por si só, oriental nessa idéia de acerto de contas com o passado. Não deixa de se relacionar à noção de honra dos samurais, tão bem propalada em obras-primas de Kurosawa e Kobayashi – “o que você fez comigo precisa ser acertado”, grosso modo. Nas tais produções de terror, o raciocínio é semelhante. Tudo vai sendo destrinchado aos poucos, os segredos se revelam através de pistas, objetos, anotações, restos de corpo. Se por um lado existe o medo que marca naturalmente o gênero, por outro predomina uma melancolia muito grande, às vezes suplantando o suspense e tomando conta do enredo – quando isso é feito de forma sutil, o espectador se vê fisgado pelos acontecimentos sem nem perceber a mudança de foco,como é o caso do Água Negra original (ainda não vi o novo, mas parece que Walter Salles radicaliza ainda mais essa “fuga” do próprio gênero). A preocupação com o humano, com o sentimento dos vivos e dos mortos, é o que mais diferencia esse tipo de filme ao da linhagem Pânico, e é onde reside o brilhantismo que torna cada um desses trabalhos dignos de atenção e respeito. Se os EUA bebem descaradamente nessa fonte (inclusive chamando os próprios criadores para filmarem na América, casos de Nakata e Shimizu, de O Grito), é apenas outro indício do quanto até mesmo a maior potência mundial (até em termos de cinema) também se rende à criatividade e talento desses cineastas.

Por fim, uma curiosidade que torna esses filmes japoneses (e conseqüentemente os remakes americanos) ainda mais interessantes é o quanto aparelhos eletrônicos são fundamentais nas tramas. Parece besteira (talvez seja), mas quando uma das maiores economias mundiais, famosa pela tecnologia de ponta e invenções absolutamente inimagináveis, é também cenário de filmes em que essa mesma tecnologia é usada contra o ser humano, algo de sintomático existe aí. Veja só: em O Chamado, a ameaça surge de um VHS (certo, estamos nos tempos do DVD, mas fica valendo); One Missed Call tem no telefone celular a fonte do perigo, quando pessoas começam a receber chamadas avisando o dia da própria morte; e Kairo foca o medo em esquisitíssimos sites na internet que se abrem como que por encanto em computadores alheios, prenunciando um provável fim do mundo. Parece que as máquinas não são tão bem vindas no imaginário japonês como possa aparentar.

Nota do Editor
Sobre o mesmo assunto, leia "Psiquiatra declara Japão Oficialmente Maluco" de Alexandre Soares Silva.

2.
"Escreve freqüentemente sobre política, ciência e cultura para diversas publicações, entre elas o jornal The New York Times e a revista Salon". Por essa descrição, presente na contracapa de Encontro (Nova Fronteira, 206 páginas), livro de estréia da americana Claire Tristram, tudo o que não se imagina é que a autora tenha produzido uma história de erotismo e existencialismo com pitadas quentes de sexo e sadomasoquismo. Felizmente, Encontro não se resume a esses elementos, o que poderia fragilizá-lo. A grande força do livro de Tristram está na forma intimista como ela trata sua dupla de personagens.

O enredo se passa em pouco mais de 24 horas, a maior parte num quarto de hotel à beira do mar. Ali, um homem e uma mulher vão ter o encontro de suas vidas. Ela, viúva, ainda lamentando a morte do marido num atentado terrorista e numa tentativa desesperada de suplantar a dor e a solidão e redescobrir o amor e, principalmente, o desejo. Ele, persa, muçulmano, casado, pai de duas meninas, aparentemente feliz, mas sentindo o reflexo de uma rotina fria e careta, sem emoções. Ambos parecem estar em busca de respostas às suas próprias indagações sobre a vida, o que faz com que a pequena jornada naquele hotel se torne jornadas pessoais de cada um.

Claire Tristram usa e abusa de descrições íntimas de pensamentos e fatos, narrando com riqueza de vocabulário e idéias os anseios e dúvidas do casal. Chega a "montar" um pequeno quebra-cabeças ao apresentar para o leitor o ponto de vista de cada personagem em capítulos diferentes, indo e voltando no tempo, mesmo que esse tempo seja de apenas alguns minutos - pouco no relógio, uma eternidade na realidade daqueles dois. Paralelamente, a autora vai desvendando o que teria feito com que eles estivessem no tal quarto, sem dar grandes pistas de seu passado. Há no máximo pontuações da personalidade, estilos de comportamento, que servem de indícios para se entender quem são aquelas pessoas.

Mas a intenção maior de Cristram não é contar historinhas, e sim elaborar uma epopéia humana acontecida em poucas horas. Insere momentos de tensão (quando ela amarra o homem) e atinge o sublime em certos instantes (ela raspando todos os pêlos do próprio corpo, como a se purificar e se limpar, ao mesmo tempo em que percebe estar menstruada). Encontro por vezes lembra o estilo da nossa Clarice Lispector, sem as epifanias que a marcam; e também traz à tona um outro conflito de casal, o de Raduan Nassar no denso Um Copo de Cólera. Só que Encontro tem vida própria. Se Tristram, escrevendo de "política, ciência e cultura", consegue refletir também sobre a natureza sentimental, que ela continue fazendo bem o seu trabalho e produzindo novas desventuras no inexplicável mundo da paixão.

Para ir além






Marcelo Miranda
Juiz de Fora, 15/8/2005

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