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COLUNAS

Sexta-feira, 2/12/2005
We the Media, de Dan Gillmor
Julio Daio Borges
+ de 3900 Acessos

Para quem fica sentado atrás do computador, esperando que o mercado consagre determinadas práticas, o mundo parece andar a uma velocidade razoável – de cruzeiro –, relativamente fácil de acompanhar. Mas para quem persegue as novidades, sobretudo para quem acompanha (ou tenta acompanhar) a internet e seu desenvolvimento, o mundo nunca avançou de forma tão vertiginosa, a ponto de causar dores de cabeça e tonturas diárias. Porque enquanto a mídia estabelecida vai encolhendo em termos de conteúdo de qualidade (pelo menos, no Brasil), a internet vai se expandindo como nenhuma outra mídia – já que é a única mídia, na História, em que virtualmente qualquer pessoa pode dar sua contribuição.

We the Media (2004, O’Reilly, 299 págs.), o livro que já é uma referência, de Dan Gillmor, tenta dar conta dessa transformação, que nos levou de uma mídia velha, viciosa e falida, para uma mídia nova, promissora e rica. Dan Gillmor não contém, claro, o mundo – nem seria essa sua pretensão –, mas condensou em quase trezentas páginas as mudanças que se anunciaram desde o século XX e que estão se consolidando, de maneira irrevogável, neste século XXI. A idéia básica de Gillmor, um “colunista conhecido nacionalmente” do San Jose Mercury News – um jornal do mítico Vale do Silício –, é que estamos passando de uma era em que os jornalistas (inclua aqui marqueteiros, publicitários e relações públicas) “palestravam” para uma platéia geralmente dócil e pouco reativa – a “massa”, ou seja, nós – para uma nova era em que as pessoas fazem a notícia (eu, você, seu vizinho), gerando, em vez de “palestras”, “seminários” e “conversações” (a tradução aqui é livre, portanto os termos vão todos entre aspas).

E o que Dan Gillmor entende por “palestras”? Comunicação unilateral basicamente. Sem querer entrar muito na teoria, podemos usar os conceitos de “emissor” e “receptor”. Antigamente (na cabeça de muito jornalistas do Brasil, até hoje), a mídia ditava e era lei. Ninguém discutia. Ou as discussões eram abafadas, ou eram então “conduzidas” – não havia real reação por parte do público. Com exceção de algumas famílias (caso do Brasil), ou de alguns governos, que detinham os meios de produção de notícias – para ser um pouco marxista na terminologia –, as pessoas não tinham acesso direto à mídia. As pessoas mal reagiam, e ficavam à mercê da benevolência dos veículos, que podiam, mais por obrigação de ofício do que pelo bem da discussão, reproduzir suas “cartas” na seção respectiva. (A isso, chamavam “democracia”.) Como coloca Gillmor, era mais uma “palestra”. Com algumas objeções, óbvio, uma pergunta aqui, outra ali, mas uma palestra ainda. Alguém falava e você simplesmente ouvia; a gente aqui embaixo, eles lá em cima.

Com a internet, esse modelo ruiu. Dan Gillmor nos mostra que, desde a sua fundação, a internet foi uma mídia colaborativa (ao contrário das demais, sempre limitadas a um grupo restrito). Se inicialmente restringida àqueles que dominavam a tecnologia de publicação, a internet foi evoluindo no sentido de uma democracia plena, sobretudo na década de 90, onde todo mundo tem voz, se quiser. Não poderia haver pior cenário para a mídia estabelecida, pois se reinara tranqüila durante décadas sem contestação, de repente era atingida diretamente nos seus brios, por réplicas, ataques e provocações – que, na internet, não poderia jamais conter, nem deixar de publicar. Que alternativa sobrou então à velha mídia? Combater a nova. É o que os homens-de-mídia-com-cabeça-antiga vêm tentando fazer, sem sucesso, desde o boom. Os mais inteligentes já perceberam (a tempo?) que vão ter de dialogar com os novos “atores” desse espetáculo; os mais burros, ainda não – e estão progressivamente sendo ultrapassados.

A linguagem soa como a do ativismo de esquerda chomskiano, mas não é, não. Pelo simples fato de que a internet não é, como a histeria de esquerda, um “clamor” por participação popular: a internet é uma realidade, estabelecida naturalmente, à revelia daqueles que antes detinham o monopólio da informação e da discussão de idéias (a esquerda, inclusive, entra aqui). Dan Gillmor mostra isso com dados e esse talvez seja o grande mérito de We the Media: compilar, de forma sistemática, instigante e efetiva, os argumentos a favor dessa revolução e as realizações que ela já trouxe, para o jornalismo, que é o seu campo de atuação. Pode-se considerar, ainda, que We the Media é a primeira história, não-oficial, da nova mídia – contrapondo-a à antiga (até para justificar porque é “nova”) e traçando sua trajetória de sucessos (e insucessos), sem exagerar na nomenclatura e sempre estabelecendo paralelos que auxiliam a compreensão de qualquer leitor.

Um dos pilares centrais na construção de Gillmor são os blogs. Os blogs são a primeira ferramenta a permitir livre acesso, a qualquer cidadão (“digitalmente incluído”, digamos), ao que ele chama de “conversações”. Com um blog, que pode ser criado por qualquer pessoa em menos de cinco minutos, é possível reportar, comentar e editar, fundamentalmente como se fazia na mídia antiga. Não exatamente igual – falo tecnicamente e profissionalmente igual –, mas o blog, pela primeira vez na História, poderia ser uma mídia, ou uma parcela dela, acessível a qualquer cidadão, que não pertencesse a famílias, ou a governos ou a detentores dos antigos meios de produção. Obviamente isso gerou reações. Reações, até previsíveis, dos antigos detentores do monopólio da informação: jornalistas, marqueteiros, publicitários, relações públicas – profissionais de mídia (antiga) em geral. Tentaram, e até hoje tentam, desqualificar a conversação.

O mérito de Gillmor, mais uma vez, é reconhecer a importância desse novo fenômeno – apesar de jornalista, apesar de profissional da antiga mídia. Gillmor, num exercício de humildade inédito, coloca-se na seguinte posição: “Parto do pressuposto que meus leitores sabem mais do que eu: eles são em maior número – eu sou um só” (grifo nosso). Quem poderia imaginar uma declaração desse teor saindo da boca de um ex-detentor do monopólio da informação no Brasil? Qual jornalista se acha, efetivamente, mais ignorante do que seu público? Dan Gillmor argumenta que o jornalismo feito por mais pessoas, por mais “conversações”, tende a ser muito melhor, muito mais acurado, a longo prazo. E o The New York Times já corrobora sua tese: com um blog surgindo a cada segundo (dado da BBC), que redação pode competir com milhões de especialistas espalhados pelo globo? No limite, a blogosfera tende a acertar mais do que a mídia estabelecida.

Não faltam exemplos práticos de comprovação nessa área, e o We the Media não hesita em listá-los. Aqui no Brasil, surpreendentemente, admitiu-se que a internet foi a “mídia revelação” durante os ataques do 11 de Setembro – permitindo um acompanhamento em tempo real, quase com liberdade total na disseminação da informação (embora e-mails tenham escapado com fotos chocantes, o governo Bush, por exemplo, tratou de conter o quanto pôde a sua proliferação). E ninguém nega que, a princípio, a melhor cobertura, mais recentemente falando, do tsunami, dos atentados em Londres e da tragédia de New Orleans, aconteceram on-line: enquanto o poder público estava paralisado e a mídia, inacessível, pululavam relatos, fotos, áudios e vídeos amadores, em blogs e plataformas afins. Dan Gillmor chama a atenção para a eleição norte-americana de 2004, onde os blogs, além de terem produzido uma ameaça real à mídia estabelecida (derrubando um âncora de rede de televisão, entre outras coisas), permitiram mobilizações antes impensáveis a favor de candidatos menos favorecidos (financiando, por exemplo, a campanha de Howard Dean).

Mas nem só de bons sentimentos vive Dan Gillmor. Dedica um capítulo inteiro do seu We the Media ao que chama, no idioma do Tio Sam, The Empire Strikes Back – O Contra-ataque do Império –, fazendo alusão à trilogia Guerra nas Estrelas de George Lucas, e afirmando taxativamente que os detentores do “cartel do entretenimento” (outra expressão sua) não vão deixar por menos. Gillmor cita a “guerra” da indústria do disco contra a pirataria e contra o compartilhamento de arquivos (faixas) via internet. Embora considere a internet um fait accompli, não acredita no “desprendimento” das majors – também do cinema, também do universo editorial –, no sentido de ceder seus “direitos adquiridos” para que tudo caia em domínio público. Ainda assim, Gillmor lançou seu próprio livro dentro do princípio dos Creative Commons, disponibilizando o primeiro capítulo inteiro em PDF, para quem quiser baixar.

We the Media não é, pela natureza mesma do seu assunto principal, a última palavra em matéria de internet – mas é, ainda assim, a melhor tentativa nesse sentido. E se não consegue se manter up-to-date – o que seria um contra-senso, até em termos de internet –, carrega no seu bojo as melhores intenções jamais dedicadas à mídia nova. Desde o título, que remete à abertura da constituição dos Estados Unidos (“We the People...”) – sutilmente insinuando que a revolução da internet vai ser tão central na história dessa nação quanto o foram fatos como a Independência e a Guerra de Secessão. Compactuando ou não com as idéias mais “vanguardistas” de Dan Gillmor, e de We the Media, não seria exagero admitir que seu raciocínio se estende para todo o planeta: poucas vezes um fato foi tão central para o desenvolvimento da nossa civilização como está sendo agora a internet.

Para ir além






Julio Daio Borges
São Paulo, 2/12/2005

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