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COLUNAS

Quarta-feira, 7/12/2005
A redescoberta da(s) leitura(s)
Guilherme Conte

+ de 1600 Acessos
+ 1 Comentário(s)

Os atores, o diretor, algumas cadeiras. E um bom texto, obviamente. Aí está a receita de algo que vem fazendo cada vez mais sucesso em São Paulo: as leituras dramáticas. Estas iniciativas têm ganho importância na formação de público qualificado e é mais uma opção cultural de relevância no já agitado cenário paulistano.

Apesar do que se tem dito (e escrito) por aí, esse tipo de iniciativa não é novo. Suas raízes históricas, aliás, são muito fortes. “As leituras estiveram muito em voga nos anos 1970 e 80. Era a chance de se travar contato com textos que haviam sido proibidos”, conta Jorge Félix, dramaturgo e coordenador do programa Teatro é para ler, do Espaço Viga. Ele conta que durante os anos 1990 ela praticamente desapareceu. “Agora, felizmente, está voltando com força.”

Este panorama é reflexo de um grande movimento do teatro brasileiro de valorização por vezes excessiva do encenador, em detrimento do próprio texto. A dramaturgia ficou em segundo plano nas últimas décadas, à exceção de alguns bastiões de resistência, a exemplo do Grupo TAPA. Essa retomada das leituras é conseqüência dessa revalorização do texto, do papel do dramaturgo.

Mário Viana atua dos “dois lados do balcão”: é um premiado dramaturgo e crítico do jornal Valor Econômico e da revista Bien’Art. Ele gosta muito de organizar leituras dramáticas de seus próprios textos. “São o primeiro contato com o público, me dão outra dimensão do texto, que escapa da leitura silenciosa”, conta. “A reação da platéia dá uma pista do que está esquisito, do que está errado e do que está certo no texto.”

Ele particularmente prefere as leituras mais “simples”, do ponto de vista do espetáculo, com iluminação bem enxuta. Nada de cenário, marcações etc. “O que deve ser valorizado na leitura é o texto, é por ele que as pessoas se reúnem para assistir”, avalia.

Um outro ponto alto das leituras é seu importante papel na formação de público. “É uma forma do público ter uma outra dimensão do fazer teatral, de conhecer o trabalho por trás de um texto”, relata a dramaturga Rosangela Petta. Seu texto A mulher com ele foi lido mês passado no Centro Cultural Banco do Brasil, na série Dramaturgias. “É bom para todo mundo: para o público, para os atores, para o diretor e para o dramaturgo. Ganhamos elementos para trabalhar e retrabalhar o texto.”

O ator Paulo Autran, com 60 anos de serviços prestados aos palcos, é um adepto fervoroso das leituras. Quando quer testar uma peça nova, ele marca um desses eventos e fica extremamente atento à reação do público. Ao final, sempre pergunta: “Gostaram? Acham que rende um bom espetáculo?”

Autran está em cartaz em São Paulo, no Teatro Procópio Ferreira, com a peça Adivinhe quem vem para rezar, de Dib Carneiro Neto. Antes, ele havia organizado uma leitura na Casa do Saber, que muito lhe agradou. “Ela foi determinante para que eu optasse pela montagem”, diz.

Opções não faltam. Geralmente são gratuitas, mas o ingresso nunca passa de R$10,00. Além da Casa do Saber e do Viga, o CCBB, o Espaço dos Satyros e o Senac Lapa têm leituras sistemáticas. E há ainda o projeto Segundas Intenções, encabeçado pela atriz Thereza Piffer, que já completa três anos.

Se você gosta de teatro, é uma opção interessante para uma experiência diferente. E se não gosta, talvez seja uma boa porta de entrada. O importante é participar. Ou, no caso, assistir.

Sem escapar do óbvio

O Brasil tem uma longa tradição de teatro engajado. Esse papel se acentuou em meados do século XX, com o TBC e o Teatro de Arena, e teve seu auge durante a ditadura militar. Mais do que reflexão, muitas peças buscam ser verdadeiras denúncias. Canaã, a terra prometida, de Jarbas Capusso Filho, é um desses textos. Ela segue em cartaz no Espaço dos Satyros até o dia 13 de dezembro.

Carlos Meceni assina uma direção inteligente, que se dispersa em um elenco irregular formado por Sonia Guedes, Dan Rosseto, Munir Kanaan e Zeza Mota.

Uma família mora em um terreno ocupado, vizinho a um lixão, e recebe uma ordem de despejo. Ali, a tênue estrutura que mantém as relações em pé rui violentamente. O turbilhão que engole os personagens cresce a cada momento. Uma panela de pressão prestes a explodir.

Os elementos são clássicos: a mãe, profundamente religiosa, imersa em um otimismo messiânico cego; a filha, que se mata de trabalhar e é mal paga, cobra do irmão uma postura mais firme; este, ex-interno da FEBEM, luta para tentar uma “vida direita”; e, por fim, o amigo do filho, um viciado em drogas que faz de tudo para trazê-lo de volta ao crime.

O encadeamento dos fatos segue a previsibilidade. O filho, Davi, é vítima de uma armação e perde o emprego. Topa, assim, participar de um assalto que o amigo propôs. Sua irmã se mostra intransigente e insensível aos seus argumentos. A mãe permanece na inércia de visitar o túmulo do finado marido diariamente.

O jogo de forças entre os dois irmãos é o ponto alto da peça. Os diálogos cortantes, embora sem muito de sua força pelas atuações ruins, estabelecem um interessante duelo de poder. A violência latente se derrama pela boca.

Capusso peca pelo quase didatismo que imprime à situação dramática. Todas as possibilidades são minuciosamente esmiuçadas, fechando a interpretação. A filha se perde em um monólogo com frases como “será que as pessoas se lembram que existimos” e “valemos menos que lixo?”

É uma pena que as sugestões do início se percam na obviedade e na limitação da ação. Uma promessa que não se cumpre.

Para ir além
Canaã, a terra prometida – Espaço dos Satyros – Pça. Franklin Roosevelt, 214 – Consolação – (11) 3258-6345 – Terça, 20h – R$ 15,00 – Até 13/12.

Notas

* Se for ao Espaço dos Satyros, melhor conferir uma ótima montagem do grupo que estão em cartaz por lá. Cosmogonia – Experimento Nº 1, de Rodolfo Garcia Vázquez (Quinta e Sexta, 21h30 / R$ 20,00 / Até 16/12) narra os 50 minutos de vida de um cientista, internado na UTI, conversando com divindades gregas. É baseada na Teogonia, de Hesíodo. Ótimo texto, visualmente impactante e com boas interpretações de Cléo de Páris, Eduardo Castanho, Eduardo Metring e o impressionante Ivam Cabral. A direção é do próprio Rodolfo Garcia Vázquez.

* Se não assistiu, corra. Se já assitiu, vá ver de novo. Agreste, obra-prima do pernambucano Newton Moreno, voltou aos palcos, agora no teatro do SESC Ipiranga (R. Bom Pastor, 822 / (11) 3340-2000 / Quarta, 21h / R$ 4,00 / Até 28/12). É do melhor teatro que se fez no país nos últimos tempos. Joca Andreazza e Paulo Marcello se revezam entre o narrador e os personagens de uma quase fábula sobre o amor. O Nordeste aparece quase um personagem, com suas peculiaridades. A riqueza da coloquialidade, no texto preciso e belíssimo de Moreno, dá as cores do espetáculo. A direção, de Márcio Aurélio, é criativa e tira poesia das pequenas coisas. Para chorar de tão bonito.


Guilherme Conte
São Paulo, 7/12/2005

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COMENTÁRIO(S) DOS LEITORES
5/12/2005
22h39min
Caraca! Acabei de falar algo que se parece com isso! Putz coincidência no Digestivo. Fiquei feliz. Então essa impressão não é só minha! Guilherme, pessoal, leiam A Boa e a Média em 2005, que acabei de postar. Abrazo
[Leia outros Comentários de Ana Elisa Ribeiro]
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