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Sexta-feira, 6/1/2006
Wayne Shorter: o melhor do ano
Jardel Dias Cavalcanti

+ de 1300 Acessos

“O pássaro voa não porque tem asas, mas ele tem asas porque voa”.
Wayne Shorter

O Brasil pode se orgulhar por ter recebido, na edição de 2005 do Tim Festival, uma das mais significativas figuras da história do jazz: Wayne Shorter. Acontecimento desta dimensão deveria ser louvado, decretando-se feriado nacional, e exibindo-se o show deste gênio ao vivo e em rede nacional. Mas isso não acontece, porque, como dizia Schoenberg, “a verdadeira arte é para poucos, se fosse para muitos não seria a verdadeira arte”.

Louvar Wayne Shorter apenas por sua presença na história do jazz seria ainda importante. Mas não é apenas esse o caso. Ele deve ser louvado pelo que consegue realizar aqui e agora, diante de nossos olhos comovidos e nossos ouvidos maravilhados. O que o músico nos trás é algo que dificilmente poderemos traduzir em palavras. Mas como somos dados a falatórios e nossa emoção e entendimento desejam ardentemente se expressar, tentamos dar conta de um fenômeno da ordem do inefável: a música.

Vamos aos fatos. Como dizia Goethe, a verdadeira sabedoria é entender que o fato é a verdadeira teoria. O que aconteceu efetivamente no show brasileiro de Shorter? Antes de responder, permita-me, leitor, algumas elocubrações. Às vezes ao ouvirmos algum disco mais antigo de jazz, temos a impressão de que “aquela” música não existe mais, que aquela sonoridade se perdeu no tempo, não fazendo parte do registro da sensibilidade dos músicos atuais. Pior do que isso: hierarquizamos, dizendo a nós mesmos que música igual àquela que acabamos de ouvir, com uma qualidade semelhante a ela, não se pratica mais. Alguma coisa preciosa se perdeu no tempo. E essa impressão ocorre a muitas pessoas. O mesmo deve ocorrer com ouvintes apaixonados por ópera, que sentem a força de um cantor antigo, dotado de uma qualidade tão inebriante que sabe que não a encontrará mais nesta vida.

Pois bem, por alguma razão que desconhecemos, e isso rararamente ocorre, temos o prazer de experimentar, ao vivo e a cores, ao renascer dessa força vibratória antiga, podendo provar um bocado dessa delícia divina... Aqui no Brasil. Foi o caso da apresentação de Wayne Shorter.

Shorter surgiu acompanhado de três músicos também geniais, o pianista panamenho Danilo Perez, o baixista John Patitucci e o baterista Brian Blade. Instalado este quarteto, irmanados pelo encontro entre uma competência inquestionável e uma sensibilidade profunda, deu-se o fenômeno acima comentado. Uma música que parecia impossível de existir, que parecia fadada ao museu dos discos de música, que guardaria para a posteridade o exemplo de uma genialidade (como existe o Louvre e o Prado, por exemplo, para a pintura), esta música poderosa, surge, de repente, nos nossos ouvidos no momento presente.

Para que ela surja é necessário que exista a comunhão entre os quatro músicos, que eles vibrem em uníssono, mas com um ingrediente inusitado, porém vital: a força de cada um, a diferença e a individualidade criativa de cada músico tem que ser preservada. E fato como esse só acontece entre grandes espíritos. Foi o que ocorreu no show do quarteto de Shorter.

O princípio básico do jazz, o improviso, se impôs preponderantemente, imperativamente. Os instrumentistas gozaram da maior força que o jazz sempre teve a seu favor, criando a cada minuto seqüências inusitadas de sons que levaram o público ao êxtase. Algumas pessoas comentaram depois do show que ele deveria ter sido assistido de joelho. Por isso a palavra êxtase se aplica aqui neste momento. Se Wynton Marsalis, por exemplo, é clássico, o quarteto de Shorter foi barroco, sendo ao mesmo tempo moderno. E agora podemos falar na vertigem do jazz, como se os pintores Tintoreto e Picasso e o baterista Art Blakey estivessem juntos dentro do sax de Shorter, produzindo uma música que a cada momento soava inusitada, inesperada, variando do meditativo ao tempestivo.

O resultado sonoro do sax de Shorter, enlaçado ao baixo de Patitucci, sobrevoado pelo piano de Perez e sacudido pela bateria de Blade fizeram do show um acontecimento ímpar. Todos esses movimentos se alternavam, hora o baixo fazendo a corte ao piano, ora se distanciando para que a bateria sobrevoasse a cena, ora o sax lançando rajadas entrecortantes sobre a bateria e ora todos irmanados numa febril vibração que se ampliava a cada momento quando, então, já divinizados pela vertigem, encontrassem uma comunhão meditativa, solene, espiritual.

Wayne Shorter não chegou a isso do nada. Tem uma história. A frase popular “diga-me com quem tu andas e direi-te quem és” tem sentido aqui. Saxofonista nascido em 1933, surgiu do Jazz Messengers de Art Blakey, onde tocou de 1959 a 1963. Foi inevitavelmente tocado pela profusão criativa de Blakey nesse período. Em 1969, participa de In a Silent Way, gravado com o quinteto de Miles Davis, com quem trabalhou tocando sax tenor de 1963 a 1970. Em 1970, emprestou, ao lado de Herbie Hancock, uma sonoridade expressiva ao álbum Britches Brew, de Miles Davis. Logo após, como um dos inovadores musicais do jazz dos anos 70, participou junto com Joe Zawinul da criação do grupo Wheater Report, um dos mais bem sucedidos grupos de fusion (fusão entre rock e jazz). Nesta época conviveu em um ambiente musical extremamente experimental onde circulavam nada menos que Chick Corea, Keith Jarret, John MacLaughlin e Joe Zawinul, entre outros.

Agora, como fruto de uma experiência vital com o jazz tradicional e o experimental, Shorter encontra-se novamente em um lugar onde poucos músicos chegaram, um lugar próprio, maduro, reservado aos gênios como John Coltrane, Miles Davis, Charlie Parker, Thelonious Monk, Charles Mingus, Lester Young e outros, um lugar onde a música soa atemporal, num caminho irreversível para a eternidade. E nós podermos apreciar este momento é uma dádiva.

Pena que o público do jazz não é a massa, que faz os discos idiotas de ouro que andam por aí, mas uma pequena minoria, como aquela que aprecia a ópera e a música clássica. Por isso, ainda Wayne Shorter é para poucos, tal qual os divinos manjares e os melhores vinhos, que necessitam de um aprendizado contínuo para serem saboreados em seu significado profundo. Precisam da elevação do espírito, como as doutrinas que Shorter abraça, uma de hoje, o zen-budismo, e uma de sempre, o jazz.


Jardel Dias Cavalcanti
Campinas, 6/1/2006

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