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COLUNAS

Segunda-feira, 23/1/2006
Pensando a retomada do cinema brasileiro
Marcelo Miranda
+ de 3900 Acessos
+ 1 Comentário(s)

Para compreender e apreciar o cinema, ver filmes é obviamente fundamental, mas não só isso. Ler livros sobre o assunto e estudar a história, a teoria e a análise fílmica são formas de se aprofundar no que de melhor os sons e imagens da tela grande podem nos proporcionar. Um espectador educado na arte que consome a aproveita muito mais e de formas variadas, intensas e estimulantes. Nesse sentido, acompanhar o que se pensa a respeito do cinema feito na contemporaneidade torna-se tarefa imprescindível e prazerosa quando se tem à disposição escritos de relevância. É o caso da atual publicação de livros que refletem sobre a chamada retomada do cinema brasileiro.

A retomada é historicamente demarcada pelo lançamento do longa-metragem Carlota Joaquina – Princesa do Brazil, de Carla Camurati, em 1995. Inicia um novo ciclo da nossa cinematografia, após o quase vazio da produção existente entre 1990, ano em que o presidente Fernando Collor acabou com a Embrafilme (empresa estatal que subsidiava os filmes no país), e a chegada deste primeiro projeto de Camurati. Ou seja, é um tempo ainda recente, quase em andamento e que oficialmente completou dez anos em 2005 – pretexto para uma interessante revisão em várias publicações a respeito.

A última e mais notória veio no final do ano passado: Cinema Brasileiro 1995-2005: Ensaios Sobre uma Década (Azougue Editorial, 351 páginas), editada pela revista eletrônica Contracampo e organizada pelo crítico Daniel Caetano. São diversos textos colocando literalmente na berlinda mitos acerca da retomada – ou “retomada”, como preferem os redatores, já que eles consideram o termo questionável e simplista frente à maior das características do período: o uso das leis de incentivo fiscal para a realização dos filmes. Logo na abertura, em introdução assinada por Caetano junto a Eduardo Valente, Luís Alberto Rocha Melo e Luiz Carlos Oliveira Jr, decreta-se: “nestes dez anos (...) o cinema brasileiro não construiu uma cinematografia sólida. (...) Não delineou movimentos estéticos (...) mas vestiu a máscara ideológica de retomada. (...) Sem nome e sem rosto, assim se passaram estes dez anos da história do cinema brasileiro”.

São afirmações sérias e categóricas, que o livro vai buscar analisar ao longo das suas mais de três centenas de páginas – e não apenas com os 15 ensaios que o título adianta, mas com 14 entrevistas de técnicos e realizadores ativos nesta fase mais recente de produção. Nomes de peso, como a produtora Sara Silveira, o fotógrafo Walter Carvalho e os cineastas Beto Brant, Carlos Reichenbach, Domingos Oliveira, Fernando Meirelles, Walter Salles e Jorge Furtado, falam de suas experiências e da inserção nesse novo mundo surgido na era pós-Collor. Já nos textos ensaísticos, há três subdivisões (“Temas e Gêneros”, “Abordagens” e “Características Históricas”), reunindo baterias de artigos, e um momento de licença poética (“Crônicas”), formando grande, completo e controverso mosaico de pensamentos que ajudam o leitor cinéfilo a tentar compreender o que, afinal, foi essa retomada, sempre sob a ótica do enfrentamento assumida pela turma da Contracampo.

Igualmente crítico, mas menos ácido, Luiz Zanin Oricchio, que escreve no Estadão, lançou em 2003 Cinema de Novo: Um Balanço Crítico da Retomada (Estação Liberdade, 255 páginas), já considerado uma referência. Menos preocupado em defender tese, Zanin ambiciona radiografar as abordagens que o cinema brasileiro teve quanto à figura dos próprios cidadãos do país, através de recortes temáticos dos principais filmes do período. Assim, temos um texto que se aprofunda nos significados de determinadas produções e na forma como elas lidam com as narrativas e os personagens inseridos ali. Dá para entender melhor pelos capítulos moldados pelo autor: “A Representação da História”, “Eu e o Outro”, “A Esfera Privada”, “A Esfera Pública”, “O Sertão e a Favela”, “A Arte da Violência” e “Classes em Choque” reúnem, cada um, análises de filmes específicos a serem pensados e comparados entre si. No fim, Zanin arrisca uma breve história da crítica no Brasil, colocando em evidência seu papel de enriquecedora da compreensão do cinema e suas engrenagens.

Se o livro da Contracampo ou o de Oricchio podem parecer voltados a iniciados, há outras duas boas opções mais introdutórias circulando. Cinema Brasileiro Hoje (Publifolha, 96 páginas), do crítico Pedro Butcher, é curto e possível de ser lido de um único fôlego. Resumindo os dez anos de retomada sem simplificar nada e passando pelos principais momentos da época, Butcher lança uma idéia fundamental para se entender o período: diferente de quando as telas nacionais foram sacudidas pela chanchada, pela indústria da Vera Cruz, pelo Cinema Novo e pelo Cinema Marginal, a retomada nunca pareceu ser um “movimento” propriamente dito, mas uma tentativa quase unicamente de levar o público para uma sala de exibição, ganhar dinheiro e garantir espaço. “O grande projeto da retomada, mais do que qualquer ambição artística, é reocupar seu próprio mercado”, escreve o autor, matando a charada que tanto aflige produtores e público.

Afinal, é preciso entender que, apesar de ainda termos autores de verdade em atividade (Reichenbach, Oliveira, Bressane), o maior de todos os objetivos não é mais revolucionar linguagens ou demarcar ideologias, mas simplesmente comercializar filmes – no fundo, o que norteia o cinema desde sua criação no fim do século XIX. A retomada, nesse sentido, é o período em que os filmes brasileiros voltam a render nas bilheterias, por mais que isso possa comprometer sua qualidade – e não é à toa que Carlota Joaquina seja o grande marco: foi o primeiro filme desde os anos 80 a levar mais de um milhão de espectadores aos cinemas.

Cinema Brasileiro: Das Origens à Retomada (Empório do Livro, 160 páginas), do professor Sidney Ferreira Leite, é mais amplo na sua proposta e inventaria toda a história do nosso cinema. Muito detalhado e didático, é um dos melhores livros para quem quer entender a trajetória brazuca nas telas. No fim, o autor reflete sobre o atual momento, sem somar grandes novidades, mas fechando bem o caminho até então delineado. Foca a maior parte da discussão na força da Globo Filmes dentro da retomada – algo em pauta em todas as demais publicações aqui citadas, aliás. A presença do maior canal de televisão da América Latina na produção cinematográfica é tão forte e intimidante que merece discussão à parte.

Nenhuma publicação, até onde eu sei, bateu de frente com esse assunto, e apenas com ele. Todas reservam espaço para abordar a Globo Filmes, mas ela ainda não foi o foco principal. E dentro de uma realidade em que as leis de incentivo são a pedra de toque da mais cara das artes e enquanto políticos e intelectuais se digladiam em praça pública por conta do dinheiro distribuído, está na hora de colocar em xeque a utilização das verbas públicas para projetos de uma rede de TV de concessão igualmente pública e com capacidade de se auto-sustentar. Mas não serei eu, humilde escriba, a comprar essa briga agora, no calor da batalha. Prefiro ler meus livrinhos e tentar entender melhor todo esse universo antes de dar maiores pitacos.


Marcelo Miranda
Juiz de Fora, 23/1/2006

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COMENTÁRIO(S) DOS LEITORES
24/1/2006
17h19min
O cinema brasileiro já foi fraquinho, fraquinho. Não saía do binômio favela-miséria sertaneja. Mas, de uns tempos para cá, abriu sua ótica, ampliou a estética, aventurando-se por trilhas leves, bonitas e humorísticas. Também melhorou muito a qualidade de som e fotografia. Isso o enriqueceu porque não é todos dias que estamos com vontade de rever misérias e problemáticas sociais. Afinal cinema também é diversão.
[Leia outros Comentários de Dalila Flag]
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