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COLUNAS

Quarta-feira, 3/5/2006
Cony: o existencialista, agora, octogenário
Jonas Lopes
+ de 3600 Acessos

Em O Ventre, primeiro romance de Carlos Heitor Cony, lemos já na primeira página uma frase que serve de carta de intenções do então jovem autor: “Só creio naquilo que possa ser atingido pelo meu cuspe. O resto é cristianismo e pobreza de espírito”. Essa frase diz muito do protagonista usual dos livros de Cony: um melancólico incurável – não o melancólico usual, triste e choroso, e sim um de humor cruel, amargo, anárquico, de tom quase sempre auto-depreciativo –, desiludido com Deus (há sempre uma ruptura, uma fé que se perdeu), individualista e egoísta. Alguém que trocaria de vida facilmente, se tivesse coragem para isso.

Como toda estréia, O Ventre, de 1958, sofre um pouco com as influências excessivamente expostas. No caso, o narrador tipicamente machadiano e a postura existencialista, herdada de Sartre. A semente da futura obra de Cony, entretanto, está toda ali. Com o tempo, pôde-se perceber que essas características não se encaixam apenas nos personagens, mas no próprio Cony. Ler as entrevistas do escritor chega a ser incômodo, de tão crítico que é de si mesmo. Modéstia ou charme? Logo depois se redime, cunha alguma frase deliciosa, cética e amargurada (como “o homem é um projeto falido” ou “sou um grande batedor de maionese”).

O carioquíssimo Carlos Heitor Cony nasceu a 14 de março de 1926. Ou seja, completou oitenta anos. A repercussão da data na imprensa foi quase nula. Não surpreende. Cony é um autor subestimado, tido como de segundo escalão. Uma injustiça. Se ele não criou nenhuma grande obra-prima nem quebrou paradigmas, também não escreveu nada ruim. Manteve um padrão constante de qualidade. Em futuras enquetes de melhor qualquer coisa, seu destino deve ser o de nunca aparecer, pois cada crítico deverá votar em um livro diferente. É difícil escolher um favorito.

Sua infância foi marcada por um detalhe bem peculiar. Cony, até os cinco anos, não falou. A família acreditava que o menino era mudo. Voltou a falar depois de um susto de um vôo rasante de um hidroavião, e nunca mais parou. Aos doze anos, entrou para o seminário, que abandonou anos depois, quando constatou que não tinha fé. Em 1947 cobriu as férias do pai, o jornalista Ernesto Cony Filho, no Jornal no Brasil. Começa ali sua relação com a imprensa, que dura até hoje.

Em 1956, inscreveu O Ventre no Prêmio Manuel Antônio de Almeida. Os jurados (Manuel Bandeira entre eles) elogiaram o livro, mas o consideraram pesado demais para ganhar. Pouco tempo depois, o jovem Cony apareceu no prédio da editora Civilização Brasileira. Exigia falar com o dono, Ênio Silveira, e entregar-lhe seu trabalho para ser publicado. Ênio avisou-lhe que era procurado por dezenas de novos ficcionistas, por que ele seria um caso à parte? Cony contou a história do concurso e garantiu que seu livro era bom. O editor resolveu apostar. O maior diferencial da prosa era o enfoque urbano, longe da metafísica regionalista de um Guimarães Rosa, em algum lugar entre o impiedoso retrato da classe média carioca de Nelson Rodrigues e o desencanto do Fernando Sabino de O Encontro Marcado.

Depois de O Ventre vieram A Verdade de Cada Dia (1959, escrito em nove dias) e Tijolo de Segurança (1960). Ironia: ambos foram inscritos naquele mesmo prêmio e ganharam. Em 1961 Cony lança seu livro mais pungente (e o mais autobiográfico), Informação ao Crucificado. É a história de João Falcão, que, aos onze anos, entra para o seminário e, exatamente como Cony, sofre por ter dúvidas em relação à fé. Ainda assim, é apaixonado por aquela vida. Acha que ser padre é bonito, “bonito e difícil”. No final, vai embora, com ainda mais dúvidas (“Que serei lá fora? Ateu? Devasso? Carola? Problemas secundários. O futuro não conta, nem mesmo a eternidade. Importa é danar o coração, depois de tanto masturbá-lo”) e uma certeza: Deus acabou.

Matéria de Memória (1962) e Antes, o Verão (1964) são dois momentos de maturidade. No primeiro, o autor brinca com três pontos de vista, o de uma mulher, seu amante e seu filho. Seus pensamentos são todos escondidos pelos três, em uma trama de desentendidos e informações que se cruzam sem se tocarem. Antes, o Verão é seu livro mais doído. Parece apenas mais uma história de um casal em vias de fim de caso. Cony, entretanto, brinca com pequenos detalhes, como a casa de praia que entra em decadência junto com o casal, e a maresia de Cabo Frio que corrói o relacionamento. No final, sobra o silêncio.

Desde 1960 Cony vinha escrevendo crônicas políticas para o Correio da Manhã. Em 1965 (ano de Balé Branco) começaram seus problemas com a ditadura. Foi preso seis vezes, passou um ano e meio exilado (hoje recebe uma gorda e polêmica pensão do governo, como “indenização”; essa é outra discussão...). O regime militar foi explorado em Pessach: a Travessia (1967), romance dividido em duas partes. Na primeira o intelectual (e judeu) Paulo Simões recusa-se a entrar para o Partido Comunista em favor de sua individualidade. É um trecho exemplar, sério concorrente a melhor coisa que Cony escreveu. O nível cai um pouco na segunda parte, em que o personagem é “seqüestrado” pelos guerrilheiros e acaba aderindo à luta. Sobram farpas para todos os lados, tanto para os militares quanto para os supostos revolucionários.

Pilatos, de 1973, é considerado pelo próprio Carlos Heitor Cony o seu melhor trabalho. “Pilatos sou eu, inteiro”, disse à revista EntreLivros. Otto Maria Carpeaux chamou de “originalíssimo” o livro: “não tem semelhança com nenhuma outra obra da literatura brasileira”. Na inusitada (e algo escatológica) história, um homem perde o pênis e passa a carregá-lo consigo, dentro de um vidro. A ditadura é novamente explorada, em pinceladas sarcásticas.

Começa aqui um longo intervalo na carreira ficcional de Cony, que durou o resto da década de setenta, toda a de oitenta e metade da de noventa. Nesse tempo, escreveu algumas reportagens longas (uma sobre Getúlio, outra sobre JK) e trabalhou na revista Manchete. Sua volta aos holofotes aconteceu só em 1993, quando substituiu o recém-falecido Otto Lara Resende como cronista da Folha de S. Paulo – logo se tornou um dos cronistas mais conhecidos do país.

O retorno à ficção ocorreu em 1995, com Quase Memória, talvez seu livro mais conhecido. Quase Memória, escrito em três semanas, vendeu demais e começou uma espécie de “onda Cony” no Brasil. Curiosamente, é um livro pouco característico. É bem mais otimista que o Cony habitual, menos perturbado - a amargura dá lugar ao lirismo. Na história, o jornalista Carlos Heitor Cony recebe um pacote misterioso, que seria de seu pai falecido. Feito uma madeleine carioca, o pacote desperta no narrador lembranças das desventuras do pai, um tanto anti-heróicas e atrapalhadas. Cony sentiu vontade de voltar à ficção após a morte da sua cadela Mila. Não pretendia lançar Quase Memória; e só o fez pela insistência de Ruy Castro, que adorou o livro.

O romance seguinte também foge das características habituais do autor: O Piano e a Orquestra, de 1996, explora territórios picarescos e folhetinescos. Só com A Casa do Poeta Trágico (1997) Cony volta às histórias de desamores e angústias pessoais do começo da carreira. O esquálido Romance sem Palavras (1999), escrito em meros onze dias, retorna à ditadura, numa espécie de conclusão moral de Pessach. O Indigitado (2001) faz parte da coleção Cinco Dedos de Prosa e passou despercebido. O último livro de Cony é A Tarde da Sua Ausência, um estudo simples (mas não simplório) da classe média carioca e da dissolução familiar. A novidade é o uso da repetição – de cenas, frases, até capítulos inteiros. O recurso é meio picareta, mas funciona bem.

Cony chegou a rascunhar uma continuação de Informação ao Crucificado, com o ex-seminarista João Falcão trinta anos mais velho. Desistiu. Atualmente, ocupa-se com Messa para o Pappa Marcello, um livro que vem tentando escrever há quase quarenta anos – a essa altura já é quase uma lenda. Logo ele, acostumado a escrever em tempo recorde.


Jonas Lopes
Florianópolis, 3/5/2006

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