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COLUNAS

Segunda-feira, 20/2/2006
Sobre o Oscar 2006
Marcelo Miranda
+ de 3400 Acessos

No próximo dia 5 de março, vai acontecer a cerimônia do Oscar, em Los Angeles. Maior festa de gala do cinema americano, premia anualmente os filmes mais votados pela Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood e exibidos no ano anterior. Basicamente é isso, o que não é novidade pra ninguém. Curioso este ano é a seleção final dos concorrentes à estatueta dourada. Depois que a fantasia dominou praticamente todo o espaço dos últimos tempos, tendo seu ápice nos 11 prêmios de O Senhor dos Anéis: O Retorno do Rei em 2004, parece que o Oscar resolveu se tornar mais “sério” e, por que não dizer, político.

A guinada veio no ano passado. Quando as bolsas de apostas davam como certa a vitória de O Aviador de Martin Scorsese, eis que um filme pequeno, mas de imensidão cinematográfica infinita, levou na categoria principal: Menina de Ouro podia parecer esquemático à primeira vista. Só que, sendo de Clint Eastwood, não podia ser mais o inverso. Diretor de notável humanidade, sensibilidade e dureza com os temas tratados, fez deste trabalho um dos mais ovacionados da carreira. E mais: dobrou a Academia, notadamente conservadora, ao levar o troféu – já que Eastwood tinha na eutanásia, assunto polêmico por natureza, boa parte da razão de ser de seu filme. Na mesma festa, o espanhol Mar Adentro ganhou como melhor produção em língua não-inglesa, tratando também da eutanásia de forma ainda mais explícita. Algo estava diferente.

E eis que, agora, os cinco principais indicados ao Oscar são filmes, em algum aspecto, combativos, por mais inseridos que estejam na grande indústria. Quase todos de fácil apreensão do público, tratam, sem exceção, de temáticas ousadas ou, no mínimo, questionam alguma realidade – inevitavelmente resvalando para a própria realidade atual dos EUA. A começar pelo mais complexo dos trabalhos, Munique, de Steven Spielberg. É a visão do diretor para os acontecimentos que sucederam o atentado palestino à delegação israelense das Olimpíadas na Alemanha de 1972, fato que provocou a morte de 11 pessoas. Apresenta um grupo organizado pelo Mossad (serviço secreto de Israel) com o objetivo de eliminar os responsáveis pelo ataque, um a um.

Em formato de thriller e jeitão de filme policial dos anos 80 (remetendo a John Frankenheimer e William Friedkin), Munique faz claro paralelo dos acontecimentos na tela com a política do governo de Bush-filho, numa tentativa de ser o mais objetivo e apartidário possível. Spielberg quase consegue, e no fim das contas dá muito bem o recado: os ciclos de violência política e ideológica tendem, acima de tudo, a prejudicar não necessariamente os poderosos, mas as pessoas comuns, soldados do cotidiano que acreditam estar defendendo a pátria, mas apenas lutam por um status quo há muito sem sentido de continuar existindo. A imagem das torres do World Trade Center é a palavra final de um cineasta que parece finalmente ter amadurecido e deixado de lado o maniqueísmo e a fábula que marcam toda a sua obra.

Munique
Munique: paralelo com o governo Bush

Também em paralelo com os tempos modernos (não dos de Chaplin, muito mais otimistas do que ele poderia imaginar nos anos 30), Boa Noite e Boa Sorte é o olhar do ator e diretor George Clooney sobre o macarthismo e a tentativa do sórdido senador McCarthy em calar um jornalista. Critica, através de imagens de arquivo e num preto-e-branco nostálgico e duro, o poderio da política em cima dos meios de comunicação – ou ao menos a tentativa de manter esse poderio. Mais uma vez, um filme que parece querer gritar contra o centralismo da Era Bush, com seus patriot acts e afins. Capote, outro dos indicados, igualmente se passa no universo jornalístico. Menos “engajado” dos cinco favoritos, reconstitui a trajetória de Truman Capote durante a concepção de sua obra-prima literária, A Sangue Frio. Não chega a ser um filme essencialmente provocador, ainda que coloque na tela um homem cheio de facetas, que deixa a ética muito próxima do limite e assume sem medos a homossexualidade.

Homossexualidade, aliás, que ronda o favoritíssimo O Segredo de Brokeback Mountain, em outro filme que parece colocar à prova a tolerância dos votantes da Academia quanto a essas “libertinagens”. Afinal, o longa de Ang Lee mexe com os brios do maior ícone do cinema americano – o cowboy – e envolve dois personagens num prolongado e intenso romance proibido no alto das montanhas. Com sua sensibilidade característica, o chinês Lee jamais permite que a narrativa caia em estereótipos ou caricaturas, tornando a relação dos vaqueiros algo não meramente homossexual, mas sim puramente apaixonado e apaixonante. É justamente aí que estaria o nó para a Academia: não é a história de gays como se costuma ver nas telas americanas, em que essa opção sexual costuma ser relacionada a orgias, afetações, doenças e, quando apresentada de forma menos forçada, acaba obrigando o protagonista em questão a algum “castigo” na narrativa. Em Brokeback Mountain, temos dois homens muito machos (para usar expressão que remete justamente ao comportamento de ambos) que simplesmente se vêem aproximados pelo amor, mas não podem assumir a relação devido ao conservadorismo de uma sociedade fincada na premissa da moral e dos bons costumes, seja lá o que isso seja. E a dupla do filme, agora, precisa enfrentar não apenas seus pares, que condenariam sem pestanejar a paixão por eles nutrida, mas também o voto frio da Academia de Hollywood. Será que, ao menos ali, no palco em Los Angeles, no dia 5 de março, a dupla será bem sucedida?

Brokeback Mountain
O Segredo de Brokeback Mountain: favorito

Filho bastardo entre os cinco indicados é Crash – No Limite. Quando penso no sucesso que essa obra vem fazendo, inclusive com premiações e fartos elogios por vários cantos, sempre questiono: será que vi o mesmo trabalho que esse povo todo? Crash é, por baixo, filme nojento e covarde. Tem como ponto de partida o caldeirão social de Los Angeles, com sua mistura de raças. Só que o diretor e roteirista Paul Haggis sai à caça de provar a qualquer custo a tese de que os homens são intolerantes por natureza e enche os 100 minutos de projeção com os mais primários recursos de linguagem e roteiro. Usando termo utilizado pela crítica Liciane Mamede, do site Cinequanon, quando ela escreveu de outro longa, A Passagem, Haggis faz um tipo de cinema “engaiolado” em suas próprias ambições. O cineasta não deixa o filme falar por si; ele insere elementos que apenas servem para corroborar um pensamento, quando o mais lógico, saudável e honesto é que o espectador desenvolva o pensamento sem que, para isso, o diretor o force a seguir determinado caminho pré-estabelecido.

Em Crash, cada peça está esquematicamente colocada de forma a obrigar (literalmente) o público a raciocinar como Haggis, jamais indo contra o que a imagem e os fatos nos apresentam. Os vários personagens que transitam na tela têm funções definidas desde o primeiro instante, e resta a nós apenas averiguarmos os absurdos que Haggis faz para nos mostrar as trajetórias de culpa e redenção que ele tenta tecer. Ao fim, entrega um filme tão firmado nos próprios problemas que tentava criticar que o efeito é inverso. Resta a inocuidade. Para sentir a diferença e entender o que significa paixão pelos personagens e pelo espectador, basta pensar, para ficar no que me vem de imediato à mente, em Clean, drama francês de Olivier Assayas (já disponível em DVD) que acompanha o caminho de uma ex-viciada em drogas em busca do amor do filho pequeno. Imagine Assayas dirigindo algo como Crash, e haverá o vislumbre de uma obra-prima.

Enquanto o petardo equivocado de Paul Haggis (profissional que, ironicamente, roteirizou justamente Menina de Ouro) tenta papar seis Oscars, a pancada de David Cronenberg nas aparências da sociedade em Marcas da Violência foi quase totalmente ignorado pelos votantes – talvez chocados com a violência gráfica e nada agradável mostrada pelo diretor canadense, ou então incomodados pela visão de que não se está a salvo em lugar algum, por mais que se tente conter os ímpetos sangüinolentos do homem. Ou ainda a crueldade das relações amorosas do novo Woody Allen, Match Point, o qual ainda não tive a oportunidade de ver, mas que já sei ser uma guinada no caminho que Allen vinha traçando e um drama de grandes proporções humanas e críticas (quem já viu, por favor, comente aí embaixo se estou muito enganado). Ou até mesmo a coragem de Fernando Meirelles em peitar a indústria de remédios com O Jardineiro Fiel não através de denuncismo puro e barato, mas por uma tenra e singela história de amor.

Match Point
Match Point, de Woody Allen: indicado apenas a roteiro

Engraçado. Comecei esta coluna querendo defender a aparente liberalidade da Academia, mas estou prestes a terminar dizendo justamente o contrário: que por trás dessa casca, existe ainda uma instituição fincada em valores antigos e ultrapassados, aparentemente sem coragem de assumir novos rumos. A Academia de Hollywood transmite anualmente seu recado através do Oscar. Quando a festa termina, temos ali o grande painel do que a maior indústria mundial de entretenimento pensa de sua situação política e econômica. Enganado está quem acha que o Oscar é apenas o desfile de gala e a premiação fútil e desnecessária que pode parecer. Em cada decisão de qual filme ganhar, existe grande peso e a definição por algum posicionamento.

Numa recente conversa informal com o Editor-assistente do Digestivo Cultural, Fabio Silvestre Cardoso, eu disse que os votantes estavam se mostrando mais abertos depois de premiar Menina de Ouro, e que este ano seria mesmo de Ang Lee e seu Brokeback Mountain. Porém, Fabio veio com excelente contra-argumento: afirmou que o Oscar é tão conservador que, quando tenta se mostrar liberal, acumula tudo num ano só, para depois voltar a ser o mesmo de antes. Foi o que aconteceu em 2002, quando se quebrou o tabu, e três atores negros foram premiados (Denzel Washington, Halle Berry e Sidney Poitier) e no ano passado, quando dois filmes sobre eutanásia saíram laureados. Faz sentido. Muito sentido.

Ah, e por curiosidade: Fabio aposta em Munique para melhor filme.


Marcelo Miranda
Juiz de Fora, 20/2/2006

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