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COLUNAS

Sexta-feira, 24/2/2006
Discurso sobre o Capim, de Luiz Schwarcz
Jonas Lopes
+ de 1900 Acessos

Luiz Schwarcz, se você está por dentro do meio literário, é um nome conhecido. É, claro, o dono da Companhia das Letras, uma das principais editoras do país. Com o lançamento da curtinha coletânea de contos Discurso Sobre o Capim (2005, Companhia das Letras, 115 páginas), há alguns meses, a assinatura "Luiz Schwarcz, editor" ganhou um adendo: Luiz Schwarcz, escritor. É sua estréia na ficção adulta, após dois livros infantis (Em Busca do Thesouro da Juventude e Minha Vida de Goleiro). E é uma estréia de respeito.

Difícil foi perder o receio de que a obra ganhasse a pecha de "livro de editor". Nesse processo, Schwarcz teve apoio de autores de respeito, como Chico Buarque, Tomás Eloy Martinez e Rubem Fonseca, que leram e gostaram de seus escritos. A repercussão crítica do livro foi surpreendentemente positiva. Óbvio que houve quem acusasse os críticos de casuísmo, de plantarem o verde para colher o maduro (ou seja, lançar alguma coisa pela Companhia das Letras no futuro); ora, seria até estranho se nenhum pascácio rancoroso não fizesse isso. Dada uma chance ao livro, é impossível não constatar as suas qualidades.

As narrativas (onze) de Discurso Sobre o Capim são bem homogêneas. Por mais que os personagens e seus ambientes variem (uma vendedora de doces, um garçom, uma arrumadeira de hotel) eles compartilham sentimentos – um idealismo calado, sonhos que provavelmente não serão realizados, mas que são sonhados com prazer mesmo assim. As primeiras frases do livro sintetizam o espírito deles: "De lá tudo parecia pequeno. Menos eu".

Eles estão imersos na pureza, em um mundo ingênuo que não mais existe, que deu lugar ao cinismo. Um garoto judeu pergunta à mãe se o Deus da professora é o mesmo que o céu. A vendedora de doces descobre aquele que se chama "sonho", o que até então não sabia. Uma arrumadeira faz arranjos românticos na toalha de banho do hotel e deixa pétalas de rosa espalhadas pela colcha, sempre à espera de que, um dia, os clientes dêem algum sinal de gratidão pelo seu delicado esforço.

A predominância da primeira pessoa e o último conto, “Livro de Memórias” ("Todos os meus amigos escreveram suas memórias. Escreveram ou pagaram para outras pessoas escreverem") fortalecem a impressão de estarmos diante de elementos autobiográficos. Em “Palavras Cruzadas”, Schwarcz homenageia o cineasta François Truffaut, seu ídolo, e que ele considera, na verdade, um escritor: "O azar dos editores é que ele escrevia para o cinema, com uma câmera na mão".

Os personagens de “Sétimo Andar” e “A Quinta Parede” parecem ser um só, com vários anos de diferença. No primeiro conto, um menino passa as tardes na janela do jardim-de-inverno de seu apartamento. De lá ele observa outras crianças jogando taco e tenta adivinhar qual será o próximo carro que virá da esquina ("Fusca amarelo, fusca amarelo, eu dizia, rangendo os dentes, antes de abrir os olhos, desfazer a figa e provar a minha capacidade de gerar coincidências, lá da altura do sétimo andar").

Até que sua mãe cede o aposento para senhoras desocupadas e ela própria assistirem a aulas de história da arte; é o começo do fim: "a rua exigia silêncio e compenetração. Eu não conseguia adivinhar carros e observar meninos enquanto ouvia suspiros sobre a Madonna de Rafael ou as bailarinas de Degas". A mágica se desvanece aos poucos ("Talvez tenha se tornado difícil disfarçar a predominância dos erros"), até que um incidente trivial estraga de vez seu prazer.

Em “A Quinta Parede” o personagem é bem mais velho. Vive há anos no mesmo apartamento – de fundos. Dali ele pode observar tudo o que acontece no pátio e no estacionamento do prédio, "tomando cuidado para não me deter em ninguém em particular, o que poderia me levar a criar algum tipo de laço com estranhos". Se a solidão do garoto do outro conto parece involuntária, a desse homem é proposital. Ele até cria uma técnica para ir da sua porta até o elevador em momentos em que não haja ninguém no corredor. E toma cuidado com os mensalistas: "Podem sempre precisar de um favor. Se eu tivesse carro, iam querer carona ou, quem sabe, pediriam o macaco emprestado para trocar um pneu. Se vissem onde moro, poderiam vir pedir um pouco de açúcar, chá, café, arroz".

É como se entre os dois períodos tivesse ocorrido um grande desencanto, uma frustração, alguma situação em que a sociedade mostrara que esse mundo próprio e solitário que habitam é errado – ou seja, diferente do lugar-comum, do que as outras pessoas fazem. Ainda assim nunca estão infelizes. Há sincero prazer na moça que vende doces no shopping, na arrumadeira que faz arranjos românticos, na entregadora de panfletos que sonha em morar em um daqueles condomínios maravilhosos que ela vê todos os dias no papel ("Nos folhetos nunca chove (...) Viver num prédio desses deve ser parecido com voar").

Em “A Biblioteca”, uma moça, futura estudante de letras, ganha do pai uma estante vazia e um cheque em branco, para comprar os cem melhores livros que existem. "Os cem melhores, entendeu?". O conto é uma apologia à magia da leitura. A narradora muda a ordem dos livros nas estantes, inventando novas classificações o tempo todo – categorias como "sobre os raios do sol", "sobre o acaso", "injustiçados pela crítica" e "perfeição estilística". “Acapulco” é a história mais longa do livro. São duas narrativas paralelas, a do jovem que fica na casa dos avós enquanto os pais viajam e uma biografia de John Weissmuller, o mais famoso Tarzan.

Em um pequeno posfácio, Schwarcz destaca, desde as epígrafes (de Hemingway, Drummond e Marques Rebelo), que escrever é cortar. Pois bem, seu texto reflete essa filosofia. É uma prosa simples, livre de atavios e gorduras desnecessárias. O lirismo discreto, tímido como os personagens dos contos, impede que a simplicidade deixe o livro despersonalizado, coisa que não acontece, por exemplo, com Michel Laub.

No posfácio, ele informa ainda que chegou a escrever cem páginas de um romance. Delas, sobraram apenas vinte e duas linhas, que estão em “Livro de Memórias”. Seria interessante ver como Schwarcz se sairia em uma narrativa de maior fôlego. Por outro lado, seu estilo é tão "polaróidico", tão hábil em captar instantes curtos e intensos, que dá até dó cobrar que ele faça qualquer outra coisa.

Para ir além






Jonas Lopes
Florianópolis, 24/2/2006

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