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COLUNAS

Segunda-feira, 24/7/2006
A história do amor
Rafael Rodrigues
+ de 10500 Acessos
+ 2 Comentário(s)


Ilustra by Tartaruga Feliz

É interessante como nas artes, uma obra leva à outra. Na música é assim, quando ouvimos um grupo ou cantor(a) e procuramos saber quais foram suas influências. Ou no cinema, quando gostamos muito de um filme e procuramos saber quem foi o diretor, o roteirista, para poder assistir uma outra filmagem escrita ou dirigida por aqueles tais.

Na literatura isso também acontece. Sempre que posso, pesquiso autores citados pelo escritor do livro que estou lendo no momento. No caso de A história do amor (Companhia das Letras, 2006, 320 págs.), da americana Nicole Krauss, o que atiçou minha curiosidade foi o fato de ela ser esposa do também americano e escritor Jonathan Safran Foer, autor de Tudo se ilumina (Rocco, 2005, 368 págs), um excelente livro.

Depois de tê-lo lido, pensei: por que não ler também A história do amor? Não vi ninguém falando dele, mas fui no site da Companhia das Letras, li a sinopse, achei interessante, consegui o exemplar e pronto: lá estava eu, lendo o romance.

No começo a narrativa me pareceu um tanto quanto estranha. Mas depois de algumas páginas, a leitura prosseguiu sem nenhum obstáculo. Muito pelo contrário: à medida que ia avançando nas páginas, eu queria ler mais e mais, e ficava aborrecido quando precisava interromper a leitura por algum motivo. Mas enfim, vamos ao romance.

A história do amor é narrado por diferentes personagens que têm seus caminhos ligados, direta ou indiretamente, por um livro chamado justamente... A história do amor.

Ele foi escrito por Leopold Gursky, um jovem polonês de vinte anos de idade, como forma de declaração de amor à sua musa inspiradora, o amor de sua vida: Alma Meremski, com quem teve um curto relacionamento. Leopold precisou deixar a Polônia às pressas, devido aos nazistas estarem invadindo o país e dizimando os judeus (ele é um). Antes, deixou seu manuscrito aos cuidados de um amigo.

É Leopold Gursky (agora Leo Gursky) sessenta anos mais velho que inicia o romance de Nicole Krauss: “Quando escreverem meu obituário. Amanhã. Ou no dia seguinte. Vai estar escrito: ‘Leo Gursky deixou um apartamento cheio de m...’”.

Constantemente preocupado com sua morte, o velho e solitário polonês, que agora vive em Nova York, faz de tudo para chamar a atenção das pessoas aonde quer que vá: “Faço de tudo para ser visto. Às vezes, quando estou na rua, compro um suco mesmo sem estar com sede. Se a loja estiver cheia, sou capaz de derramar meus trocados no chão, espalhando os centavos por todo lado. E me ponho de joelhos. Ajoelhar. É para mim um grande esforço, e me erguer, um esforço ainda maior. E no entanto. Talvez eu pareça um idiota”.

Além disso, ele carrega consigo uma ficha com os dizeres: “Meu nome é Leo Gursky não tenho família por favor ligue para o cemitério Pinelawn tenho um terreno lá na parte judaica obrigado pela consideração”.

Outra narradora do romance é a jovem americana Alma Singer. “Quando nasci, minha mãe escolheu meu nome em homenagem a todas as garotas de um livro que meu pai havia dado (sic) a ela, intitulado A história do amor”.

Alma é uma garota introspectiva e muito curiosa. Em diversos trechos ela diz estar pesquisando algo ou ter feito uma pesquisa no Google. Ela tem quinze anos e vive com sua mãe, uma tradutora de livros, e seu irmão mais novo, apelidado de Bird. Seu pai falecera há cerca de oito anos, e sua mãe não superou o fato, apesar de aparentemente levar uma vida normal. Mas Alma sabe que, no fundo, sua mãe não está bem e tenta conseguir alguém para lhe fazer companhia e, quem sabe, minimizar a tristeza que a acompanha desde a morte do marido. Por coincidência, um editor europeu envia uma carta à Charlotte, mãe de Alma, propondo-lhe o seguinte trabalho: traduzir um livro de um “escritor pouco conhecido, Zvi Litvinoff, que fugiu da Polônia para o Chile em 1941 e cujo único trabalho publicado, escrito em Espanhol, se chama A história do amor”.

Alma lê a carta e tem a idéia de respondê-la como sendo sua mãe, “no final da carta eu acrescentaria alguma coisa no sentido de minha mãe ser solteira.” O que ela realmente faz, mas sem sucesso.

Curiosa que é, Alma passa a ler os capítulos de A história do amor, à medida que sua mãe os vai traduzindo. E inicia uma busca incessante pela mulher que “lhe deu” o nome.

Há uma terceira voz narrativa no livro, que pode ser o narrador onisciente (o que tudo sabe, tudo vê e pouco – ou nada – interfere) ou um crítico literário escrevendo sobre Zvi Litvinoff. Sua função (da voz) é de, aos poucos, esclarecer como o manuscrito, escrito por Leo Gursky sessenta anos antes, foi publicado por um escritor de mesma nacionalidade, anos depois, no Chile.

As tramas paralelas ainda contam com o primeiro beijo de Alma, o filho que Leo Gursky tem, mas nunca teve coragem de assumir, e as interessantes e engraçadas aventuras de Bird, que é o responsável pelo encontro de Alma e Leo no desfecho do livro.

Nicole Krauss ainda encontra espaço para citar Jorge Luis Borges e Julio Cortázar em seu romance. Admiradora da literatura latino-americana, ela declarou em uma entrevista a um site americano, que leu Budapeste, de Chico Buarque, e iria reler, de tão bom que achou. (Pra quem não gostou do romance do Chico, como eu, não julguem a moça por esse deslize...).

A história do amor é muito bem escrito, sem explicações ou reviravoltas mirabolantes. Cada voz narrativa tem sua própria linguagem, seu próprio “jeito de falar”. O que dá uma maior autenticidade aos escritos.

Nicole Krauss é uma das convidadas da FLIP (Festa Literária Internacional de Parati), que acontece em agosto, e virá acompanhada do marido, que também é um dos convidados.

Aliás, o primeiro romance de Jonathan, Tudo se ilumina, tem uma estrutura bem parecida com a de A história do amor, com mais de uma voz narrando o livro, além de ter como pano de fundo os terrores provocados pelos nazistas (tema explorado “mais a fundo” por Jonathan).

E aí fica a pergunta: será que Tudo se ilumina é o A história do amor de Nicole e Jonathan? Será que foi o romance dele que os “ligou”? Quem for à FLIP, faça essa “pergunta-de-tiete” a um dos dois, por favor. Eu agradeço.

Nota do Editor
Rafael Rodrigues é estudante de Letras e também publica no blog Entretantos.

Para ir além






Rafael Rodrigues
Feira de Santana, 24/7/2006

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COMENTÁRIO(S) DOS LEITORES
15/7/2006
15h17min
Nao li o livro da esposa. Mas pela sua descricao me parece que ela aderiu ao movimento de Princeton na literatura americana, com a ideia de personagens que revivem a historia de seus antepassados em um presente pos-moderno, sem referencias... A linguagem e os personagens costumam refletir isso... Por isso, acho mais plausivel que os livros sejam primos um do outro, e nao alguma respsota cuidadosa e trabalhada de um para outro... Eu prefiro o nosso casal de autores, que tiveram uma belissima historia de amor: Jorge Amado e Zelia Gattai. Dois autores muito bons por sinal.
[Leia outros Comentários de Ram]
13/9/2006
11h39min
O Safran Foer também gostou do Budapeste, aliás. hehe
[Leia outros Comentários de Jonas]
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