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COLUNAS

Terça-feira, 1/8/2006
Será que livro é lugar de crônica?
Marcelo Spalding

+ de 3600 Acessos
+ 7 Comentário(s)

Ela está todos os dias em nossos jornais, invadiu a rede a partir dos blogs, transforma jornalista em artista e jornalismo em literatura: eis uma definição de crônica entre tantas possíveis. Gênero dos mais polêmicos, a crônica é ao mesmo tempo berço de grandes nomes como Machado de Assis e arena de gladiadores verbais como Roberto de Campos.

Em minhas oficinas, quando preciso diferenciar a crônica do conto (ou de uma narrativa ficcional), costumo lembrar que na crônica o narrador e o autor devem ser a mesma pessoa, que a crônica deve refletir algo da realidade e encerra uma opinião. Necessariamente, portanto, é datada, diferentemente do que costumamos chamar de literatura, e por isso mesmo não é comum vermos livros de crônica bem sucedidos, a não ser que compilem as crônicas de um conhecido jornalista contemporâneo (Jabor, LFV), mas aí vende pelo autor, não pelo gênero. Muito mais raro é vermos um importante prêmio literário concedido a um cronista em detrimento a um romancista, contista ou poeta.

Esse preconceito dos literatos para com a crônica não impede que alguns cronistas rompam a efemeridade jornalística e tornem-se escritores mais ou menos respeitados, especialmente a partir da mudança do jornalismo político para o empresarial. É o caso de João do Rio, o pioneiro, mas também de vários da geração seguinte, como Millôr Fernandes, Fausto Wolff e Antônio Maria.

Antônio Maria d´Albuquerque de Moraes (“Zé Maria, para os íntimos”) foi cronista dos mais originais e compositor de algumas das músicas mais tristes e bonitas do cancioneiro brasileiro, como “Ninguém me ama”. Nascido em 1921 no Pernambuco, criou programas de rádio, trabalhou na televisão, produziu esquetes para teatro e escreveu quase três mil crônicas que exploravam um lado oposto ao do compositor, o riso. E é este lado que Joaquim Ferreira dos Santos procura resgatar em Seja feliz e faça os outros felizes (Civilização Brasileira, R$ 22,90, 112 págs.). Joaquim, também jornalista, selecionou 34 crônicas escritas para jornais garimpando coleções de O Globo, Última Hora e O Jornal entre 1955 e 1964, ano da morte do cronista.

Pela diagramação já percebemos que os editores também se perguntaram se livro é lugar de crônica: há um cabeçalho trabalhado em cada página, letra capitular no começo dos capítulos e o desenho de um homem lendo jornal ao lado dos títulos, além da reprodução de páginas de jornal. Também a apresentação do livro tem este objetivo de transportar o leitor para o mundo das redações barulhentas em que Maria trabalhava num Rio de Janeiro há muito perdido. Mas são os próprios textos que nos remetem ao passado – e este é o ponto forte do livro –, não pela linguagem, que é desembolorada e clara, mas pela visão de mundo de um homem que viveu num mundo já meio século distante do nosso: “você fez mal, José, quando se casou com uma mulher feia”, escreve Antônio Maria na crônica que abre esta antologia, “diz um escritor francês que nós, homens, devemos desposar mulheres muito bonitas, porque só assim, um dia, nos veremos livres delas”.

Num sentido inverso, é impressionante que desde àquela época temas como mendicância, crise financeira e dólar alto já estivessem em pauta, nos levando a perguntar o que fizemos com nosso país ao longo destes cinqüenta anos. Apenas para ilustrar, veja se estas “Frases para dezembro” não poderiam estar nos jornais do fim do ano passado: “Eu espero que o ano que vem seja um pouquinho melhor”, “Nunca houve um ano tão ruim para negócios”, “Minha filha, com a vida pelo preço que está, nós não vamos fazer nada”, “Mas, hoje em dia, qual é a diferença que existe entre o champanhe nacional e o francês”, “Você acha que, com as coisas como estão, este Governo agüenta até o fim do ano?”.

Provavelmente você agora quer saber a que dezembro estas frases se referem, mas curiosamente a data de publicação não é mencionada em lugar nenhum, tampouco o jornal e o local onde o texto foi publicado, o que só podemos atribuir a um descuido da edição que, se não compromete, empobrece o ponto forte do livro, qual seja a competência que Antônio Maria tem de suscitar saudade mesmo em quem não viveu seu tempo, um tempo em que os melhores escritores eram impressos nas páginas mal cheirosas dos jornais, um tempo anterior aos blogs, à ditadura militar e à ditadura do mercado.

Seja feliz e faça os outros felizes, bem como outros livros de Antônio Maria lançados pela Civilização Brasileira, ainda tem outras duas funções importantes. A primeira é mostrar aos novos “escritores” e blogueiros que escrever crônica só parece simples, pois requer originalidade, talento e criatividade para lidar com temas cotidianos sem torná-los corriqueiros. A outra função é fazer eco à personagem que Maria se tornou ao longo do tempo, personagem de histórias folclóricas repetidas ainda hoje por gente como Millôr, Cony e Wolff. Uma delas, contada por Fausto Wolff, em A Milésima Segunda Noite, merece ser reproduzida aqui e fica como fecho da metade cômica do cronista Antônio Maria:

“(...)Um dia, Maria teve de viajar para São Paulo e numa reunião social encontrou uma mulher realmente deslumbrante que se deslumbrou com sua verve. Ambos haviam bebido um pouco demais e, quando a mulher perguntou-lhe o nome, não titubeou:

"– Carlos Heitor Cony

"Cony era realmente muito conhecido e admirado em São Paulo por causa dos seus excelentes romances e a mulher que já parara na de Maria ficou ainda mais excitada.

"Não sabemos se por culpa ou bebedeira, no quarto do hotel, Maria não deu conta do recado. Voltou para o Rio, e, ao encontrar-se com Cony alguns dias depois, no Lidador, lhe informou:

"– Broxaste em São Paulo.”


Para ir além






Marcelo Spalding
Porto Alegre, 1/8/2006

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COMENTÁRIO(S) DOS LEITORES
19/7/2006
13h26min
Bacana, Marcelo, mas acho que as crônicas só estão no lugar errado quando são mal editadas, entende? Se são bem-escolhidas, pega-se a coletânea das menos datadas e tal. Isso, sim. Acho que o barato das crônicas é, justamente, elas não terem lugar fixo, caretice, formato adequado, etc. Abraço
[Leia outros Comentários de Ana Elisa Ribeiro]
30/7/2006
21h00min
O livro é muito bom, recomendo a qualquer um. Agora, sobre o lance das datas, acho que isso não foi descuido, e sim uma opção da editora. As crônicas do Fernando Sabino também não vêm datadas. As do LFV não. E, no fim das contas, a data não influi muito. Quando o cronista é bom mesmo, como é o caso do Antônio Maria, as datas são dispensáveis.
[Leia outros Comentários de Rafael Rodrigues]
1/8/2006
15h50min
Caro amigo, a crônica serve e muito a nós historiadores. Quando inicio qualquer trabalho de História, sobre um determinado período, recorro às crônicas, pois elas apresentam detalhes que, às vezes, passam sem a percepção do ser humano comum, e é preciso encontrar a fala dos homens, na arquitetura, na beleza das ruas, num beijo de namorado no jardim, até nas prostitutas como elas se comportavam... Os crônistas não guardam temores ou pudores, e a crônica revela fatos e contextos que às vezes é preciso reler na História e recontar, com um recorte social, diferente dos textos de punho de renda, que geralmente existem no mercado editorial. Gosto da crônica nesse sentido, e já escrevi algumas em livros, e até gravei em discos, pena que o mercado da informação tenha serias dificuldades em colocar em pauta tudo o que acontece.
[Leia outros Comentários de Manoel Messias]
3/8/2006
09h01min
Pelo potencial que têm em retratar o cotidiano e arquivar em papel (ou blogue) o momento histórico, as crônicas já merecem compôr os livros. Ainda que precisem ficar quiescentes ali...
[Leia outros Comentários de José Marcos Resende]
4/8/2006
15h32min
Acho que os livros são lugar de crônicas, sim. Tenho vários livros de crônicas, e nada melhor do que passar domingos a ler Fernando Sabino, por exemplo, revisitando crônicas antigas, vivendo um outro cotidiano. Não é simples fazer crônica. Me meto a cronista num blog e num site e sei como é difícil fechar uma idéia interessante de ler no mundo que é hoje o da internet e da informação.
[Leia outros Comentários de Cristina Carneiro]
10/8/2006
16h24min
Legal o artigo. Faço Jornalismo na Universidade Federal de Alagoas e, nos últimos dias, o nosso professor de jornalismo opinativo não conseguiu transmitir a verdadeira essência de uma crônica. A turma era desinteressada, a maioria dos estudantes não tinham costume de lê-las. Como sou adepto deste gênero sempre levei textos pra ele se situar um pouco mais sobre o tema. (E vou levar este texto também.) Mas após o conhecimento de alguns bons cronistas, o que sevê é que todos os alunos estão tendo uma ótima produção. Mostrando que a crônica pode assumir múltiplas facetas sem perder suas carcterístíticas de transmitir o cotidiano. Foi a primeira vez que vi todos participarem empolgadamanete da producão de textos. Salve a crônica. Pois é o canal para a liberdade dos jornalistas e o que pode salvar e diferenciar todos os meios de comunicação. (Não só os blogs.)
[Leia outros Comentários de Jhonathan Wilker]
23/9/2006
15h50min
Ótima dica o livro do José Maria. A crônica é um vício. Quando a gente gosta do modo de escrever de algum cronista, assumimos uma parceria com ele. Não consigo parar de ler David Coimbra, Paulo Santana, Luis Fernando Verissimo e tantos outros. Basta acontecer algo diferente e já fico curiosa para saber se eles vão comentar e de que forma. Para não perdê-las, melhor colocar em livros.
[Leia outros Comentários de Ana Mello]
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