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COLUNAS

Sexta-feira, 1/9/2006
Flip 2006: um balanço tardio
Julio Daio Borges
+ de 1800 Acessos
+ 1 Comentário(s)


A famosa "Ponte da Amizade" da Flip

Eventos literários, em geral, são chatos e previsíveis. Como disse Villa-Matas, troféu “mau humor” da Flip 2005, se um escritor preferisse falar, ele não escolheria escrever. Aqui no Brasil, eventos literários às vezes servem aos escritores apenas para desfilar aquele conhecido rosário de lamentações: contra o governo (antes, era “a favor”); contra a sociedade (iletrada, lógico); contra a crítica (nunca suficientemente inclusiva); contra os editores (ou nem sempre; depende...); contra os livreiros (o “problema da distribuição”); e até contra o público (aliás, que público?).

A Flip é diferente, eu sempre digo, porque, milagrosamente, não tem nada disso: ninguém discutindo “políticas públicas” para elevar o índice de leitura no Brasil; ninguém lançando “movimentos” para salvar o escritor brasileiro da própria indigência; ninguém atacando a imprensa e suas resenhas insípidas (já que, na era do blog, todo mundo pode fazer mídia: “Não gostou? Faça a sua!”); ninguém falando que os editores não dão “chance” (porque, não raro, estão todos lá – para ver e ouvir...); ninguém com muita coragem para enfrentar o público (afinal, os ingressos foram tão difíceis de conseguir...); e ninguém chorando pela falta de reconhecimento da crítica (aliás, que crítica?).

Não que a Flip não tenha defeitos; tem vários. E não que a Flip esteja livre de gente oportunista sem nenhuma ligação com a verdadeira literatura. Como quase tudo em nossa “sociedade de espetáculo”, a Flip tem de, anualmente, sobreviver, atrair mídia, basicamente movimentar a cena e pagar suas contas. Então, como quase tudo no Brasil, a Flip se equilibra entre o sério e o clownesco. Chama, portanto, autores seriíssimos (com os dois “is”) e, ao mesmo tempo, convoca autênticos animadores de auditório (“o povo quer saber”) – porque o brasileiro não é de ferro (nem de livro), tem de rir um pouco de si e da eterna “crise”...

E eu exploro as contradições da Flip desde a primeira edição a que compareci (a de 2004). E, ano a ano, segundo o meu balanço, essas contradições só vêm aumentando... Por isso, a Flip é sempre interessante – as conclusões, sobre o evento, são falhas (todas) e a cobertura insuficiente (para quem foi e leu depois). Neste ano, eu me atirei com unhas e dentes na cobertura – assim as conclusões, agora, ficam um pouco mais “fáceis” (eu não preciso recapitular mesas inteiras, com acontecimentos que já envelheceram e perderam totalmente o interesse).

A primeira e inegável contradição anual é a do público. Como tanta gente (12 mil pessoas, segundo o último censo) se interessa por literatura? Ninguém se interessa por literatura. Todo mundo se interessa por Parati, pelas praias maravilhosas, pelas “ruas sem calçamento”, pelos restaurantes chiques, pelas pousadas charmosas, pelos bons shows (em 2006, Yamandú Costa e Marcos Valle), pelas pessoas que lá encontram (ou pelas mulheres que lá encontram), e, eventualmente, por alguma literatura, sim. Por palestras de que possam guardar alguma frase (“Eu não quero ter razão: eu quero é ser feliz!”, Ferreira Gullar) e até, quem sabe, por alguns escritores esdrúxulos.


A mítica Tenda dos Autores (do outro lado do rio)

Outra das contradições, que eu (a)notei só nesta edição, é que sempre perguntam aos escritores participantes sobre o imponderável – “quem é, como é, para onde vai” – e como eles ficam, logicamente, sem resposta, saem, de improviso, as melhores coisas (e, às vezes, as piores também). Como quando perguntaram ao Jonathan Safran Foer se ele sentia “saudades” de seus personagens; ele respondeu que os personagens, em seus romances, são meros veículos para suas idéias (dele, Jonathan) e que “sentir saudades deles” seria como sentir saudades daquele microfone depois da palestra...

Uma terceira contradição – esta talvez remonte à própria organização (opa, rimou) – é a mistura explosiva entre literatura e política. No ano passado, explodiu com o Arnaldo Jabor que, à época, não se conformava com os dólares na cueca daquele sujeito... E que terminou vaiado pelos intelectuais da USP (os do “silêncio”), que foram prestigiar, em 2005, o Roberto Schwarz. Neste ano, explodiu na mesa Hitchens-Gabeira, em que um escritor que não acredita, literalmente, em Deus se revelou um utopista apaixonado, e em que um ex-terrorista que seqüestrou e arriscou freqüentemente a própria pele se revelou o mais cético e lúcido da discussão. Jonathan Safran Foer definiu, mais uma vez, essa contradição da Festa: era simplesmente uma pena que todo mundo parasse para discutir literatura e, no final das contas, não conseguisse escapar das guerras, do noticiário, da CNN, da política enfim. Eu entendo o que ele quis dizer, mas também entendo – conforme a organização da Flip; e conforme o Diogo Mainardi, muito provavelmente – que literatura não sobrevive mais sem polêmica.

Uma próxima contradição, por aproximação (opa, rimou de novo), envolve, naturalmente, a mídia. É histórico já: os jornalistas, os que escrevem principalmente, se sentem preteridos (e alguns até desrespeitados) na Flip. A primeira reação é a seguinte: “Pra que tudo isso? Grande m... Eu também escrevo!”. É mais evidente nos marinheiros de primeira viagem. Em 2004, vi um editor de cultura e um bom blogueiro, no final, fazendo caretas. E agora, em 2006, ouvi lamúrias de outro homem de cultura e li, na volta, as reclamações de outro bom blogueiro. Eu entendo perfeitamente porque também já me revoltei (e reclamei). Eu, brasileiro, confesso “minha culpa, meu pecado”: ninguém agüenta assistir, por muito tempo, a palestra de um colega de pena – essa é que é a verdade –, então procura defeitos no evento inteiro. “A Flip é isso, a Flip é aquilo... A Flip é injusta (na seleção), a Flip não dá condições de trabalho (ao profissional do jornalismo)...” Depois de três Flips, eu posso garantir: o povo da Flip começa a te respeitar, você fica amigo da organização (que é simpaticíssima, depois que você ultrapassa os leões-de-chácara) – em resumo, a revolta passa e você se integra.

A última contradição é, justamente, fruto dessa confusão (proposital, acredito) entre “ator” e “espectador”. O André Laurentino ilustrou bem com seu exemplo: participou da oficina de textos da Flip 2004; caiu nas graças de um editor no mesmo ano; teve um trecho de seu romance (na época, no prelo) analisado na oficina de 2005; e, em 2006, estava numa mesa, como convidado, discutindo com outros dois autores. “Acredite, é possível” – ele parecia exalar por todos os poros... Particularmente, acho essa mensagem um tanto quanto perigosa. Literatura: todo mundo pode? Eu penso que não. Subliminarmente, os idealizadores da Flip, e os seus apoiadores do mercado editorial, parecem acreditar que quanto mais se vender a idéia da literatura como uma coisa normal, limpa e até perfumada – para “pessoas como nós” (“gente do nosso nível”), mais aspirantes vão freqüentar a Festa, mais livros vão se vender, mais os verdadeiros escritores sairão fortalecidos do processo.

É apenas questão de tempo até que a tecnologia para a produção do livro esteja barateada ao extremo, e democratizada, como o foram, similarmente, a tecnologia para a publicação na imprensa (não a impressa; em internet), a para produzir (e distribuir) música ou para, em alguns instantes, realizar cinema (opa, já está acontecendo...). Pessoalmente, eu achava que o mercado editorial iria passar incólume – como está, por enquanto, passando – ao advento da World Wide Web. Mas não vai (até para o “problema da distribuição” os revolucionários encontrarão uma saída). Nesse contexto, a dessacralização do ato de escrever, durante a Flip, só está fornecendo munição para o “faça você mesmo” (do it yourself), como muitas edições de fundo de quintal – para as quais ninguém encontrou a fórmula ainda (Livros do Mal, Candide, ...?), mas, no futuro, vai encontrar. Como eu disse, é apenas questão de tempo. Nesse cenário, os editores da Flip, ao dizer nas entrelinhas que “qualquer um pode ser escritor”, estão comprando (como a burguesia) a corda para se enforcar... Ou não. De brinde, esta derradeira contradição!


A Carol e eu, highlanders da Flip

Para ir além
Leia as minhas anotações, a quente, produzidas durante a Flip 2006.

Nota do Editor
Todas as fotos são de autoria de Julio Daio Borges e Ana Carolina Albuquerque (exceto pela última, de autoria de um freqüentador simpático da Flip 2006).


Julio Daio Borges
São Paulo, 1/9/2006

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COMENTÁRIO(S) DOS LEITORES
2/9/2006
17h52min
A literatura talvez seja capaz de resistir à vulgarização como não o fizeram a música popular e as chamadas artes plásticas (pintura). O cinema provavelmente caminha nessa direção; tudo, na verdade, está passando pelo processo que se resume na idéia: qualquer um pode fazer isso. Ou: a arte está em todo mundo. Essa idéia tem um fundo de verdade, mas que não passa disso: uma rapa de panela. Em literatura existem outros fatores não solúveis na massificação geral. Um deles é o ato de pensar, não democrático em si. Outro fator é que literatura é refratária à adoção de técnicas visando produzi-la. As chamadas "oficinas de texto" (ou algo assim) beiram o ridículo. Outro fator é que literatura é um sacerdócio exercido em regime de clausura, avesso aos holofotes em geral. Outro fator é que escritores escrevem, imunes a qualquer notícia, mesmo que esta seja a notícia da "morte da literatura". E essa notícia tem se avolumado ultimamente, mas passará como uma onda.
[Leia outros Comentários de Guga Schultze]
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