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COLUNAS

Quarta-feira, 15/11/2006
G3
Rafael Fernandes
+ de 1200 Acessos
+ 2 Comentário(s)

Todo texto é pessoal. Mas este será ainda mais personalista. Não chegará a uma confissão, mas seu conteúdo será reflexo do amor deste que vos escreve pela guitarra – mais precisamente a guitarra no rock. Sou um devoto admirador de seus guitar heroes (literalmente os "heróis da guitarra", expressão que agora virou nome de jogo de videogame) desde sempre – de Hendrix aos "fritadores" dos anos 80, aos nomes atuais. Portanto, aqui vai um aviso: se você odeia a auto-indulgência dos guitarristas e seus solos pirotécnicos, este não é seu texto. Se você odeia rock este não é seu texto. E mais: se você acredita que o Jack White do White Stripes é um virtuose do instrumento (eu já li isso...), fuja deste texto e vá ler a NME.

Este não será um texto especificamente sobre guitarra rock, mas sobre um show do G3, um projeto criado por Joe Satriani para juntar três guitarristas (Satch é sempre um deles) num show conjunto, em que cada um faz uma apresentação solo de cerca de uma hora e no final todos se juntam para uma jam. O pontapé inicial deu-se me 1996, quando Satriani se juntou ao seu ex-pupilo Steve Vai e a Eric Johnson. A coisa deu tão certo que o projeto continua firme e forte até hoje, sempre com apresentações a cada dois anos, aproximadamente. Já passaram pela formação, além dos já citados, Kenny Wayne Shepherd, Robert Fripp, John Petrucci, Yngwie Malmsteen (numa formação histórica com Vai e Satriani, reunindo o triunvirato da guitarra oitentista num só show), Adrian Legg, Michael Schenker e Uli Jon Roth. Já viraram CD/DVD as formações de 1996 (Satriani, Vai, Johnson), 2003 (Satriani, Vai, Malmsteen) e 2004 (Satriani, Vai e Petrucci). Esse projeto já veio ao Brasil em 2004 com Satriani, Vai e Fripp e retornou há algumas semanas, com Joe Satriani, John Petrucci e Eric Johnson, que fizeram apresentações fantásticas e mostraram características bastante diferentes entre si. No primeiro dia dos shows o Credicard Hall não esteve lotado, mas chegou muito perto disso. O público era composto basicamente de homens de 20 a 40 anos; algumas poucas mulheres, em geral acompanhando seus namorados ou maridos – gostaria de saber qual foi a tática de convencimento deles para levá-las para ver e ouvir quatro horas – quase ininterruptas – de guitarras. Que poder de persuasão! Brincadeiras à parte e antes de voltar ao show em si, é preciso fazer algumas observações sobre o "mundo das guitarras" no Brasil.

Acho incrível como esse mercado se ajeitou em seu nicho, que começou a ganhar mais consistência há cerca de 10 anos, quando uma série de fatores ajudou o seu crescimento: guitarristas internacionais começaram a vir com maior freqüência para o país; novos ídolos da guitarra brasileira (particularmente no rock) surgiram, como Edu Ardanuy, Kiko Loureiro, Rafael Bittencourt, Frank Solari, Sérgio Buss, entre outros; revistas de qualidade surgiram (a Guitar Player lançou versão brasileira e foi criada aqui a Cover Guitarra); algumas escolas de música ganharam força (como o Conservatório Souza Lima) e novas surgiram (o IG&T foi inaugurado em 1997, para depois virar EM&T); a abertura comercial do início dos anos 90 começou a surtir efeito e, aliada ao câmbio estável de meados da década, impulsionou o mercado de instrumentos e acessórios, com grande variedade de opções importadas (para todos os bolsos) e levando a melhora significativa da indústria nacional; a tecnologia (internet basicamente) ampliou o acesso a informações. Não à toa, como dito acima, o show do G3 teve grande público, apenas com anúncios em revistas especializadas, alguns anúncios em jornal e artigos pequenos nos grandes jornais apenas na véspera dos shows. Se levarmos em conta que qualquer nova banda internacional "muderna" que enche uma casa de espetáculos de médio porte por aqui é exaltada como "fenômeno" por parte mídia (quase sempre se referindo às apresentações como "catárticas"), é significativo que os guitarristas continuem a encher seus shows por aqui sem grande alarde.

De volta ao G3, a apresentação começou com Eric Johnson, acompanhado de uma banda "só" com baixo e bateria (Roscoe Beck e Tommy Taylor, respectivamente) – e fizeram um sonzaço! Johnson tem um belíssimo timbre, bem característico, uma sonoridade única, doce, em contraponto a sua execução que por vezes "come" algumas notas – não é erro, é estilo de tocar, com uma displicência quase estudada; gosta de usar acordes que acompanhem as melodias. Ele é uma espécie de anti-rockstar: toca torto, meio desengonçado, sem pose. Sua música é uma espécie de fusion, com influência de Steve Ray Vaughan e Jimi Hendrix e com melodias "cantáveis", com ecos de pop – uma combinação bastante interessante que resulta num som encorpado, mas ao mesmo tempo com um sabor adocicado. Abriu o show com a ótima "Summer jam" de seu disco Bloom. Entre outras tantas boas músicas, tocou dois de seus clássicos, "SRV" e "Manhattan", que são excelentes mostras de seu som, e encerrou com "Cliffs of Dover".

John Petrucci veio em seguida como um contraponto: um som pesadíssimo, cortante, altamente influenciado pelo metal e com uma execução precisa, quase sem erros. Acompanhado de seu companheiro de Dream Theater, Mike Portnoy, na bateria e o lendário Dave La Rue no baixo, tocou músicas de seu primeiro e único disco solo: Suspended Animation. Os pontos baixos de seu show foram as baladas "Curve" e "Lost without you" que em alguns momentos chegam a ser bregas; aliás, muitos guitarristas do rock têm enorme dificuldade de fazerem baladas sem soarem bregas. Por outro lado, quando "pegou pesado" em músicas cheias de riffs e licks se deu mais do que bem, como "Jaws of life", "Glasgow kiss" e "Damage control", que encerrou outra excelente apresentação.

Fechando a noite, antes da tradicional jam, veio Joe Satriani – que entrou com o jogo ganho. Ele é um cara cool, com um carisma low-profile (em contraponto à farofice intencional e divertida de Steve Vai, por exemplo); é certamente um dos grandes ícones de uma linha de guitar heroes iniciada nos anos 80 pós-Van Halen (junto com Steve Vai e Yngwie Malmsteen, mas com a diferença de vir lançando apenas discos instrumentais enquanto, por exemplo, Malmsteen lança discos com vocais) e tem um estilo musical que influencia milhares de guitarristas até hoje. Satriani também tem um estilo de tocar característico e suas músicas são construídas, em geral, com estrutura do pop, com espaços distintos para "parte A", "parte B", "pontes", refrões e solos – talvez por isso seja um dos que mais agrade a "não-guitarristas" ou aos que estão se iniciando nessa seara; já a sonoridade é bastante influênciada por Hendrix, blues e Eddie Van Halen (two-hands tapping, alavancadas, etc.).

Seu show começou com a clássica e climática "Flying in a blue dream" (do disco homônimo), seguida da excelente "The extremist" (também de um álbum homônimo). De seu último disco, Super Colossal foram tocadas a faixa-título (uma candidata a novo clássico), as boas "Redshift riders" e "Just like lightnin'" e a divertida "Crowd chant", com interação da banda com o público. Ainda sobrou espaço para mais clássicos: "Satch boogie", originalmente gravado no seu grande clássico disco Surfing with the alien, a sensacional e swingada "Cool Nº 9", "Summer song" (famosa por ter sido vinheta do Vídeo Show, da TV Globo, por muitos anos). Encerrando veio "Always with me, always with you" (famosa por ter sido trilha de comercial de uma marca de cigarro) que contou com um final especial, em que os dois outros guitarristas entraram no palco para finalizá-la; em seguida iniciaram a jam, na qual os três tocaram "Voodoo child (Slight return)" e "Red house" (de Jimi Hendrix, cantadas por Eric Johnson) e "Rockin' in the free world" (clássico de Neil Young, cantado por Joe Satriani). Três grandes canções que serviram de base para a chuva de licks, escalas, bends, alavancadas e fritações desses três fantásticos guitarristas: Joe Satriani, Eric Johnson e John Petrucci, provando que a guitarra rock bem tocada está viva, e muito.


Rafael Fernandes
São Paulo, 15/11/2006

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COMENTÁRIO(S) DOS LEITORES
14/11/2006
20h51min
Olá Rafael, eu tb sou um apreciador de guitar heroes e fui no G3 de 2004, onde só foi possivel ver Satriani e Vai. O Robert Fripp confirmou sua fama de freak e se escondeu nao só da plateia mas tb. nas musicas. Particularmente, sou fã da maioria dos guitarristas q já passaram pelo G3, mas confesso q um show desses chega a ser cansativo. No final já não agüento mais tanta demolição. Fora isso, o Satriani é um gênio, sem dúvida, e foi mto. feliz em apostar nesse projeto. Fiquei feliz com a volta do Eric Johnson pois é um cara "não-guitar-heroe" e faz contraponto aos outros. Agora, é inevitavel almejar q Eddie Van Halen possa ser um eventual participante, pois foi o precursor de mto do q guitarristas fazem no dias de hj e o proprio VH está parado há um bom tempo (correm boatos d q eles voltarao ano q vem)... Enfim é esperar pra ver, se vai dar certo, e se algum dia o Eddie fará parte do G3. Se o Yngwie Malmsteen e seu enorme ego conseguiram, o Eddie tb consegue.
[Leia outros Comentários de Diogo Salles]
14/11/2006
21h22min
Rafael, gostei mt da sua resenha. Poucas vezes vi um review tão completo e que falasse da emoção que foi um show. Infelizmente eu não fui ao show, embora adore esse mundo de guitarras, rock, heavy metal. (Odiei a brincadeira sobre as poucas mulheres, pq eu iria feliz ao show e ficaria as 4 horas tomando cerveja e viajando no som.) Achei mt interessante o Digestivo ceder espaço pro rock, mesmo q seja para um virtuose; acho q tem mt coisa boa q não é apenas modismo ou revolta. Rock, metal tb é culura, ora. Parabéns. Continue a falar sobre outros shows de rock, pq se formos depender da imprensa especializada para ler textos de qualidade...
[Leia outros Comentários de Camila Martucheli]
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