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COLUNAS

Quarta-feira, 29/11/2006
Escândalo na cidade cinzenta
Tais Laporta
+ de 1600 Acessos

Uma rara mulher de meia idade. Serva do prazer e indiferente ao furor social. Esse é o perfil da instigante personagem do segundo romance escrito pela jornalista inglesa Zoë Heller, Anotações sobre um escândalo (Record, 2006, 315 págs.). Finalista do Booker Prize em 2003 e prestes a ganhar uma adaptação para o cinema, o livro narra o envolvimento amoroso da professora de artes Sheba Hart, 42 anos, com um aluno de 15, Steven Conolly. Ou, como os ingleses preferirem, um caso de exploração sexual.

Casada e mãe de dois filhos, a protagonista é, desde o princípio, a aparente mulher exemplar, em quem ninguém ousa apontar defeitos. Conolly, por sua vez, é o típico garoto londrino proveniente das classes operárias em pleno despontar da adolescência. A relação entre os dois não passaria de um mero contato formal aluno-professor, não fosse a atração irresistível que ambos sentiram mutuamente logo que se viram, na escola.

Longe de olhares humanos – na sala de aula, nos parques obscuros de Londres e até na garagem de casa – os dois passam a participar de intensos encontros amorosos. Quem narra o enredo é uma mulher solitária de 61 anos, Barbara Covett, amiga de Sheba e a única que oficialmente fica a seu lado quando o caso vem a público. Apesar de nutrir uma crescente admiração por Sheba, a narradora também não esconde um leve sorriso de escárnio quando os tablóides ingleses destroem sua reputação.

Antes de escrever, Zoë Heller havia notado que fenômenos profundamente interessantes acometem a sociedade quando certos escândalos saem debaixo do tapete. Barbara é o reflexo dessa reação em cadeia. A cinzenta Londres nunca esteve tão colorida quando descobriu o relacionamento ilícito da professora. Nutria um prazer imenso em massacrá-la por ter “abusado de uma criança”. O interessante é que – um clichê necessário – qualquer semelhança com a realidade não é mera coincidência.

Anotações sobre um escândalo foi inspirado em um caso verídico que mobilizou a opinião pública nos Estados Unidos em 1997. A professora Mary Kay LeTourneau, de 34 anos, foi condenada a sete de prisão por ter se relacionado sexualmente com um aluno de doze, Vili Fualaau, de quem engravidou. Na época, era casada e mãe de quatro filhos. Depois de cumprir a pena em reclusão, ela se casou com Fualaau, com quem teve mais uma filha.

O caso, como lembra Zoë Heller, lança dúvidas sobre o costume de classificar as fases da vida por faixas de idade. Segundo a autora, esse padrão polêmico colocaria pessoas de diferentes origens e natureza física em um mesmo grupo. A verdade é que, embora a ciência não explique exatamente quando uma criança deixa de ser criança, a sociedade estabeleceu um limite para a transição da infância para a adolescência. Tanto que, aos dezesseis anos, uma pessoa já pode dirigir automóveis nos EUA. No Brasil, pode até votar. Ainda vigora, no Nordeste brasileiro, a tradição de meninas constituírem família aos treze anos de idade. Na Inglaterra, contudo, uma pessoa de quinze anos ainda é chamada de criança.

Conolly era rebelde e imaturo, traço comum aos garotos de sua idade. Mas já sabia bem o que era desejo sexual, tanto que não escondia a atração pela professora. Por outro lado, Sheba reconheceu no garoto uma beleza diferente, própria de uma pessoa extremamente jovem. Descrevia o fascínio por sua pele lisa e pela leveza do seu corpo, típica da adolescência. Mas também sabia que despontavam nele traços discretos da masculinidade: pêlos nos braços, costas largas e voz grave. Assim, uma vaidade juvenil despertou tardiamente na professora.

O limite entre desejo e amor se confunde, no romance, com a instabilidade dos próprios personagens. A certa altura, Sheba teme a possibilidade de Conolly apaixonar-se por uma garota de sua idade. Tanto que, no auge desse desespero, a protagonista parece enlouquecer quando o garoto demonstra um perceptível desinteresse pela relação. Foi nesse clima que Heller ambientou o universo psicológico dos personagens, com rara profundidade. Ainda que com linguagem de best-seller, porém extremamente inteligente, a autora foi colocada pela crítica inglesa no patamar dos melhores romancistas britânicos, ao lado de Ian McEwan e Martin Amis.

Ao escolher um terceiro olhar na narração – o de Barbara – a escritora possibilitou defrontar o leitor com seu próprio espelho. A narradora – que muitos interpretam como autora de um desejo lésbico enrustido – ao mesmo tempo em que condena, não deixa de defender Sheba contra as afrontas da sociedade. “Todos dizem que ela cometeu um crime ‘desprezível’. Mas por trás eles estão rindo. Uma noite destas fui a um pub comprar cigarros e o rosto de Sheba apareceu por alguns segundos na televisão; imediatamente, gargalhadas maliciosas encheram o bar. ‘Mulher safada’, eu ouvi um homem dizer ao amigo. ‘Bem que eu queria estar no lugar do garoto’. É difícil imaginar que Sheba provocasse a mesma reação se fosse um homem”.

A temática do amor entre pessoas de idades diferentes não é novidade na literatura contemporânea. Em O animal agonizante, do americano Philip Roth, um velho professor universitário, David Kapesh, coleciona um grande número de alunas (parceiras sexuais) ao longo da carreira acadêmica, até apaixonar-se por uma delas, a cubana Consuela Castillo. “Logo na primeira aula descubro quase imediatamente qual daquelas garotas é minha. Mark Twain tem uma história em que ele foge de um touro e sobe numa árvore, e o touro olha para ele e pensa: ‘O senhor é minha refeição’. Pois bem, leia-se a ‘senhorita’ em vez de ‘o senhor’, e é isso que eu penso quando vejo as garotas na sala de aula”, narra nas primeiras páginas. A diferença entre os romances de Heller e Roth é que um deles trata de um escândalo social – o outro, não.

É inevitável a comparação, uma vez que ambos utilizam uma abordagem extremamente próxima – salvo a inversão dos sexos no papel do “predador”. A personagem de Heller, Barbara, vai a fundo nessa análise. “Quando um lascivo homem de meia idade lança olhares cobiçosos para o traseiro de uma adolescente, nós não somos encorajados a acreditar que ele está contribuindo para a preservação da espécie (...)? Uma mulher que molesta um menor não apresenta um sintoma de uma tendência inata. Ela é uma aberração. As pessoas não se vêem ali, nem vêem refletidos nela seus desejos furtivos. Segundo a ciência evolutiva, Sheba não passa de uma excêntrica parada no acostamento da grande estrada da sobrevivência humana. É por isso que os homens podem rir dela nos pubs”.

A escritora inglesa optou por uma abordagem que atrai certamente os olhares mais diversos: o curioso, o conservador, o feminista e o indeciso. Quanto ao objetivo fundamental da obra, prevalece a exposição sobre o julgamento. Mas alguma coisa, de todo modo, o romance quis provocar – um escândalo? Quem sabe.

Para ir além






Tais Laporta
São Paulo, 29/11/2006

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