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COLUNAS >>> Especial Melhores de 2006

Terça-feira, 26/12/2006
O melhor do jazz em 2006
Jonas Lopes
+ de 2900 Acessos

Todo ano é a mesma coisa. Um punhado de apocalípticos engomadinhos surge das profundezas da falta do que fazer para decretar a morte do jazz, um gênero que supostamente morreu há trinta ou quarenta anos atrás – não é mesmo, Ken Burns e Wynton Marsalis? A grande polêmica do ano foi o lançamento de Is Jazz Dead? Or Has It Moved To A New Address?, em que o crítico inglês Stuart Nicholson defende a tese de que o gênero já não rende bons frutos em seu berço, os Estados Unidos, e que os raros de criatividade vêm exclusivamente da Europa. Um disparate. É verdade que o jazz europeu é inventivo, original e de qualidade, e isso vem desde a fundação da gravadora alemã ECM no início da década de 70. A ECM é, nos dias de hoje, a melhor fonte de boa música do planeta, seja jazz, seja música erudita ou outras misturebas mais.

Agora, dizer que na América não se faz mais bom/criativo jazz é estupidez ou pura implicância. A começar pelos dois maiores talentos desta geração, Dave Douglas e Ken Vandermark. Com apenas 43 anos, Douglas (que eu entrevistei) empunha seu trompete em uma infinidade de projetos. São mais de duas dezenas de discos gravados em sua carreira solo em pouco mais de dez anos, fora a série Masada (banda de John Zorn, outro gênio contemporâneo) e as participações em álbuns alheios. Salta aos olhos o ecletismo e a flexibilidade de Douglas: cada uma de suas bandas explora uma sonoridade distinta. Já passou pela eletrônica, pelo tango, pelo funk, pela música de câmara, música tradicional judaica e do Leste Europeu. Em 2006 ele lançou Meaning and mystery, assinado por seu quinteto. É a sua banda mais próxima do jazz convencional, o que não tira mérito algum, dada a incrível evolução de Dave como compositor. E ele continua expandindo os horizontes. Compôs a peça Blue Latitudes, apresentada em Londres em abril juntando uma orquestra de catorze músicos e um regente (seguindo as partituras) a um trio de jazz (improvisando livremente). Loucura? Não, algo natural em alguém que idolatra Coltrane e Stravinsky (e que já fez trilha sonora para espetáculos de dança) em doses iguais.

O multi-instrumentista Ken Vandermark, de 42 anos, causou burburinho em 1999, ao ser premiado com o MacArthur Fellowship (apelidado nada modestamente de “genius Grant”), um programa de incentivo às artes e à contribuição intelectual, normalmente entregue (junto com 500 mil dólares) a nomes experientes. Vandermark é quase tão prolífico quanto Dave Douglas, e todos os seus projetos buscam novas saídas para o free jazz, a vertente mais barulhenta (e atonal) e menos assimilável do jazz. Desses projetos (DKV Trio, FME, Sound In Action, Free Fall), o mais conhecido e importante é o Vandermark 5. O recente A discontinuous line traz uma mudança na formação; o violoncelista Fred Longbern-Holm substituiu o trombonista/guitarrista Jeb Bishop, sem decadência na qualidade. A Discontinuous Line é sério concorrente a melhor obra da carreira de Vandermark. Em suas mãos, a selvageria free ganha traços acessíveis e andamentos de influência roqueira.

Falando ainda de músicos norte-americanos contemporâneos de qualidade, o mutante (já brincou até com música country, no disco Nashville) guitarrista Bill Frisell abusou de seu timbre próprio (ninguém soa como ele, ninguém) em dois novos álbuns em 2006. Em Bill Frisell, Ron Carter, Paul Motian, juntou-se com dois mestres do passado – o baixista do segundo quinteto de Miles Davis (Carter) e o baterista do trio clássico de Bill Evans (Motian). E também brincou com samplers e outras quinquilharias eletrônicas em The elephant sleeps but still remembers, ao lado do calejado baterista Jack DeJohnette (do trio de Keith Jarrett). O pianista Vijay Iyer, de 35 anos, filho de imigrantes indianos, juntou-se ao saxofonista de seu quarteto (ouça Reimagining, de 2005) e parceiro de longa data Rudresh Mahanthappa nos duetos de Raw materials. O guitarrista Nels Cline, músico de apoio da banda de rock Wilco, registrou versões curiosas de composições do influente pianista Andrew Hill (mais sobre ele logo abaixo) em New monastery. O excêntrico saxofonista David S. Ware excentricamente abusou da atonalidade nas baladas de Balladware. E outros americanos, embora não tenham superado seus ápices, gravaram discos respeitáveis. Caso de Chris Potter, Matthew Shipp, Branford Marsalis (bem menos mala que o irmão), Medeski, Martin & Wood (com John Scofield) e Brad Mehldau.

Os veteranos também foram bem, obrigado. Andrew Hill promoveu sua terceira passagem pela saudosa gravadora Blue Note para gravar Time lines, seu primeiro trabalho de estúdio em seis anos. Em sua primeira estadia na BN, gravou as obras-primas Black fire (1963) e Point of departure (1964), entre outras. A segunda aconteceu na virada da década de 80 para a de 90. Time lines traz um Hill mais reflexivo (mesmo porque ele acabou de sobreviver a um câncer), dedicado a melodias mais calmas, mas nem por isso menos complexas. Seus compassos são estranhos, assimétricos, desconexos, suas viradas inesperadas. Outro pianista, Keith Jarrett, lançou o ao vivo The Carnegie Hall concert, gravado na mítica sala nova-iorquina. As peças de piano solo seguem a linha mais curta e livre de Radiance, do ano passado. Distante do tom meio épico (“olímpico”, diria um amigo meu) que Jarrett costumava dar a seus concertos até alguns anos atrás. O baixista Dave Holland trouxe ao Brasil em outubro o repertório de Critical mass, em que seu entrosado quinteto habitual volta a trabalhar em ritmos matemáticos e angulares. Mais do mesmo, sim, mas do melhor. Outros tiozinhos que mandaram bem em 2006 foram Ornette Coleman, o pai do free jazz (Sound Grammar), os malucos do Art Ensemble Of Chicago (Non-cognitive aspects of the city), Sonny Rollins (Sonny, please) e Paul Motian (Garden of eden).

A ECM continuou oferecendo música de qualidade do Velho Mundo. O experiente trompetista polonês Tomasz Stanko gravou o excelente Lontano, em que seu jovem quarteto exercita espaços, vazios e silêncios. Tão bom que teve gente na imprensa estrangeira comparando o disco a Kind Of Blue, de você-sabe-quem. O pianista francês François Couturier homenageou o brilhante cineasta russo Andrei Tarkovski no belo Nostalghia – Song for Tarkovsky, cheio de peças minimalistas inspiradas em filmes e no ambiente do diretor, passeando entre o jazz e a música erudita. O pianista suíço Nik Bärtsch estreou sua banda Ronin em Stoa, que mistura influências díspares como Steve Reich e James Brown (ele classifica sua sonoridade como zen-funk). O saxofonista inglês Martin Speake provou ser herdeiro de Lee Konitz nas abstratas baladas de Change of heart. E o pianista italiano Stefano Bollani, de apenas 34 anos e que tocou no último Tim Festival, lançou Piano solo, que termina com uma tocante versão de “Don't talk”, dos Beach Boys. Dos não-europeus, os melhores momentos da ECM foram o fusion da banda all star Trio Beyond (Saudade), a calmaria do acordeonista argentino Dino Saluzzi (Juan Condori) e do violonista Ralph Towner (Time line).

Só a Blue Note decepcionou um pouco. Além de Time lines, de Andrew Hill, a gravadora pouco ofereceu de interessante em 2006. Alguns de seus talentos vieram com álbuns bem frustrantes, como Jason Moran, no variado e ambicioso, mas que carece de foco, Artist in residence, e de Joe Lovano, que revisita The birth of the cool no esquecível Streams of expression.

O saldo é bastante positivo, entretanto. É claro que se o que você procura é mais um disco de regravações de standards, ou vai ter que se conformar com Diana Krall regravando Cole Porter pela milionésima vez e Wynton Marsalis revisitando Duke Ellington ou vai se juntar ao coro dos descontentes e dizer que o jazz morreu. Azar o seu. Se o que você procura são composições novas e sonoridades novas, estará bem servido. Absolutamente nada contra o maravilhoso passado do jazz, muito pelo contrário. Mas se eu quiser ouvir alguém soando como Monk ou Mingus, vou direto na fonte.


Jonas Lopes
São Paulo, 26/12/2006

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