2006, o ano que não aconteceu | Daniela Castilho | Digestivo Cultural

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Segunda-feira, 1/1/2007
2006, o ano que não aconteceu
Daniela Castilho

+ de 8600 Acessos
+ 3 Comentário(s)

Julio, meu editor, pede novamente um “especial do ano” e, para poder escrever, eu fui ler os especiais do ano passado e acabei caindo justamente... no texto que eu escrevi no em 2005.

Mecânica quântica.

Reli o texto, constatei as coisas que mudaram e percebi todas as coisas que não mudaram. Pausei. Pensei. Então, falemos de 2006, uma vez que é essa a proposta.

O ano de 2006 não aconteceu. É isso mesmo. Podem apagar 2006 do calendário. Nós apenas o assistimos. Assistir não é a mesma coisa que acontecer ou viver. Fomos, durante 2006, meros espectadores das nossas próprias misérias. Teve a Copa do Mundo, mas o Brasil não ganhou. Teve eleição... mas eu me recuso a falar de política, vocês sabem disso. Teve Mostra Internacional de Cinema, teve Bienal, todo mundo trabalhou, mas nem todo mundo ganhou dinheiro, pessoas lindas nasceram – eu ganhei mais um sobrinho –, pessoas lindas viraram poeira de estrela, pessoas lindas publicaram suas memórias, compartilhando um pedaço de suas vidas com todos nós.

O ano de 2006 não aconteceu, mas nós continuamos vivendo.

No ano passado eu falei muito sobre o meu medo da exposição, falei de saudades e de coisinhas lindas costuradas entre si. Do artigo do ano passado para este que estou escrevendo e que você está lendo, meu medo de exposição evaporou no ar, mas eu percebi que muita gente ainda tem esse medo. Muitos amigos sumiram do Orkut, muitos outros agora apagam os scraps. Rastros deletados.

Ah, falemos de rastros, rastros que deixamos como pequenas pegadas na areia movediça do Tempo. Eu adoro deixar rastros. Eu perdi o medo da exposição. Falemos também de medo, falemos de exposição. E falemos de memórias, eu adoro colecionar memórias. Falemos de Tempo. Falemos de Mecânica Quântica.

O Tempo não existe. O Tempo é circular. O Tempo é circular e não existe. Pergunte aos físicos quânticos. Pergunte aos budistas.

Vamos começar imaginando que estamos em 2066, que para nós ainda não aconteceu. A minha sobrinha será avó, eu terei virado poeira de estrelas. Em uma linda tarde de dezembro, quando chegarem os anjos, sob uma linda luz de quatro horas da tarde, aquela luz dourada que prenuncia o verão, com maritacas cantando na janela, sentada diante de seu computador e conversando com sua netinha – que terá olhos verdes como os meus, os da minha irmã e os da minha sobrinha – minha sobrinha dirá “quer conhecer sua tia-bisavó?”, irá pegar um bluetooth (ou sei lá o que é que vai substituir os atuais DVDs) e irá ressuscitar, como em um passe de mágica tecnológica, minhas artes, minhas fotos, meus filmes, os making-ofs dos meus filmes. A neta de minha sobrinha, encantada, irá poder ver meus gatos, o apartamento onde eu morei, fotos minhas, fotos de amigos meus, fotos de mim com sua avó ainda criança no meu colo, tudo colorido como no momento capturado pela câmera. A eternidade conservada em pixels. Depois do desfile de fotos coloridas, minha sobrinha irá começar a mostrar minhas artes e os making-ofs dos meus filmes para a sua neta, a nossa neta. Em um deles, a netinha de minha sobrinha verá uma foto preto e branco de meu pai comigo no colo quando eu tinha quatro anos de idade. Ela irá apontar seu lindo dedinho para a tela e perguntar “quem é esse?”, e a minha sobrinha irá dizer “é meu avô, ele era um músico maravilhoso” – e poderá tocar para sua neta (que é nossa neta) as músicas do avô de sua avó e as artes que a bisavó fez para o próprio pai e para todas as pessoas que viveram no tempo dela.

Bonito isso, não? Então voltemos ao presente ou àquilo-que-convencionamos-chamar-de-presente só pra pensar melhor. Às vezes fica complicado raciocinar com clareza quando estamos no Passado ou no Futuro.

Somos apegados demais ao Tempo e tão pouco apegados às pessoas. Somos preocupados demais com coisas que não valem absolutamente nada. Vivemos entre pilhas inúteis de documentos que de nada servem, esquecemos os documentos que realmente importam. Vivemos apressados, passando o nosso valioso Tempo presos em tráfego pesado de carros, em vias que não fluem, indo a lugares que não queremos ir, entre pessoas que não conhecemos direito – ou que nem conhecemos – e com quem mal falamos, ou com quem não falamos nada. Perdemos todo o nosso precioso e escasso Tempo fazendo coisas que não gostamos com pessoas com quem não queríamos estar – ou à quem não damos atenção porque pensamos que não queremos estar com aquelas pessoas. Devíamos apenas nos ocupar das coisas realmente importantes, não damos a devida atenção às pessoas que devíamos conhecer melhor, às pessoas que irão realmente fazer com que, daqui a sessenta anos (ou mil anos), alguém sinta vontade de se lembrar de que um dia existimos: todas as pessoas que amamos. Todas as pessoas que conhecemos mas com quem não passamos Tempo suficiente. Todas as pessoas que ignoramos porque estamos muito ocupados pensando em coisas inúteis e a quem não damos a oportunidade de conhecer e conversar melhor e quem sabe, de amar.

Um dos meus livros favoritos é Alice no país das maravilhas, de Lewis Carroll e o meu capítulo favorito é o chá. O Chapeleiro conta que ofendeu o Tempo, e o Tempo (que é uma pessoa) condenou o Chapeleiro, a Lebre e o Rato, a viverem eternamente às seis horas da tarde. Toda hora é hora do chá.

Alice estivera olhando por cima dos ombros com curiosidade. “Que relógio engraçado!”, ela observou. “Ele diz o dia do mês e não diz a hora!”

“Porque deveria?”, resmungou o Chapeleiro.” Por acaso o seu relógio diz o ano que é?”

“É claro que não”, Alice replicou rapidamente, “mas é porque o ano permanece por muito tempo o mesmo.”

“Este é exatamente o caso do meu”, disse o Chapeleiro.

Almoçando com um amigo meu, tentei explicar a ele o valor que as pessoas têm para mim. Não deu certo. Mais tarde, escrevi um e-mail. Não sei se deu certo. Depois, ainda pensando no caso, percebi como eu passo muito tempo tentando explicar às pessoas que só existem duas coisas no mundo que valem a pena: ser você mesmo e amar as pessoas. O resto é totalmente passageiro, é irrelevante. O resto nada diz sobre quem é você. O resto são apenas coisas.

Eu e a minha vida temos uma tendência terrível à entropia – deixei de fazer uma arrumação aqui no caos onde eu moro pra escrever melhor este texto –, mas apenas obedecemos à mecânica do mundo. O mundo tem essa tendência entrópica; não é à toa que a ciência que mais tem fascinado e intrigado todos os estudiosos do mundo tem sido a física quântica. Não há como escapar da entropia. A física quântica faz todos os momentos e coisas da vida parecerem um chá de Alice, e quanto mais conta os Senhores Cientistas fazem, quanto mais experiência realizam, mais e mais o mundo não se parece com o que achamos que o mundo é. O mundo é quântico. A vida é um chazinho entre malucos. Ainda bem, ainda bem, isso é libertador.

O tempo não existe, o que existe é o viver. Eu vivo entropicamente, eu me deixo levar pelo curso da vida, porque é isso que a vida é, um movimento caótico. Não vamos nos preocupar com o Tempo. O Tempo é circular, simultâneo, o Tempo não existe. Os nossos relógios não nos dizem em que ano estamos, nem em que dia estamos. Existe uma razão para isso: porque não devemos nos preocupar. A vida é um movimento, viver é participar desse movimento, como se fosse uma sinfonia, um filme de cinema. Você não quer perder esse filme, essa música, essa mecânica quântica, eu também não.

Um dos jurados tinha um giz que rangia. Isso, é claro, Alice não agüentava, e então ela deu a volta na corte até chegar atrás dele e na primeira oportunidade arrancou-lhe o giz. Alice fez isso tão rápido que o pobre pequeno jurado (era Bill, o Lagarto) não pôde perceber o que tinha acontecido: então, depois de procurar por toda parte ele foi obrigado a escrever com o dedo o resto do dia. É claro que não adiantava nada, pois não deixava marca nenhuma na lousa.

Eu não apago scraps do Orkut. Só se forem mensagens estúpidas ou propagandas (o que no final, é a mesma coisa). É bonito ir até o Orkut e ver todos aqueles recados gentis dos amigos. Eu também não apago mais os arquivos do Chá, eu os releio. Eu voltei a postar fotos de mim mesma por aí. Eu estou rodando um curta-metragem, eu quero fazer um documentário. Eu perdi o medo da exposição. Eu quero deixar rastros. Eu quero que lembrem de mim daqui a 60 anos e mostrem que eu vivi muito, muito.

Não há como ou por que nos escondermos – e de quem? –, isso é ilusão. Não sei por que temos tanto medo. Também já tive muito medo na/da vida, eu sei que sentimos medo, por mais que eu também não compreenda o medo. Medo de quê? De que as pessoas vejam quem somos e não gostem de nós? Não é possível obter unanimidade. Nem todo mundo vai gostar da gente. Nem todo mundo está na mesma sintonia quântica que o outro. Cada pessoa tem sua própria sintonia, a chave é encontrar as pessoas que se encontram na mesma sintonia que nós. Para que viver se escondendo? O que procuramos tanto evitar? A vida? A vida é inevitável. A vida passa, mesmo se ficarmos somente assistindo, que é a impressão que o ano de 2006 me traz. Ter medo de viver só nos faz desperdiçar esse viver. Um dia viraremos poeira de estrelas e só ficarão os rastros e as memórias. Precisamos viver agora, não existem segundas chances. A Segunda Chance é uma ilusão.

Feliz Ano Novo para quem quiser pensar em Ano Novo. Feliz Desaniversário para todos que não fazem aniversário agora. Feliz Aniversário para mim, que completei, em dezembro, 40 anos, de acordo com muitos documentos e de acordo com a contagem do Tempo, e para todos que fizeram aniversário em dezembro (posso somar vários amigos nessa conta, inclusive uma linda e adorável musicista que também completou 40 anos e que me concede a honra de tê-la como amiga). E não esqueçam do que eu disse no ano passado, falando de 2005: eu ainda tenho cinco anos de idade, ainda bem, ainda bem. Enquanto eu tiver cinco anos de idade estarei bem, ainda serei eu mesma. Eu ainda estarei por aqui, vivendo.

Tenham cinco anos de idade, acendam as luzes das festas de passagem de ano e vivam, vivam muito.


Daniela Castilho
São Paulo, 1/1/2007

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COMENTÁRIO(S) DOS LEITORES
22/2/2007
21h37min
cara Daniela Castilho: gostei muito do teu texto, que republiquei no meu blog, onde publico coisas sobre o tempo, essas coisas... valeu!
[Leia outros Comentários de Eliara Roberta Etges]
17/4/2007
12h30min
Adorei o texto. Eu também tive a sensação de que 2006 não aconteceu, talvez por eu ter passado ele com apatia a tudo. Pensando demais no tempo. E por mais estranho que pareça, 2007 ainda não começou. Abril sempre traz, junto com a chuva de outono, duvidas. Dessa vez trouxe a certeza de que o tempo não existe. Decidi deixar de apenas exisitir para aprender a viver. Aprender que toda hora é hora de um chá!
[Leia outros Comentários de Caio Vita]
5/5/2007
02h26min
Gostei muito do texto, mas 2006 foi ponte para as transformações, um fim saturniano. Como resultado um curta metragem "Questões de Pele". Daniela, assista - entre em contato: Papillon Videos ou no meu perfil do orkut, Julia Albergaria.
[Leia outros Comentários de Julia Albergaria]
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