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COLUNAS

Segunda-feira, 19/2/2007
Conceição: onde passar, não perca
Marcelo Miranda
+ de 1800 Acessos

A idéia era escrever um balanço sobre como foi a 10ª Mostra de Cinema de Tiradentes, um dos principais eventos audiovisuais do país e que acontece anualmente em janeiro na cidade história do interior de Minas Gerais. Porém, a cobertura em alguns veículos foi tão intensa e completa (como nos sites Contracampo, Cinequanon e Cinética) que eu corria risco de me repetir. Foi quando pensei em fazer algo diferente. E nada melhor que destacar aquele que certamente foi o filme-sensação da mostra deste ano – o que serve não apenas como estímulo ao leitor procurá-lo como mola propulsora de uma maior divulgação de sua existência.

Refiro-me a Conceição – Autor bom é autor morto, exibido na noite do dia 24 de janeiro no Cine-Tenda, em horário já bastante avançado – passava da uma hora da manhã quando a projeção se iniciou, após as exibições dos documentários Cartola e Jardim Ângela. O relógio não foi suficiente para desanimar as mais de 600 pessoas na sala. Elas acompanharam atentas ao desenrolar do filme, em vários momentos rindo, aplaudindo e interagindo com os absurdos que surgiam na tela.

Conceição é um filme especial por uma série de fatores, a começar por sua realização. É o primeiro longa-metragem brasileiro finalizado por estudantes de cinema – no caso, alunos da Universidade Federal Fluminense (UFF), de Niterói. Coordenado por Daniel Caetano, o grupo formado por André Sampaio, Cynthia Sims, Guilherme Sarmiento e Samantha Ribeiro começou o projeto há mais de dez anos, em 1993, época que coincidiu com o quase desaparecimento do cinema no país a partir do fim da Embrafilme no governo Fernando Collor de Mello.

Contra a corrente, a turma decidiu ir bolando algum tipo de trabalho nonsense, criativo e de forte carga referencial. “Fizemos uma compilação do mau gosto, a partir de um questionamento: o que o cinema brasileiro não quer mostrar?”, contou Daniel Caetano a este colunista. “Parte da produção contemporânea tem escondido as impurezas da vida para exibir um mundo anódino e sem gosto”. O montador André Sampaio completou: “o cinema brasileiro está muito caretão. O público quer assistir a projetos diferentes”.

A idéia de um tipo de realização fora dos padrões permeou todo o processo de Conceição. À medida que o filme ia sendo feito – sem compromissos com datas, horários e caminhos específicos a seguir, e igualmente sem orçamento, já que era um trabalho puramente pessoal e de equipe –, mais os diretores iam aumentando a carga de “mau gosto”. “É um filme com total liberdade de criação e cujo tema é justamente a liberdade de criação”, defende Daniel. Eu diria mais que isso: Conceição – Autor bom é autor morto é um filme sobre as possibilidades da ficção. Não existe uma linha narrativa sendo seguida. A ação parte da mesa de estudantes que discutem como fariam um filme perfeito, ou ao menos um filme criativo e diferente. Em meio aos papos, diversos segmentos sem ligação aparente vão se desenvolvendo na tela. Não pense em Robert Altman (A última noite), Paul Thomas Anderson (Magnólia) ou Alejandro González Iñarritu (Babel). Conceição é uma verdadeira salada de citações que cultiva, acima de tudo, a absoluta tranqüilidade dos realizadores em lidar com a ficção sem medo do risco. As referências surgem intuitivamente, sem parecerem referências de fato. Mas o bom olhar cinéfilo vai captá-las. “É uma coisa mediúnica”, comenta Daniel.

Conceicao

Mediunidade ou não, há instantes em Conceição cujas ligações com obras e cineastas de outros tempos são claras. Desde o Chaplin de Luzes da cidade, com o personagem acordando nos braços de uma estátua, até Paul Verhoeven em Instinto selvagem, com o facão que decepa o amante (no filme de Verhoeven a arma era um fura-gelo); do surrealismo na melhor fase do espanhol Luis Buñuel (O anjo exterminador) à câmera subjetiva semelhante ao cinema de Dario Argento (em especial as cenas de perseguição e morte em Prelúdio para matar e Tenebre).

O espectador menos iniciado, entretanto, não tem com que se preocupar: Conceição flui de tal forma que pouca diferença faz à sua fruição conhecer tais citações. Apenas duas referências são, de fato, assumidas: uma sobre 2001 – Uma odisséia no espaço, de Stanley Kubrick (“a gente quis fazer a pior paródia de todos os tempos”) e outra com a presença do músico Jards Macalé como um matador sanguinário cantando a canção de um filme do Nelson Pereira dos Santos.

Conceição chama atenção pela coesão, ainda mais por ser trabalho coletivo. Daniel Caetano esclarece que, apesar de cinco diretores creditados, a equipe responsável pelas idéias loucas que estão na tela foi composta por 15 integrantes. As filmagens em película 16mm foram iniciadas há seis anos, sendo elaboradas e estudadas com o passar do tempo. “O filme representa a morte do autor individual em prol da criação coletiva”, decreta a diretora Samantha Ribeiro.

Daniel tem visão muito clara neste sentido: “Se você não se une, você morre. Não tem jeito de ser autor europeu no Brasil. O nosso cinema tem muito da idéia da patota, do grupo. Às vezes dá certo, em outras, não. O importante é que todo mundo acredite no que está fazendo e esteja aberto a conflitos e debates de idéias, porque isso é muito saudável”. Daniel não enxerga a autoralidade pura e simples como saída para o próprio cinema autoral – o que vai de encontro à noção pregada pela política dos autores, desenvolvida por cineastas franceses dos anos 60, de que o diretor é o único responsável artístico pelo resultado final do filme.

No caso de Conceição e naquilo que a turma de Daniel Caetano crê, a solução para o cinema contemporâneo brasileiro ter alguma cara própria é a união de talentos. “Querer ser autor pode se tornar um tipo de camisa-de-força. Por vezes, cai-se no risco da produção nunca ser renovada e a gente ter sempre o mesmo tipo de filme de autor na tela”. Conceição não deixa de ser um trabalho profundamente autoral mesmo com a filosofia de Daniel. Há, ali, um escracho de grande inteligência em cima dos parâmetros que parecem reger o que se chama de “correto” dentro do universo dos filmes.

O deboche infantil é um caso destes: crianças em sala de aula respondem sobre as profissões de seus pais sempre se protegendo dos estereótipos a respeito dessas profissões (“meu pai é vereador, mas não é ladrão. Quando eu crescer vou votar nele”); ou, num dos pontos altos do filme, uma garotinha se mostra o verdadeiro diabo em pessoa ao envenenar a comida de uma velhinha. A cena da castração, na primeira meia hora, gerou a mais comentada e repetida piada da Mostra de Tiradentes (referente a um quibe, e que não vem ao caso ser revelada aqui antes do leitor ter assistido ao filme).

O encontro de personagens fictícios com seus criadores, no clímax de Conceição, tem grande carga simbólica, questionadora e crente no impacto da imagem na tela. E a anarquia final que faz jus ao subtítulo “Autor bom é autor morto” é realmente impressionante, em tudo que carrega de questionamentos sobre a responsabilidade do criador e artista sobre a arte que cria. Fica anos-luz à frente de bobagens pretensiosas como Mais estranho que a ficção, de Marc Forster (atualmente em cartaz nos cinemas), filme de pouca crença no poder do cinema de transmitir significados através da imagem e do encadeamento de idéias.

A pergunta que mais pipocava em cima dos realizadores de Conceição – Autor bom é autor morto era se o filme ganharia distribuição comercial. A equipe disse que existe a possibilidade através da Riofilme, apesar da absoluta falta de patrocínio. A tentativa será fazer uma inserção nos cinemas aos poucos, sem alguma grande estréia – seguindo a idéia meio marginal da própria criação do projeto. Quando (e se) Conceição aparecer por aí, esteja você onde estiver, abra a cabeça e não deixe de ver.


Marcelo Miranda
Belo Horizonte, 19/2/2007

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