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COLUNAS

Sexta-feira, 27/4/2007
Bienal do Livro Bahia
Rafael Rodrigues
+ de 1400 Acessos

É preciso ter tempo de sobra para se ir a uma Bienal de Livros. Não se pode ir a um evento desse tipo na correria, com o horário apertado.

Mas foi assim que eu fui à Bienal do Livro da Bahia, em Salvador, no dia 17 deste mês. O trânsito aqui da cidade e também da capital fez com que o ônibus ficasse parado mais tempo do que deveria. Quando cheguei ao Centro de Convenções, o bate-papo no Café Literário com João Filho e Renata Belmonte já havia começado fazia tempo.

Pelo pouco que assisti da conversa, percebi que perdi muita coisa boa. Porque João e Renata são muito diferentes um do outro. A começar pelos escritos. João é mais visceral, cruel; Renata é mais psicológica, “atmosférica”. João diz que se diverte escrevendo. Renata diz que sofre cada conto que escreve. Ela tem já dois livros publicados – apesar da pouca idade, 25 anos – e atualmente trabalha em uma novela. João afirmou que perdeu um pouco daquela vontade de ser ver publicado: o que ele quer mesmo é escrever. Uma pena, pois o que eu mais gostaria de ver é o João Filho com livro novo na praça. Prosa ou poesia, tanto faz. A literatura brasileira merece que alguém como João Filho seja mais lido e divulgado. É coisa do outro mundo assisti-lo num recital de poesia. Os contos que li do seu raro Encarniçado são impressionantes. Atenção, editoras: escritor jovem e vigoroso na praça...

Da Renata eu fui – e voltei – lendo, no ônibus, O que não pode ser, segundo livro de contos dela, vencedor do Concurso de Arte e Cultura do Banco Capital. Não vou aqui me passar por mentiroso e dizer que terminei de ler, mas estou perto do fim e posso dizer o seguinte. Renata Belmonte é uma autora “musical”. No sentido de que parece se inspirar em músicas, ou escrever ao som delas, já que as citações são muito presentes nos contos. Sabe aquele negócio de que “a prosa tem um ritmo e bla bla bla”? Esse clichê é muito utilizado pra encher lingüiça em resenha – calma, não estou acusando ninguém –, mas é a mais pura verdade para definir os contos da jovem autora baiana. No conto que dá título ao livro ou em “(Intervalo)”, conto dividido em várias partes e publicado entre os outros contos, Renata dá provas de que tem o domínio completo do que escreve. Tanto de um texto isolado quanto da obra como um todo. É uma jovem escritora que já tem muito mais talento do que algumas trintonas ou quarentonas de nossa literatura. Atenção editoras: escritora jovem e vigorosa na praça...

Depois do Café, fui com Mayrant e Andréia Gallo a apenas um stand de livros, já nosso conhecido de outras bienais, onde comprei alguns títulos devidamente aprovados e indicados pelo mestre. Voltei pra casa já tarde, para quem no outro dia tinha trabalho; mas cedo demais para quem sequer pôde dar aos livros a merecida atenção.

Melhorias
Comparada com a Bienal de 2005, notei algumas melhorias na organização da edição deste ano. O espaço reservado para a poesia estava maior, muito mais organizado e aconchegante. E continuou com mais visitantes que o Café Literário, por incrível que pareça – ao menos nos dois dias que passei por lá.

(Sim, dois dias, porque voltei a Salvador no encerramento do evento, no último domingo. Eu não poderia ter ido apenas um dia. Não seria justo.)

O Café Literário também sofreu algumas alterações. Em 2005 o espaço servia de terreno para a conversa com os escritores convidados e também para a conversa entre os espectadores que lanchavam por ali. Tamanha era a conversa entre o público que às vezes ficava difícil de acompanhar os verdadeiros convidados do Café. Este ano a coisa mudou de figura. Do lado de dentro, no espaço do Café Literário propriamente dito, ficou somente quem queria mesmo assistir aos escritores. Para quem só queria comer e fingir que estava interessado no assunto, foi destinada uma área em frente ao Café. E pra quem estava realmente com fome e não podia comer lá dentro, devido à quantidade limitada de mesas, é claro.

(É bom deixar claro que dentro do Café era servido café e lanches. Mas há uma enorme diferença entre tomar um café enquanto se assiste a uma conversa e conversar enquanto se toma café e atrapalha uma outra conversa.)

Cheguei mais cedo no domingo. Chegamos, na verdade. Minha bem-amada foi comigo. Dessa vez tive tempo de passear por vários stands – não todos, porque seria preciso um dia inteiro para isso. Mas percorremos os locais mais interessantes e fizemos excelentes aquisições. Mayrant Gallo nos fez companhia por um bom tempo e nos contou boas histórias. Nossas pernas doeram de tanto andar, e este colunista está todo quebrado por conta das andanças. Mas valeu a pena. Muito.

Choque de leitura
Além de andar quilômetros e quilômetros pelo Centro de Convenções, fomos conferir os baianos Aleilton Fonseca e Washington Queiroz no Café Literário. Ambos falaram bastante, e o tempo apertado do Café – uma hora e meia – deveria ser usado para cada um, não para os dois. A conversa foi descontraída, os autores com muito bom humor. Mas o que mais me chamou a atenção foi o fato de os escritores terem colocado em pauta um assunto que muito me incomoda, e que vira e mexe eu converso com alguém, para tentar entender: o fato de a Bahia (os baianos, no caso) dar tão pouco valor à literatura. Acho que a palavra não é nem “valor”, mas sim “destaque”. Queiroz levantou sua bandeira a favor da Hera, revista literária com 35 anos de existência, a primeira publicação de um grupo literário brasileiro – o grupo Hera –, fundada pelo poeta Antônio Brasileiro, em 1972. Falou também do poeta Ruy Espinheira Filho, que com o seu Elegia de Agosto venceu o Prêmio ABL de 2006 (faz exatamente um ano hoje, aliás) e ficou com o segundo lugar no prêmio Jabuti do mesmo ano (na categoria Poesia), e de como pouco – ou nada – sobre o assunto foi noticiado na Bahia.

E ele não exagerou. Até mesmo a Bienal foi pouco anunciada aqui. É verdade que o evento teve de ser adiantado por conta do calendário das Bienais que este ano será um pouco corrido, devido aos Jogos Pan-Americanos terem alterado a data da Bienal do Rio de Janeiro – ao menos foi o que fiquei sabendo – mas ainda assim mantenho a minha opinião de que o evento poderia ter sido mais divulgado. E de que falta aos autores baianos um pouco mais de vontade de se lançar pra fora, e também de agitar aqui dentro.

Até Aleilton Fonseca, que é sempre sereno e calmo, se agitou um pouco ao falar do assunto. Ele disse que a resposta a seus textos publicados em São Paulo, quando cronista mensal de um jornal paulista, era muito maior do que o retorno que tinha dos seus textos publicados aqui na Bahia, com freqüência bem maior. E disse mais: que se um autor baiano lança um livro nacionalmente, de mil exemplares que ele vende, 950 são vendidos fora da Bahia. Mesmo tendo o tal autor uma presença forte no meio literário baiano. Perguntei a Aleilton o por quê de tal fenômeno, se é que ele tinha uma opinião formada sobre o assunto. Ele disse que falta os baianos tomarem um choque de leitura e que falta, talvez, os escritores tomarem a frente, terem mais atitude ainda. Mas essa é uma conversa longa demais, como o próprio Aleilton disse, e não havia tanto tempo assim para falar.

Que venha a próxima!
Infelizmente foi só o que pude ver da Bienal. Algumas poucas e rápidas horas. Perdi Moacyr Scliar, Zuenir Ventura, Francisco José Viegas, entre outros, por exemplo.

O bom mesmo é ir todo dia, ver as conversas entre os autores, ir aos lançamentos de livros, pesquisar preços nos vários stands, encontrar amigos, conhecer gente que gosta de literatura, que vive literatura.

Mas 2009 é logo ali, e certamente estarei novamente na Bienal. Espero que como autor convidado, desta vez.


Rafael Rodrigues
Feira de Santana, 27/4/2007

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