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COLUNAS

Sexta-feira, 4/5/2007
Fup, de Jim Dodge
Rafael Rodrigues
+ de 3200 Acessos
+ 2 Comentário(s)

Data do dia 12 de julho de 2004 um tópico criado por mim na comunidade do livro Fup (José Olympio, 2006, 98 págs.), de Jim Dodge, no Orkut, à procura de mais informações sobre ele. Na época, o Dodô “Bom Bril” Azevedo me falou sobre o livro e me deixou muito curioso para lê-lo. Se não me engano, o Dodô leu o livro no original e não soube me dizer se havia uma edição brasileira. Mas eu acho mesmo é que mandei um e-mail pra ele, mas ele não pôde me responder. O homem é ocupado demais.

Sem contar que em 2004 eu era mais devagarzinho. Poderia muito bem ter feito uma pesquisa na rede. Certamente encontraria, em algum sistema de busca, todas as informações que procurava.

Poucos meses depois, em novembro do mesmo ano, há uma resposta minha a um usuário, dizendo que eu havia encontrado o livro em algumas lojas virtuais. Não o comprei na época, não imagino o motivo. Lembro que fiz o download do arquivo, em um link devidamente indicado por uma integrante da comunidade. Mas não foi daquela vez que li Fup.

Só agora, no fim do mês passado, é que li esta pequena grande novela de Jim Dodge, um dos convidados da FLIP deste ano. Reeditada no final de 2006 pela editora José Olympio, Fup faz parte do selo Sabor Literário, destinado a lançar “textos inéditos, esquecidos ou inusitados de grandes escritores de todo o mundo”. Pelo selo já saíram – e ainda vão sair – muitos livros no mínimo interessantes, como Sobre arte Sobre poesia (Uma luz no chão), que traz ensaios de Ferreira Gullar que estavam fora de catálogo há mais de 20 anos; ou como O banqueiro anarquista, conto – ou novela – irreverente (banqueiro anarquista?, onde já se viu!) de Fernando Pessoa, entre vários outros títulos. Os livrinhos – porque são pequenos, mas não chegam a ser de bolso – são muito bonitinhos e têm as capas iguais, mudando apenas o nome do autor e da obra, claro, o que dá ao selo a característica de coleção. No sentido de que dá vontade de colecioná-los.

A leitura de Fup foi muito agradável, mas não foi tranqüila. Para lê-lo, tive de carregá-lo na mochila que levo para o trabalho, e tive que sujeitar o livro ao bolso traseiro da minha calça, o que resultou em alguns amassões, já devidamente “desamassados”. Isso porque tive que ler o livro nos meus horários de lanche. Depois de comer – ou enquanto comia –, é claro.

Nesses dias aprendi que a maioria das pessoas não respeita leitores solitários em bancos de shopping. Fui interrompido diversas vezes – duas delas por clientes – por motivos banais. Nada do que me disseram ou perguntaram era mais importante que a leitura do livro, e poderiam ter dito ou perguntado para outro que não eu. Mas enfim, não sou rabugento e não vou ficar aqui me lamentando.

O fato é que li Fup, e pronto. A apresentação do livro – porque todo livrinho do Sabor Literário tem uma apresentação escrita por um outro grande autor – é do Marçal Aquino, que diz assim: “Fup é um daqueles livros que, em lugar de leitores, conquistam devotos. Uma pequena jóia literária, digna portanto das confrarias que sua leitura gera em todo o mundo, desde sua publicação original, em 1983.”.

E logo no primeiro parágrafo da história tomei um susto. Com a maneira com que Jim Dodge narra a morte de um “personagem” (entre aspas porque ele só aparece no primeiro parágrafo), que vem a ser pai de um dos personagens principais do livro. Ele é direto demais. E a frase que relata a morte vem logo depois de uma passagem feliz. Brusco demais.

Alguns parágrafos adiante, outra morte, narrada do mesmo jeito. Sem rodeios, direto ao ponto. Admito que tive que interromper a leitura e respirar fundo, até porque na hora eu estava comendo, lembro bem disso.

Em seguida fiquei sabendo que quem morreu foram os pais de Miúdo (que, mesmo se tornando um rapagão de quase dois metros de altura e mais de 100 quilos, vai continuar com esse apelido), neto de vovô Jake, que é quem assume a responsabilidade de criá-lo.

Vovô Jake é um homem curioso, dado a ímpetos inexplicáveis. Casou-se várias vezes, sendo que um dos casamentos durou apenas um dia. Foi com uma bibliotecária. O motivo da rápida separação: “Quando ela [na noite de núpcias] abriu um livro e começou a ler, Jake fechou negócio [o divórcio] ali mesmo, em dinheiro vivo.”. Aliás, os casórios só lhe trouxeram prejuízo. Sem contar o vício no pôquer e as altas quantias gastas com bebida. Vovô Jake é mesmo um homem excêntrico.

Aos 61 anos Jake encontrou um índio que lhe deu a receita de uma bebida especial, o Velho Sussurro da Morte, que lhe traria a imortalidade. Vovô Jake passou a fabricar a bebida em larga escala e utilizá-la como moeda. Teve até quem usasse o Velho Sussurro como combustível para tratores...

Isso tudo foi antes de Vovô Jake ter de cuidar de Miúdo. Com a responsabilidade adquirida, ele aquietou-se um pouco, deixou de lado ao menos as aventuras amorosas.

A história não tem detalhes da criação de Miúdo, e nem precisa. Logo vemos Miúdo já com 22 anos e seus quase dois metros de altura e Vovô Jake com 99. E apesar de criado pelo avô meio doidão e viciado em jogo, Miúdo tornou-se praticamente o oposto de Vovô Jake. “Suas diferenças, apesar de numerosas, eram superficiais; suas semelhanças eram poucas, mas tinham um alicerce: eram ligados pelo espantoso amor que tinham um pelo outro, uma amabilidade que ia além da mera tolerância, uma compreensão sangüínea daquilo que movia seus corações.”.

Fup, personagem que dá título ao livro, só aparece na metade da história, quando Miúdo a encontra, ainda bebê, num buraco de terra.

Sim, a encontra, porque Fup é fêmea, ela é uma pata. “Fup” vem de “fucked up”, que foi como Miúdo a encontrou, segundo Vovô Jake. Daí o nome, devidamente escolhido por ele, é claro.

Agora, relendo alguns trechos do livro para escrever esta coluna, entendi uma coisa que não havia entendido antes. Ou dei a essa coisa um sentido que não dera antes, afinal, cada leitor faz uma leitura. Mas se você ler o livro – e eu recomendo muito que você leia – atente para a relação entre a morte da mãe de Miúdo e uma outra morte perto do fim do livro.

Até agora, quando começo a encerrar este texto, pensava em como iria falar de Fup. No quê eu iria falar. Porque a história inteira é digna de citação, e eu não tenho espaço nem tempo para falar sobre toda a história. Fup é uma fábula, porque tem fatos e cenas absurdas, mas é também uma história de como pessoas tão diferentes podem viver juntas e em respeito mútuo. Um livro muito bem escrito, divertido, engraçado e comovente, como poucos que li.

Desisto de tentar encontrar coisa melhor para dizer. Melhor relaxar e deixar que o leitor descubra a obra sozinho.

Para ir além






Rafael Rodrigues
Feira de Santana, 4/5/2007

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COMENTÁRIO(S) DOS LEITORES
2/5/2007
08h03min
O meu Fup desencavei num balcão de encalhados numa das pouquíssimas livrarias de Macapá, uns dez anos atrás. Naquela época, eu costumava pôr a data de aquisição e o local. Infelizmente, neste não consta nada. Quando o peguei - pra mim um ilustre desconhecido - o que me atraiu foi o release da contracapa. “Uma pequena editora da Califórnia, em 1983, lança seu terceiro livro, tornando-se um sucesso graças à divulgação de seus entusiasmados leitores.” O quê? Como pôde uma história onde três personagens improváveis de se darem bem em qualquer núcleo familiar vira uma obra cult? E eu - que me julgava o cara mais ligado em qualquer coisa cult - não sabia disso? Pois é. E ainda tinha na capa um comentário do The New York Times (...um best-seller do underground). Além de Fup toda poser desfilando à beira de um rio (acho), sobre um fundo azul. Sem querer estragar a leitura de vocês não me prenderei à história. Termino dizendo que meu Fup é da Nova Fronteira, 4ª edição, de 1984. Pegue o seu logo!
[Leia outros Comentários de Pepê Mattos]
4/5/2007
11h25min
Eu me lembro dessa pata, pisando na lama, num dia de chuva. Algo assim. Então era isso, o Fup, o livro do Jim Dodge. Lembro que eu li trechos, em algum lugar do passado... (música, please). Nunca li o livro inteiro, mas Rafa, a sua resenha tá ótima, dá vontade de ler tudo outra vez. Muito bom, cara. Abçs.
[Leia outros Comentários de Guga Schultze]
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