Banville e o mar purificador da memória | Jonas Lopes | Digestivo Cultural

busca | avançada
14361 visitas/dia
954 mil/mês
Mais Recentes
>>> João da Cruz encerra temporada na Casa das Rosas
>>> 36Linhas lança Graphic Films Collection
>>> Em novo dia e horário, Trilha de Letras presta tributo a Darcy Ribeiro
>>> Teatro do Incêndio é indicado ao Prêmio Governador do Estado
>>> Nathalia Timberg é homenageada no Recordar é TV desta terça (20)
* clique para encaminhar
Mais Recentes
>>> O Digestivo e o texto do Francisco Escorsim
>>> Piada pronta
>>> Os Doze Trabalhos de Mónika. Epílogo. Ambaíba
>>> Claudio Willer e a poesia em transe
>>> Paul Ricoeur e a leitura
>>> Os Doze Trabalhos de Mónika. 12. Rumo ao Planalto
>>> Dilúvio, de Gerald Thomas
>>> Os Doze Trabalhos de Mónika. 11. A Quatro Braçadas
>>> Crônica de Aniversário
>>> Os Doze Trabalhos de Mónika. 10. O Gerador de Luz
Colunistas
Últimos Posts
>>> Lauro Machado Coelho
>>> Jeff Bezos é o mais rico
>>> Stayin' Alive 2017
>>> Mehmari e os 75 anos de Gil
>>> Cornell e o Alice Mudgarden
>>> Leve um Livro e Sarau Leve
>>> Pulga na praça
>>> No Metrópolis, da TV Cultura
>>> Fórum de revisores de textos
>>> Temporada 3 Leve um Livro
Últimos Posts
>>> Tatuagens eólicas
>>> Terra úmida
>>> Cidadão de 2ª Classe - Você se Reconhece Como Um?
>>> Espectros
>>> Bojador
>>> Inversões
>>> Estado alterado
>>> Templo
>>> Divagações
>>> Convicto
Blogueiros
Mais Recentes
>>> Como ser feliz no trabalho
>>> Autor não é narrador, poeta não é eu lírico
>>> O ódio on-line
>>> Burguesinha, burguesinha, burguesinha, burguesinha
>>> Nuvem Negra*
>>> Contos fantásticos no labirinto de Borges
>>> Ilustres convidados
>>> Por que comemorar o dia das mães?
>>> Poeira, pra que te quero?
>>> Notas de um ignorante
Mais Recentes
>>> Michael Jackson
>>> Psicoterapia e Sentido da Vida
>>> Biblia evangelho lucas
>>> Escola Frankfurt
>>> Pimentos & Compahia
>>> Cozinha Saudavél
>>> Beer Ultimate Word Tour
>>> The Great Wines Of France
>>> Viagem Pitoresca Do Brasil
>>> 100 Canetas de Sempre
>>> Fra Agélico
>>> O Prazer de Viver Ligjht
>>> Tratamentos Naturais De A a Z
>>> Tratamentos Naturais De A a Z
>>> Tratamentos Naturais De A a Z
>>> Tratamentos Naturais De A a Z
>>> Master of french Art
>>> Tratamentos Naturais De A a Z
>>> A Concepção Materialista da História
>>> Garbo
>>> Sucos Para a Saúde
>>> Whitney Houston
>>> Mecanismos Internos
>>> 1001 Discos para Ouvir Antes de Morrer
>>> Kyoto
>>> Tom Cruise - Biografia Não-Autorizada
>>> A Origem e o Retorno
>>> Nelson Rodrigues Na Tv
>>> As Naus
>>> As Mulheres de Meu Pai
>>> Edições de Planeta - Ramakrishna - O Louco de Deus
>>> Great Escapes Africa
>>> O escolhido legado
>>> O Pintor Da Vida Moderna
>>> Turner
>>> 30 Sabores receitas de Ensopados
>>> Os cadernos de Dom Rigoberto
>>> Tantra - Arte e Refinamento do Amor
>>> Amanhecer
>>> Mito e Religião Na Grécia Antiga
>>> O Gigante em Você
>>> O Esino De Filosofia
>>> O Esino De Filosofia
>>> O Esino De Filosofia
>>> A cidade de cada um - coleção Vera cruz vol.46
>>> Armadilha ao Contrário
>>> Rimas Da Vida E Da Morte
>>> Carmo
>>> O Próximo
>>> Meu pequeno São-paulino
COLUNAS

Quarta-feira, 6/6/2007
Banville e o mar purificador da memória
Jonas Lopes

+ de 5200 Acessos

Sobre a memória, o maior especialista literário no assunto, Marcel Proust, disse ser uma loja em cuja vitrine estão expostas sempre as fotografias de uma única pessoa, a última. Para o escritor francês, aliás, em uma frase bastante reproduzida por aí, a verdadeira viagem do descobrimento não consiste em buscar novas paisagens, mas em ter novos olhos. Essas sábias lições são seguidas por Max Morden, narrador de O mar (Nova Fronteira, 2007, 222 págs.), romance do irlandês John Banville que saiu há pouco tempo no Brasil. E já chega coroado com o Booker Prize de 2005, vencido em uma disputa contra autores consagrados como Kazuo Ishiguro (Não me abandone jamais), Salman Rushdie (Shalimar, o equilibrista) e Julian Barnes (Arthur & George).

Max é um crítico de arte que acaba de perder a esposa para um câncer repentino e fulminante, que a devorou em menos de um ano. A tragédia abala o seu cotidiano, até então sossegado com a tranqüilidade de um casamento normal. Sob protestos da filha Claire, resolve se mudar para a cidade litorânea onde costumava passar os verões com os pais na infância. Sem grandes condições financeiras para bancar a estadia em hotéis, a família Morden se hospedava em pequenos chalés. Até que em certo ano Max conhece a família Grace, então hospedada em Os Cedros, uma espécie de pousada à moda antiga.

Décadas depois, Max, viúvo, aluga um quarto n'Os Cedros e tentar exorcizar a morte da esposa, mas principalmente para lembrar dos detalhes daquele verão tão estranho com os Grace. Era ainda uma criança. Apaixonou-se primeiro pela mãe, Mrs. Grace, e depois pela filha pré-adolescente, Chloe. Completam a família o misterioso Mr. Grace e o irmão gêmeo de Chloe, o mudo Myles. Os Grace são uma influência-chave na formação do jovem Max, uma presença tão forte que não são poucas as vezes em que mais parecem um exercício de memória do que uma presença real. Como que fantasmas criados por um senil, sentado em uma poltrona velha, em uma casa mais velha ainda, à espera de algo que tenha a cara da morte.

Fiel às teorias proustianas, Banville coloca em seu narrador novos olhos para investigar o passado. O narrador bem que tenta negar isso ao afirmar que "a memória não gosta de movimento, preferindo manter as coisas estáticas (...) como se fosse um quadro". Manter as coisas estáticas é tudo o que Max Morden não faz. Ele idealiza situações e pessoas, condena outras; pelo filtro difuso de sua lente, o passado retorna de uma maneira um tanto enviesada, trazido pelo mar com gosto de modorra, embora um tanto otimizado. "Na infância, a felicidade era diferente. Era muito mais uma simples questão de acumulação, de conseguir coisas - novas experiências, novas emoções - e ir aplicando todas elas". O passado, sob a pena de Max, parece sempre distorcido de modo que o favoreça. Vê defeitos em todos: a sua filha solteirona, que ele acredita ser virgem, a dona da pousada, mofando na frente da televisão e ao piano, o general que também se hospeda em Os Cedros e parece tão solitário e negligenciado. Todos defeituosos.

Podemos culpá-lo por escolher esse caminho para expiar sua dor? Porque o mergulho que o crítico faz rumo ao passado, ainda que um passado desvirtuado, nada mais é do que uma fuga. Diz ele: "o passado representa um refúgio para mim: corro ao seu encontro, na maior ansiedade, esfregando as mãos, tentando me livrar do frio presente e do futuro mais frio ainda". E então, Max, como em muitas outras situações de O mar, se contradiz, ao tentar condenar o passado que acabava de celebrar: "mas, apesar de tudo, que existência tem, na verdade, esse passado? Afinal, ele é apenas o que o presente foi tempos atrás; o presente que passou". Sua própria filha lhe acusa de viver no passado.

Além da dor, Max foge para o passado em busca de paz na consciência. Com a morte chegando, ele finalmente descobriu tudo aquilo que é. Um pai ausente e grosseiro, um marido que, se não o pior, esteve longe de ser melhor, um acadêmico medíocre, um filho egoísta, que pensava nos próprios pais "encobrindo a minha visão do futuro". Imerso em tanta amargura, a única forma de anular o sofrimento é escapar para tempos em que ainda possuía a salvaguarda da infância. Tempos em que os passeios e atividades com a família Grace soavam como um prenúncio de uma vida adulta, porém ainda sem as responsabilidades que ela acarreta - responsabilidades nas quais ele viria a falhar miseravelmente. Como no romance inteiro, os Grace sofrem a interferência da memória, e apenas o narrador, no alto de sua fantasia, não parece notar o quanto aquela família tinha de inócua. Trata-se de uma narração não-confiável, passível de erros, esquecimentos e manipulações.

O relato de Max Morden é amparado pela prosa um tanto particular de John Banville. Uma prosa que deve ser tida por muitos como ultrapassada. Foi-se o tempo, afinal, em que ser um estilista era garantia de qualidade. "Arte não é nada sem a forma", garantia Flaubert. Remetendo bastante a Proust, Henry James e Nabokov, as longas, pictórias e adjetivadas sentenças do irlandês mais parecem pincéis em ação. Às vezes os pincéis exageram na tinta e nos reparamos com frases esquisitas como "o branco recoberto por um verdadeiro craquelê de veiazinhas de um vermelho vivo" ou "linda testa abaulada", sem falar de adjetivos démodé como "amilscarada" e imagens como "cheiro de queijo" e "porcelana da parte de trás dos seus joelhos". Impossível negar, todavia, a excelência verbal de Banville, impecável no domínio de cada lampejo de raiva, cada pausa imprevista, cada digressão impregnada de referências e de esquinas pouco iluminadas no monólogo de seu protagonista. O autor não se importa em erigir sua história com a paciência de gotas que caem lentamente após o chuveiro ser desligado. Uma prosa barroca, um tanto deslocada em tempos de textos com estilo de roteiro de cinema...

Tentativa desesperada de aplacar o sofrimento da perda e do arrependimento, O mar é também um pedido de desculpas de um homem para consigo próprio, tentando colocar-se a postos para esperar a morte. E ao mesmo tempo em que o mar deixa em Max um gosto de maresia lembrando-o dos riscos de seu mergulho no passado, o fluxo da água o redime e carrega seus erros e violações morais. Ele agora está pronto, seja lá para o que vier depois da vida.

Para ir além






Jonas Lopes
São Paulo, 6/6/2007


Quem leu este, também leu esse(s):
01. Caindo as fichas do machismo de Marta Barcellos
02. Fragmentos de Leituras e Sentido de Ricardo de Mattos
03. Diálogos no Escuro de Heloisa Pait
04. Notas sobre a Escola de Dança de São Paulo - II de Elisa Andrade Buzzo
05. Ah!... A Neve de Marilia Mota Silva


Mais Jonas Lopes
Mais Acessadas de Jonas Lopes em 2007
01. O melhor do jazz em 2007 - 25/12/2007
02. Auster no scriptorium - 26/3/2007
03. Uma (selvagem?) celebração literária - 23/1/2007
04. A morte do homem comum - 30/10/2007
05. Banville e o mar purificador da memória - 6/6/2007


* esta seção é livre, não refletindo necessariamente a opinião do site



Digestivo Cultural
Histórico
Quem faz

Conteúdo
Quer publicar no site?
Quer sugerir uma pauta?

Comercial
Quer anunciar no site?
Quer vender pelo site?

Newsletter | Disparo
* Twitter e Facebook
LIVROS




GIBI EDIÇÃO MARAVILHOSA Nº 89 - CANGACEIROS ( EBAL-1ª SÉRIE-1954
JOSÉ LINS DO REGÔ
EBAL
(1954)
R$ 50,00
+ frete grátis



LAGARTAS ESPERTAS - COL. SURPRESAS COLORIDAS
WENDY MCLEAN & DEE TEXIDOR
TODOLIVRO
(2005)
R$ 25,00



A CIDADE ILHADA
MILTON HATOUM
COMPANHIA DAS LETRAS
(2009)
R$ 15,00



A ARTE CAVALHEIRESCA DO ARQUEIRO ZEN
EUGEN HERRIGEL
PENSAMENTO
(1979)
R$ 19,87



A LEI DE MURPHY SEGUNDA PARTE
ARTHUR BLOCH
RECORD
(1997)
R$ 10,00



ABBA - QUANDO A VIDA É UMA FESTA!
ABBA
ESCALA
(2012)
R$ 15,90



O MONTE CINCO
PAULO COELHO
OBJETIVA
R$ 4,90



O BRASIL DOS SERTÕES
ALEXANDRE BARROSO
DUNAS RACE
(2016)
R$ 5,40



ADOLPHE MONOD'S FAREWELL
OWEN THOMAS - TRANSLATOR
THE BANNER OF TRUTH
(1962)
R$ 35,00



HISTÓRIAS DE VIDA
LOUISE L. HAY
MADRAS
(2012)
R$ 17,50





busca | avançada
14361 visitas/dia
954 mil/mês