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Terça-feira, 31/7/2007
Vestibular, Dois Irmãos e Milton Hatoum
Marcelo Spalding

+ de 18900 Acessos

Confesso que este título é uma isca para vestibulandos, mas é também uma lista dos assuntos que pretendo abordar a seguir, em ordem inversa. Isso porque a UFRGS, maior universidade pública do meu Estado, pela primeira vez colocou em seu concorrido vestibular obras de autores ainda vivos como leituras obrigatórias; no caso, o já esperado gaúcho Luiz Antônio de Assis Brasil e aquele que tem se consolidado como grande nome da literatura contemporânea brasileira, Milton Hatoum.

Leitura obrigatória de vários vestibulares importantes, como os da UFSC, UFMS e UFAM, o manauara Hatoum conseguiu um feito incrível ao ganhar três prêmios Jabutis (o mais importante da literatura nacional) com os três romances que publicou, Relato de um certo Oriente, sua estréia, em 1989; Dois Irmãos, em 2000, e Cinzas do Norte, em 2005. É como um ator estrear ganhando o Oscar e nas suas duas atuações seguintes vencer o prêmio novamente. Tal reconhecimento, aliado a uma postura acadêmica ativa e produtiva, com diversas palestras proferidas e artigos publicados no Brasil e no exterior, abriu caminho para o reconhecimento canônico de um contemporâneo e levou-o ao seleto panteão de autores obrigatórios nos vestibulares.

Dos seus romances, Dois Irmãos é o mais estudado e citado, pois aqui o autor aprofunda a temática e a forma de sua estréia, mas não deixa a história tão fragmentada e elíptica como em Relato de um certo Oriente, facilitando assim sua assimilação pelo leitor médio. Nael, filho da empregada de uma família importante, conta a história de dois irmãos de personalidades opostas e ódio inevitável, Yaqub e Omar (tema, aliás, já explorado por Machado de Assis em Esaú e Jacó). Mas a narrativa, que aparentemente se centra na rivalidade entre os irmãos, mostra-se aos poucos uma história complexa, uma última tentativa de Nael descobrir a identidade de seu pai, pois, como o leitor vai descobrindo ao longo da história, a mãe de Nael, Domingas, era apaixonada por Yaqub, mas fora abusada pelo inconseqüente Omar, privando o filho, o narrador, da certeza sobre suas origens, se fora o amor ou o abuso, o irmão ambicioso e trabalhador ou o rebelde e violento.

A questão da busca pela identidade, aliás, é tema central em Dois Irmãos, em toda a obra de Hatoum e em boa parte da literatura brasileira contemporânea, tornando-se uma questão potencial nestes vestibulares de "xizinhos". Mais do que tentar descobrir quem é seu pai, Nael busca descobrir-se, encontrar seu lugar no mundo assim como seus patrões imigrantes tiveram de se adaptar numa nação distante e desconhecida, deixando atrás desse esforço um rastro de incompreensão, mágoas e saudades. A estratégia para reconstruir essa identidade é a memória; já no primeiro capítulo do primeiro livro de Hatoum lê-se a frase “a vida começa verdadeiramente com a memória” e, de fato, é a memória que inaugura e guia a narrativa. A memória e seus desencontros, suas lacunas, sua atemporalidade.

Se em Dois Irmãos o narrador é sempre Nael, em Relato de um certo Oriente e em Cinzas do Norte temos diversos narradores além do principal, narradores que se alternam nos capítulos, tornando os livros mosaicos de vozes que ajudam o leitor a compor as histórias e os narradores a reconstruirem suas memórias e suas identidades. Nestes dois livros, como em Dois Irmãos, o espaço é a Manaus da metade do século XX e o cenário dos acontecimentos é o seio de uma família importante, em geral endinheirada, mas decadente, onde há presença do casal e dos filhos numa relação sempre conflituosa: ou irmãos se odeiam, como em Relato... e Dois Irmãos, ou pai e filho não se suportam, como em Cinzas do Norte.

É interessante notar ainda que no final de Dois Irmãos há uma cena em que tanques do exército tomam a praça central de Manaus, numa clara alusão ao Golpe Militar que inaugurava ali um novo tempo, mas a questão política passa ao largo deste romance para surgir com força em Cinzas do Norte, onde o protagonista, Mundo, é um jovem rico e subversivo, apaixonado por arte e sufocado numa família e num espaço opressores (não apenas a Manaus decadente da segunda metade do século como também o Brasil ditatorial, com seus patriarcas e majores com poder absoluto).

Trazendo a questão política para dentro do romance, em Cinzas do Norte o romancista também deixa mais evidente a questão social, a desigualdade e a problemática sociais, já presentes em seus primeiros livros. Ainda que em Dois Irmãos não haja ímpetos revolucionários, Nael diz que Domingas, sua mãe, “trabalha como uma escrava” e chega a expressar a angústia de não poder nem tirá-la daquele ambiente nem mudar sua vida, preso àquelas amarras sociais em que o capricho dos patrões dita os rumos da vida dos empregados:

“[Quando eu pensava em fugir] a imagem da minha mãe crescia na minha cabeça, eu não queria deixá-la sozinha nos fundos do quintal, não ia conseguir... Ela nunca quis se aventurar. 'Estás louco? Só de pensar me dá uma tremedeira, tens que ter paciência com a Zana, com o Omar, o Halim gosta de ti.' Domingas caiu no conto da paciência, ela que chorava quando me via correndo e bufando, faltando aula, engolindo desaforos.”

Por fim, aos vestibulandos que agora lêem resumos ou o romance de Hatoum em si, posso apenas lembrar que o romancista, em linha com os escritores contemporâneos, explora bastante o não dito, a indeterminação e as múltiplas interpretações que a arte permite, não sendo tão fácil fazer afirmações sobre a obra literária como o é para fórmulas matemáticas. Ainda assim, como diria Umberto Eco, é possível inferir nos textos coisas que eles não dizem explicitamente, mas não se pode fazê-los dizer o contrário do que disseram, como, por exemplo, negar que Romeu se matou porque pensou que Julieta estava morta, e vice-versa. Ou seja, deixe-se levar pela história de Hatoum, converse com colegas e professores sobre os acontecimentos e, mesmo dando margem para várias possibilidades, descarte o quanto antes hipóteses que lhe parecerem absurdas e prefira sempre o que está dito do que a suposição. No caso de Dois Irmãos, por exemplo, e aqui conto o final do livro, não está dito que o pai de Nael é Omar. Talvez esteja sugerido, mas não está dito. E se nem o narrador tem a certeza, como poderíamos tê-la nós, os leitores?

Para ir além






Marcelo Spalding
Porto Alegre, 31/7/2007

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