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COLUNAS

Sexta-feira, 19/10/2007
Um aborrecimento e uma surpresa
Rafael Rodrigues
+ de 1300 Acessos

Um livro pode muito bem ser uma obra excepcional para um leitor, mas ser um grande aborrecimento para outro. Talvez seja esse o caso de Correio Litorâneo (Record, 2007, 80 págs.), de Nereu Afonso da Silva. Vencedor do Prêmio Sesc de Literatura 2006 na categoria Contos, a obra teve um bom número de críticas favoráveis (além de ter passado pelo crivo da comissão julgadora do Prêmio). Com um histórico desses, pensei, o livro só pode ser bom. Mas não é.

Correio Litorâneo não tem boas histórias, nem é um livro divertido de ser lido. É, não se pode negar, um livro bem escrito, mas nada mais do que isso. O fato de ter um texto enxuto e fluido não garante a qualidade de uma obra. Além de forma, há de se ter conteúdo, justamente o que menos se vê nos contos de Nereu Afonso da Silva.

Afinal, o que há de reflexivo ou, sem querer cobrar tanto, divertido, em um conto como "Úngaro dos Passos", que narra a história de um garoto que, por pura peraltice, rouba um peixe na feira e, depois de apanhar do pai por isso, foge de casa, torna-se um ladrão e é enterrado como um santo? Mesmo caso é o do conto "Amarelinho, amarelinho", história de um vigarista que engana toda uma cidade dizendo ser rico, mas no momento não tem dinheiro algum, pois aguardava uma grande quantia ser transferida para sua conta bancária. Uma espécie de Zé Carioca, mas ao menos o Zé era engraçado. O vigarista do conto, nem isso. Nereu Afonso simplesmente narrou uma história batida, por demais conhecida (lendas assim existem aos montes). Não arriscou nem na forma do conto.

Outro conto que poderia ter um efeito bem melhor do que o alcançado(?) é "Um buraco na tarde". Bastava mudar o morto da história e retirar as onomatopéias (presentes em outros contos do livro), totalmente desnecessárias.

Há ainda o agravante de as histórias narradas nos contos terem dado origem a reportagens de um jornal chamado Correio Litorâneo. Um gancho que poderia ter sido melhor aproveitado – ou dispensado, já que não acrescenta nada ao livro, do jeito que foi utilizado.

* * *

Pouco praticada no Brasil, a prosa poética (ou poesia em prosa, como preferir) pode causar estranhamento ao leitor acostumado à prosa tradicional. O texto é escrito em forma de prosa, mas sua construção é um pouco mais complexa, mais cuidadosa. A escolha das palavras é feita como nos poemas, com um rigor um pouco maior que o da prosa pura. Definir a prosa poética não é a intenção deste texto, mas é necessário um breve divagar: na prosa tradicional, há espaço para imagens poéticas, é claro. Mas nenhum prosador, por melhor que seja, escreve um texto inteiramente ritmado, cadenciado. Do mesmo jeito que um poema não pode ser totalmente livre, por mais livre que ele seja. Um verso não pode ter três, quatro linhas. Se tiver, já não é poema, é poesia em prosa (ou prosa poética).

E, se já não é fácil escrever boa prosa, fazer poesia de qualidade parece ser ainda mais difícil. O que dizer, então, de um autor que escreve um romance em prosa poética (ou poesia em prosa)? No mínimo, que ele é ousado. Os mais conservadores o chamariam de louco. Casa entre vértebras (Record, 2007, 224 págs.), vencedor do Prêmio Sesc de Literatura 2006 na categoria Romance é o livro, e Wesley Peres é o seu autor.

O louco, na verdade, pode ser o protagonista do livro, um homem solitário, que passa os dias escrevendo e fazendo anotações para si mesmo e redigindo rascunhos de cartas para uma mulher sem nome, que em determinado momento resolve chamar de Ana.

As cartas, ou rascunhos, falam sobre a solidão vivida pelo protagonista, sobre sua infância, sobre seus medos, sobre o amor e sobre o ato da escrita. O homem que escreve parece viver num constante estado de melancolia e aflição (ou frustração?), por causa de sua solidão. Não se sabe se essa solidão é eventual, resultante de escolhas (se certas ou erradas, não importa, nem há espaço para tal questionamento, no livro) do protagonista ou se de algum problema psicológico (em algumas passagens o personagem parece ter perdido a razão). O que se sabe é que é um homem complexo, tentando conviver com seus demônios e manter-se vivo (talvez seja esse o motivo que o leva a escrever).

Muito do que um autor pode realizar com um livro depende do personagem que ele escolhe para protagonizá-lo. E o protagonista de Casa entre vértebras dá a Wesley Peres toda a liberdade necessária para criar o que bem entender, desde aliterações a neologismos, mas sem cair no exagero de "inventar uma nova linguagem". É muito mais um "brincar com as palavras". Wesley Peres caminha bem distante dos imitadores de Guimarães Rosa e James Joyce. Fica mais próximo dos seguidores (no bom sentido) de Fernando Pessoa e Franz Kafka.

Casa entre vértebras é uma obra intrigante, porque não se tem absoluta certeza do que se passa com o protagonista, e instigante, porque "cada uma das palavras escritas se endereça a uma outra palavra da mesma carta" e, como uma carta leva a outra, todas têm uma ligação e cada uma delas revela um pouco do personagem.

É um livro ambicioso, sem ser pretensioso. Uma obra que merece ser lida e relida com a atenção e, paradoxalmente, com o descompromisso que só os bons livros merecem e sabem ter.

Para ir além









Rafael Rodrigues
Feira de Santana, 19/10/2007

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