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Quinta-feira, 11/10/2007
Meus discos, meus livros, e nada mais
Adriana Carvalho

+ de 4300 Acessos

O que faço com os discos de vinil? Na casa nova não há espaço para guardá-los. Nem tenho toca-discos, só uma caixinha com uma agulha antiga. Mas é doloroso pensar em me desfazer deles. Alguns são amigos de infância, como este que traz na capa a Emília do Sítio do Pica-Pau Amarelo, vestida de noiva. Os da coleção Disquinho, que eram os meus preferidos, já se perderam faz tempo. Assim como a vitrolinha portátil azul e só minha. Adorava aqueles que eram coloridos: azuis, roxos. Dava vontade de morder. Ouvi até quase furar o da Estória da Baratinha, com fita no cabelo, dinheiro na caixinha, abandonada no altar pelo Dom João Ratão, aquele que caiu na panela do feijão. Felizmente os disquinhos foram relançados em CD e já tenho todos em MP3.

Eu ouvia os discos dos adultos também. Um dos meus preferidos era este aqui, com a orquestra filarmônica de Berlim interpretando Claude Debussy, Modest Mussorgsky e Maurice Ravel. Colocava para tocar e viajava na ilustração da capa enquanto imaginava histórias para os sugestivos títulos das peças do compositor russo: A cabana de Baba Yaga sobre pés de galinha, A grande porta de Kiev e O velho castelo. O Bolero de Ravel também me cativava, deixando Debussy para escanteio.

Aqui está um disco da Maria Bethânia, o Pássaro da Manhã, com a capa toda rabiscada de caneta. Na foto, as lágrimas borram a maquiagem da cantora e eu me lembro de, bem pequena, perguntar: "Vó, por que essa moça está chorando?", e dela, na falta de explicação melhor, responder: "Porque ela é muito feia". Outra capa da Bethânia que me impressionava era uma ilustração dela com um monte de bichos e insetos subindo por seus seios e mãos (Recital na Boite Barroco). Eu confesso que ela não estava entre meus preferidos da MPB. Até que fui ouvi-la em um show: ela é uma entidade sobrenatural no palco. Um monumento de voz. Não há como negar. Quem eu amava (e amo ainda) de verdade era o Chico Buarque. Pedia para ouvir os discos do "tio Chico" e achava que ele era meu tio de verdade. Quem dera...

Antes mesmo dos discos, quem primeiro se mudou para a casa nova foram os livros. Montanhas deles. Responsáveis pela falta de pragmatismo na hora da arrumação. Olho um por um, paro para ler um trecho. Assim não vou terminar essa mudança nunca. Fico orgulhosa de ver que já temos uma biblioteca razoável. Se eu fosse uma pessoa metódica e organizada, poderia até colocar plaquinhas nas prateleiras para dividir os assuntos: dicionários, literatura brasileira, literatura estrangeira, psicologia, economia, música, artes plásticas, quadrinhos e miscelânea. Se eu fosse.

Entre os pequenos tesouros está o volume autografado de O banqueiro dos pobres, de Muhammad Yunus, ganhador do prêmio Nobel da Paz em 2006. É o economista que desceu dos pedestais da academia para para constatar a velha máxima que diz que, na prática, a teoria é outra. Por essa disposição de espírito, conseguiu criar um sistema realmente inovador e eficiente de crédito para aqueles que mais precisam dele.

Na categoria miscelânea estão pérolas como Livro da Sabedoria, de Pedro de Lara, "presente" que dei para meu marido acompanhado de um autógrafo do autor em um folheto das casas Marabraz, no qual ele fez questão de acrescentar os dias ideais para eu engravidar(!), números da sorte e uma recomendação para obter desconto na loja de móveis. "O filho, quando não presta, é espermatozóide estragado", é uma das frases do livro. Pedro de Lara, que faleceu no último 13 de setembro, circulava no centro velho de São Paulo, onde eu trabalho. Sentava para conversar e tomar tubaína com os estudantes da faculdade de música que almoçam prato feito em uma lanchonete da região, arrumava caso nas filas de banco, na farmácia, mas era muito bem humorado. Um colega de trabalho certa vez revelou que começou na profissão escrevendo falsas cartas de ouvintes relatando "sonhos" que eram interpretados no rádio pelo humorista, jurado do Sílvio Santos, ator de pornochanchadas e professor Salsi-Fufu do programa do Bozo.

Em retribuição ao meu "presente", ganhei um CD autografado do Agnaldo Timóteo que, trajando ternos de cores, digamos, pouco usuais, ainda faz ecoar sua voz nos corredores da Câmara Municipal de São Paulo, onde é vereador. Ainda na categoria miscelânea está o Método Silva de controle mental, um clássico da auto-ajuda que a meu ver merece nota 5 em uma escala de 1 a 5 para avaliação de bizarrices. Foi também "presente", dessa vez de nosso amigo Ernesto, que teve a pachorra de ligar de Londres certa manhã-madrugada só para dizer que havia descoberto qual é o único alimento que encaixa na boca do Darth Vader: chocolate Toblerone.

Olhar meus livros me angustia quando dou conta da enorme fila de títulos que ainda esperam para ser lidos. Se eu tivesse espírito matemático, montaria uma estatística de volumes na estante versus volumes já lidos para observar a trajetória do indicador ao longo do tempo e verificar se minha capacidade de leitura está crescendo ou diminuindo. Mas tenho certeza que está diminuindo, infelizmente, dado que o tempo diário disponível para a atividade não ultrapassa a viagem de ida e volta de metrô casa-trabalho-casa, ao contrário de quando eu era adolescente e podia passar algumas tardes largada com os livros.

O primeiro da minha fila, porém, sumiu na mudança, misteriosamente. O homem e seus símbolos, de Carl G. Jung, não estava em nenhum dos pacotes de livros. Abri um por um com a certeza de que estaria no último só porque eu o estava procurando e a lei de Murphy é poderosa. Mas nem no último estava. O que me fez lembrar uma frase do Barão de Itararé: "De onde menos se espera é que não sai mesmo coisa nenhuma". Paciência, o jeito é procurar mais e eleger um substituto enquanto ele não aparece. Será que finalmente vou preencher algumas das lacunas da minha formação cultural e atacar Grande Sertão: Veredas? Ulisses, de Joyce, acho que ainda não é o momento. Coloquei-o no fundo da estante, o que é uma ótima desculpa para não pegá-lo. Vejo livros que foram grandes paixões e penso em relê-los, como alguns volumes de contos de Tchekhov, outros de Cortázar. Mas penso economicamente, porque dedicar tempo à releitura quando há tanta leitura ainda para ser feita. Analiso também a possibilidade de terminar grandes títulos que comecei, amei e não sei porque larguei, como o Decamerão. Bom, terei que decidir isso depois. Ainda temos uma pia para consertar, todos os móveis para transportar, pintura para fazer. Enfim, os outros detalhes menores da mudança.


Adriana Carvalho
São Paulo, 11/10/2007


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