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COLUNAS

Quarta-feira, 24/10/2007
Concerto Campestre, um clássico contemporâneo
Gabriela Vargas

+ de 5700 Acessos
+ 2 Comentário(s)

Todo ano, na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), são adicionados quatro novos livros à lista de leituras obrigatórias, com o total de doze leituras. Durante a divulgação das quatro obras escolhidas para o vestibular de 2008, eis uma surpresa muito grande e inovadora: entre os quatro autores escolhidos, três são vivos.

Os autores em questão são Milton Hatoum, autor manauense, que participa com seu célebre romance Dois Irmãos, vencedor do prêmio Jabuti em 2000, Lygia Fagundes Telles com Antes do Baile Verde, uma reunião de suas melhores crônicas entre os anos de 49 e 69, e o tão conhecido escritor gaúcho, exímio incentivador da cultura no Rio Grande, Luiz Antonio de Assis Brasil, com a obra Concerto Campestre (L&PM, 2007, 176 págs.).

Meu amigo, conterrâneo e colega aqui no Digestivo, Marcelo Spalding, fez uma excelente resenha sobre o livro Dois Irmãos. Então, como este ano enfrentarei o terrível vestibular, tive a idéia de fazer uma resenha sobre um dos outros livros em questão, Concerto Campestre e, de certa forma, ajudar meus concorrentes vestibulandos e tentar acabar com aquele mito de que todas as leituras obrigatórias têm de ser chatas e penosas. Muito pelo contrário, Concerto Campestre é um livro de leitura rápida que flui naturalmente.

O livro narra a história do Major Eleutério de Fontes, dono de uma estância nos pampas gaúchos que, já velho, descobre o prazer pela música ao ouvir dois índios tocarem rabeca e guitarra espanhola, quando ambos param na sua estância, esfomeados. Antes desse acontecimento, a música, para o Major, “era divertimento de borrachos e putas”. E não somente para ele, mas para toda a sociedade preconceituosa da época. Porém, depois desse acontecimento, o Major se entrega sem pestanejar ao prazer da arte e começa a contratar músicos que aparecem na sua estância aos montes, após estes saberem do abrigo que o major está oferecendo em troca de, nada mais, nada menos, que música, boa música.

Como é de se prever, a vinda de tantos músicos para a estância acaba trazendo uma grande desordem, pois aqueles homens ficam lá como uns vagabundos, comendo e bebendo de graça e não se organizam para tocar. Então, quando o major comenta com o vigário (sim, toda história dessa época que deseja chegar perto da realidade, tem que ter um padre, ou algo do gênero), este lhe dá a idéia de se contratar um maestro que mora na cidade e precisa de um lugar pra ficar, depois de ter se metido em confusões com mulheres. O major logo aceita e o maestro vai para a estância.

Um fato relevante nesse momento é que o Major tinha uma filha, chamada Clara Vitória, que estava na idade de casar, pelo menos naquela época. Sua mãe, Dona Brígida, fazia votos de que ela se casasse com um rapaz direito, de família, e tinha grande preferência pelo Silvestre Pimentel, sobrinho de um rico estancieiro de terras vizinhas, mas do qual Clara Vitória não gostava porque o homem por quem ela caiu de amores – e, como na maioria dos clássicos, um amor proibido – foi o maestro.

“Os filhos dos estancieiros a volta afirmavam que morreria virgem, pois ninguém teria a audácia de macular aquela inocência angélica – e casavam-se com as outras. A ela não mais importavam esse juízos levianos, nem esses matrimônios de varejo: se havia algo de certo na vida, que a empolgava até latejarem as têmporas e doerem os ossos, fazendo com que perdesse a fome e até a palavra, era a sua paixão pelo Maestro.”

A história passa então a falar sobre o desenrolar do amor intenso e proibido que se dá entre Clara Vitória e o Maestro, e a forma como esse sentimento vai aumentando após cada encontro escondido, na calada da noite, quando os dois se amavam loucamente e o perigo que isso trás para o casal por causa da sociedade conservadora e rígida da época.

O livro se torna a cada página mais fascinante, trazendo muitas surpresas. Ficamos tão obcecados por saber o que irá acontecer no final, que é difícil largá-lo. Assis Brasil consegue tratar de um tema tão comum – o amor – de uma maneira nada banal.

Concerto Campestre faz jus ao nome, abordando muito a questão musical ligada ao social. Por exemplo, como a orquestra do Major passa a ser importante na região e o status que isso acaba por trazer para a sua família. Essa questão me faz lembrar quase inconscientemente dos mecenas do Renascimento, que incentivavam a arte com o seu dinheiro e, em troca disso, ganhavam grande reconhecimento por parte da sociedade. E é mais ou menos o que acontece com o Major; porém, ele incentiva a música não pensando nos benefícios que isso pode lhe trazer, mas o faz por prazer, porque realmente descobre o gosto pela música.

Assis Brasil consegue tornar este um livro encantador por tratar sobre uma orquestra e ao mesmo tempo misturar sentimentos comuns a qualquer indivíduo, humanizando a música, a arte. Esse é um livro que realmente vale a pena ser lido, não apenas pelos vestibulandos, mas por todos que gostem de boa literatura. Foi excelente a iniciativa da UFRGS de colocar autores vivos na lista, pois mostra que estes, por serem contemporâneos, não são menos competentes que os clássicos. São apenas estilos e épocas diferentes.

Para ir além






Gabriela Vargas
Porto Alegre, 24/10/2007

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COMENTÁRIO(S) DOS LEITORES
28/10/2007
18h31min
Parabéns Gabriela! A resenha está muito boa. Faz quem ainda não leu este livro sentir vontade de saber o desenrolar da história. Abraços, Jéssica.
[Leia outros Comentários de Jéssica Almeida]
13/4/2009
19h37min
A resenha consegue definir bem o livro: fascinante. A forma como a história se desenvolve é muito envolvente e o final é lindo. Um dos melhores livros que já li.
[Leia outros Comentários de Simone]
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