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COLUNAS

Sexta-feira, 28/9/2001
Corpos
Orlando Tosetto Junior

+ de 3100 Acessos

Não vou falar de cinema. É verdade que parecia; é verdade que lembrava. Mas tanto pareceu, e tantos se lembraram, que tudo bem. Não, nada de cinema.

Não vou falar de culpas. Todos as têm. É bom que a gente saiba que a inocência acaba no primeiro berro, e depois só faz é descascar ao longo da vida. Por detrás de cada par de olhos se esconde um tudo; e Hamlet dizia... não, Hamlet dizia coisas muito tristes. Todos têm culpa, fiquemos assim, que assim é que é.

Não vou falar de dor. Coisas acontecem que nos fazem pensar, ou lembrar, que a dor é mais ou menos constante; é pano de fundo. Coisas acontecem para mitigá-la, obliterá-la por instantes, fazer com que a esqueçamos. Mas ela está lá; vem junto com o primeiro pensamento. Não vou falar de dor porque estamos todos perdidos e confusos, e o número de nortes é infinito como o de narizes. Pobres narizes infelizes.

Não vou falar de horror. Outro que, pensando bem, deita na cama conosco. Outro que nasce com o entender. Outro que não tem explicação, ou tem todas; outro que pede todo o silêncio possível.

Não vou falar de choque. De épater a burguesia, que parecia, a esta altura, incapaz de se chocar. Não falo do infinito poder do choque. Do que é levar uma paulada na cabeça, do que é, de novo e de novo, o poder explosivo de compreender.

Não vou, portanto, falar da maldição do entendimento.

Vou falar de morte. De mortos. De cadáveres. De gente explodida, queimada, esmagada, com membros decepados. Falar de sangue espalhado, de tripas, de pedaços de carne grudados em pedrinhas, de vergalhões espetados no peito, de pulmões cheios de pó. De órbitas vazadas, de fezes, de urina tinta de vermelho, de bexigas ao vento. De seios estourados, mechas de cabelos balançando como anêmonas, de um sorriso grudado a uma laje. De fedor, de ossos, de um sapato solitário apoiado sobre um parapeito. Da fina gordura branca fazendo um traço na areia. De anéis amassados, esmalte ameixa sobre pedaços soltos de unhas, um colar desfeito. De perfume besuntando tijolos caídos. De gumex, henna, cílios postiços que flutuam como dentes de leão.

Falo de gente morta, da coisa horrível que é gente morta. Pessoas lado a lado como estátuas, etiquetas amarradas nos dedos que restaram, formol, clarinadas, bandeiras e serviço religioso. A coisa simples e auto-resolvível que é uma pessoa morta. Muitas, muitas, muitas pessoas mortas.

Não falo de piedade, de reconhecimento, de revolta, de indiferença. Falo só de mortos. Muitos e muitos mortos. Vamos esquecê-los depressa, trocá-los por outras coisas, eleger símbolos, guardar imagens: uma torre explodindo ou desabando, um avião desgovernado. Nem sempre nos lembraremos da morte física, dos corpos, dos cheiros. Não nos lembraremos do que não vimos.

Repentinamente descolados dos nossos umbigos, voltaremos. No dia-a-dia, nossos horrores são outros. E cada corpo, cada morto novo, em vez de ser uma lembrança, será sempre uma surpresa. Porque ninguém se lembra de cadáveres.

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Orlando Tosetto Junior
São Paulo, 28/9/2001


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