Auto-ajuda empresarial: reunite crônica | Ana Elisa Ribeiro | Digestivo Cultural

busca | avançada
29464 visitas/dia
1,1 milhão/mês
Mais Recentes
>>> Pixel Show promove gratuitamente exibição do documentário "The Happy Film"
>>> Inédito no Brasil, espetáculo canadense SIRI estreia em novembro no Oi Futuro
>>> Antonio Nóbrega apresenta show comemorativo pela passagem dos 25 anos do Instituto Brincante
>>> Visita Temática : Os Múltiplos Tempos da Coleção de Ema Klabin
>>> Chagall é tema de palestra na Casa Museu Ema Klabin
* clique para encaminhar
Mais Recentes
>>> A poesia afiada de Thais Guimarães
>>> Manchester à beira-mar, um filme para se guardar
>>> Noel Rosa
>>> Sabemos pensar o diferente?
>>> Notas de leitura sobre Inácio, de Lúcio Cardoso
>>> O jornalismo cultural na era das mídias sociais
>>> Crítica/Cinema: entrevista com José Geraldo Couto
>>> O Wunderteam
>>> Fake news, passado e futuro
>>> Luz sob ossos e sucata: a poesia de Tarso de Melo
Colunistas
Últimos Posts
>>> Jeff Bezos é o mais rico
>>> Stayin' Alive 2017
>>> Mehmari e os 75 anos de Gil
>>> Cornell e o Alice Mudgarden
>>> Leve um Livro e Sarau Leve
>>> Pulga na praça
>>> No Metrópolis, da TV Cultura
>>> Fórum de revisores de textos
>>> Temporada 3 Leve um Livro
>>> Suplemento Literário 50 anos
Últimos Posts
>>> Olho d'água
>>> A música da corrida
>>> Retalhos da vida
>>> Limbo
>>> Transmutações invisíveis
>>> Quem te leu, quem te lê
>>> Bom dia e paz
>>> O que sei do tempo II
>>> Quem é quem?
>>> Academia
Blogueiros
Mais Recentes
>>> Um monstro que ri
>>> Lições literárias
>>> Fahrenheit 451, Oralidade e Memória
>>> História dos Estados Unidos
>>> Apresentação
>>> Modernismo e Modernidade
>>> Deus ex machina
>>> O assassinato de Herzog na arte
>>> Homenagem a Orestes Barbosa
>>> O lado A e o lado B de Durval Discos
Mais Recentes
>>> O príncipe e o mendigo
>>> Dicionário de Ciências Ocultas 1 e 2
>>> Jonas
>>> O desafio historiográfico
>>> Decifrando o Genoma
>>> O Baudolino
>>> O Império do Sol
>>> Encanto Mortal
>>> A Ilha do Dia Anterior
>>> Ciência Política
>>> O Trabalho Infantil na Cidade de São Paulo
>>> Controlando a Osteoporose
>>> Controlando a Osteoporose
>>> Controlando a Osteoporose
>>> Controlando a Osteoporose
>>> Controlando a Osteoporose
>>> Controlando a Osteoporose
>>> Controlando a Osteoporose
>>> Encantando Totalmente o Cliente
>>> As Vinhas da Ira _ Volume II
>>> Ser Mãe
>>> Sonetos Escolhidos
>>> Sonetos Escolhidos
>>> Nada Dura Para Sempre
>>> Dioniso & Cia. na moqueca do dendê: desejo, revolução e prazer na obra de Jorge Amado
>>> Ciência & Realidade 6ª série
>>> Redação Curso Básico Vol 1
>>> Redação Curso Básico Vol 2
>>> A Conquista da Matemática 7ª Série
>>> Redação Curso Básico Vol 3
>>> Português Através de Textos 5
>>> Português Através de Textos 7
>>> Ciência & Realidade 7ª série
>>> Ciência & Realidade 5ª série
>>> A Conquista da Matemática 6ª Série
>>> Caderno de Português Fundamental 5ª série
>>> Bom Tempo Estudos Sociais Ciências 4
>>> Língua Portuguêsa Vol 4
>>> Descobrindo a Gramática
>>> Português Através de Textos 6
>>> Verdades Fundamentais da Parábola do Rico e de Lázaro
>>> Dificuldades Bíblicas e Outros Estudos Vol. 1 (2ª ed.)
>>> Um rabino conversa com Jesus- um diálogo entre milênios e confissões
>>> Conceitos de crítica
>>> Conceitos fundamentais da poética- (2ª ed.)
>>> Marketing Digital Novas tecnologias & Novos Modelos de Negócio
>>> Excel 2007
>>> Project para Profissionais
>>> O crime do padre Amaro (15ª ed.)
>>> A câmara clara - nota sobre a fotografia (2ª ed.)
COLUNAS

Sexta-feira, 11/4/2008
Auto-ajuda empresarial: reunite crônica
Ana Elisa Ribeiro

+ de 4300 Acessos
+ 1 Comentário(s)

Em mais uma bem-sucedida empreitada de leitura dietética durante as férias, peguei na estante um desses livros que a gente compra por impulso, logo ali, na boca do caixa da livraria, de preferência uma mega-store que não dá ponto sem nó. Os consultores de marketing ensinam direitinho a deixar itens presenteáveis em cima do balcão, bibelôs de todo tipo pelo corredor da fila do caixa e penduricalhos (nem sempre) úteis atrás da atendente. Numa dessas pataquadas consumistas, comprei uma obra da Planeta chamada Aprenda a organizar suas reuniões em uma semana (Planeta do Brasil, 2005, 128 págs.), do dr. Robert F. Miller. Desculpem a minha ignorância infinita, mas não sei se o autor do livro é mesmo doutor (digo, dono de um título conseguido em troca da defesa de uma tese de doutoramento) ou se é algo assim como médico, advogado, engenheiro (que são as carreiras que dão títulos de doutor a não-doutores). Não sei se Miller é PhD mesmo ou se é apelido, mas o livro dele até que é engraçadinho. Boa diversão.

No site da editora, chamam à categoria da obra de "auto-ajuda empresarial". Se eu já vivia dizendo para meus alunos sobre as segmentações do mercado de livros, agora terei mais um item sobre o qual discorrer. A auto-ajuda já veio com seus filhotes. É sabido que a área de administração (de empresas ou de outros tipos) produz muita palestra e consultoria questionável, mas da auto-ajuda específica eu ainda não sabia. Caracterizar palestras sobre marketing ou sobre administração como sérias ou balelas costuma ser muito difícil. O que parece resultado de pesquisa importante pode se tornar, num piscar de olhos, pseudopsicologia de botequim. Dizer o óbvio com uma capa de linguagem emocionante vende bem. Não é exatamente o caso do livro do prof. Miller, mas até que poderia ser.

Aprenda a organizar suas reuniões em uma semana deveria ser um best-seller em algumas empresas e instituições. Meu marido mesmo trabalhava em uma em que a "reunite crônica" acometia todos os coordenadores de núcleos ou de cursos. As pessoas tinham motivos para se reunir em uma sala reservada quase todos os dias da semana. Impressionante.

O livrinho deveria se chamar "Aprenda... em algumas horas", já que a leitura é fácil e fluida. O óbvio está dito lá, de maneira organizada e clara, tornando então, o óbvio, algo mais apreensível. Todo mundo às vezes se pergunta por que alguns países gastam tanto dinheiro com cientistas que descobrem o que todo mundo já sabe. É assim quando o Jornal Nacional ou o Fantástico mostram uma matéria em que os cientistas (normalmente ingleses ou americanos) divulgam um "achado" que estava bem debaixo do nariz de qualquer mortal. Mas, sim, é preciso qualificar, organizar e esclarecer o óbvio. Reuniões, por exemplo, são óbvias, mas como participar de uma que não dê a impressão de perda de tempo não é fácil.

Miller começa o livrinho com citações de Alice no país das maravilhas. A idéia é boa: além de dar à obra de auto-ajuda um vernizinho culto, focaliza uma obra literária em que uma reunião aconteceu entre os personagens. Bacana, não? Deu vontade (juro!) de rastrear, em obras literárias, as reuniões e ver como elas aconteceram. Seria um trabalho interessante, não? Mais adiante, Miller cita um dado da revista Industry Week: a cada ano são desperdiçados 37 bilhões de dólares com reuniões mal preparadas ou mal conduzidas. É claro que aquelas das quais meu marido participava estão aí nesse bolo.

Dicas como convidar as pessoas certas, dizer a elas do que tratará a reunião, enviar material para que se preparem (e já cheguem com propostas, por exemplo), saber ouvir (mais do que falar), utilizar tecnologias auxiliares apenas como "auxiliares", assim como usar a coisa certa no momento adequado, distribuir material pertinente, de tamanho ajustado à reunião e saber "controlar" as pessoas e seus ânimos são importantes e realmente úteis. Pessoas desinteressadas, indivíduos que interferem o tempo todo com propostas idiotas, figuras que entram na sala comendo ou com celulares ligados, chefes que, de outro lado, se mostram apressados e desligados, que saem a todo momento da sala, que resolvem problemas particulares, nada disso deveria acontecer, já que parece óbvio que uma reunião assim não pode ser eficiente.

Trabalhei em várias empresas e fiz parte de todo tipo de cena de reunite. Em uma instituição, havia o dia marcado, periódico e sagrado, para fazer reunião. Mesmo que não houvesse nada para ser dito ou resolvido, era preciso parar o trabalho para a reunião. Lá, não se dizia nada além do repeteco de outras ocasiões. Gastava-se ali uma hora ou duas com assuntos repisados. Além do mais, a questão a ser respondida (o que cada um está fazendo agora?) sempre tinha andado muito pouco, já que o intervalo entre os encontros era curto. Para driblar a falta de bom senso da coisa toda, as pessoas levavam para a sala celulares com joguinhos, bloquinhos de papel para desenhar, trabalhos de faculdade e piadas prontas.

Noutro lugar, a inteligência dos chefes era patente. As reuniões eram anunciadas com alguma antecedência, por uma secretária eficiente que esclarecia sobre o tema do encontro. Cada pessoa logo montava sua pastinha de documentação para ler, mostrar ou distribuir. Sabendo qual era a pergunta, os ensaios de resposta já chegavam adiantados. Mais adiante, um chefe conciso e objetivo (que às vezes beirava o ríspido) fazia perguntas justas e ouvia, atenciosamente, respostas adequadas. Valorizava boas tentativas e cortava falas inapropriadas ou impertinentes. Sem perder a ternura. Saíamos da reunião cheios de sensações: 1. foi rápido; 2. não doeu nada; 3. não atrasou meu serviço; 4. fui importante para esta decisão; 5. Fulano é mesmo muito inteligente; 6. ainda bem que eu soube disto hoje; 7. pensarei em uma proposta melhor para a próxima reunião.

Houve uma empresa em que trabalhei que jamais fazia reuniões. Ninguém tinha visão do todo, uns não sabiam o que os outros estavam fazendo, mesmo quando trabalhavam lado a lado. As comunicações eram feitas sempre em reuniões individuais com o chefe, que centralizava tudo e não tornava aquelas pessoas um time. Complicado, não? Mas era assim que era. Foi nessa mesma empresa que nos chamaram certa vez para uma reunião de demissão coletiva. Quebradeira total.

Numa escola de ensino superior, fazer reuniões era sinal de eficiência. Ao menos era o que parecia. Coordenadores de curso vinham com desrespeitosas reuniões de última hora em que nada era dito. Na maior parte das vezes, informações que poderiam ser dadas por circulares (impressas ou virtuais) eram divulgadas em custosas reuniões lotadas, em que as pessoas estavam ali notoriamente sob ameaça. Reuniões inúteis, caras e tristes. Não havia decisões a tomar porque tudo era resolvido pelos donos da escola. Quem tinha juízo apenas obedecia. Para quê reunião? Se os "talentos" não serão ouvidos, para quê dar-lhes a chance da co-presença? Bobagem. Gastar dinheiro à-toa. Mande-se um e-mail geral com as regras a serem obedecidas e pronto. Vez ou outra, tais reuniões eram preparadas por verdadeiros cerimoniais, com direito a lanche e projetores de última geração. Nas telas, cópias de documentos que poderiam ser lidos no banheiro de casa por cada participante cansado. No escuro, todos lutando contra o sono. Celulares no vibracall brincavam de enviar mensagens engraçadinhas.

O livro do dr. Miller é de muita serventia. Coordenadores e gerentes deveriam incluir, entre suas qualificações, métodos de gestão de informação e de gerenciamento de reuniões. O encontro presencial entre as pessoas de uma empresa é uma das opções de comunicação possíveis. Não é a única. Não é necessário obrigar um grupo de pessoas a se encontrar a cada nova idéia surgida. Reuniões se prestam, basicamente, a informar ou a decidir. Se o caso não for um desses, não serão necessárias. Se for informar sobre assuntos que podem ser divulgados por outros meios, faça-se como for menos dispendioso. Se a decisão for importante, as pessoas devem ser esclarecidas e, de preferência, chegar à reunião prontas para participar. Não devem ser pegas de surpresa ou aparentando uma ingenuidade constrangedora. Quantas vezes o chefe solicita uma tomada de decisão para a qual as pessoas não estão preparadas? Isso pode, muito bem, ser, justamente, uma arapuca para que se decida uma bobagem por falta de reflexão.

Reunião é algo da ordem da chatice. Algumas ferem brutalmente a inteligência dos trabalhadores. Em algumas circunstâncias, é necessário ser corajoso para questionar: é mesmo necessário esse encontro? Porque algumas instituições vêem na reunião uma forma de mostrar serviço, algo como a relação dos políticos com as obras viárias. Dr. Miller tem razão: organizar e conduzir reuniões é uma habilidade diretiva importante. Passarei o restante das minhas férias fazendo a conta de quantas horas já perdi em reuniões inúteis, já que nem ao menos tenho talento para o desenho e a caricatura.

Para ir além






Ana Elisa Ribeiro
Belo Horizonte, 11/4/2008


Quem leu este, também leu esse(s):
01. Noel Rosa de Fabio Gomes
02. Manchester à beira-mar, um filme para se guardar de Renato Alessandro dos Santos
03. Luz sob ossos e sucata: a poesia de Tarso de Melo de Jardel Dias Cavalcanti
04. Nós que aqui estamos pela ópera esperamos de Renato Alessandro dos Santos
05. O dia que nada prometia de Luís Fernando Amâncio


Mais Ana Elisa Ribeiro
Mais Acessadas de Ana Elisa Ribeiro em 2008
01. Uísque ruim, degustador incompetente - 8/8/2008
02. Trocar ponto por pinto pode ser um desastre - 3/10/2008
03. Substantivo impróprio - 25/4/2008
04. Eu e o cursinho pré-vestibular - 22/2/2008
05. Minha coleção de relógios - 31/10/2008


* esta seção é livre, não refletindo necessariamente a opinião do site

ENVIAR POR E-MAIL
E-mail:
Observações:
COMENTÁRIO(S) DOS LEITORES
11/4/2008
10h40min
Ótimo texto, Ana. Este livro deveria ser distribuido pela própria empresa entre os funcionários que participam da reunião, inclusive o chefe, para que todos aprendam a se comportar e como agir. US$ 37 milhões é muito desperdício.
[Leia outros Comentários de Lucas R. Bispo]
COMENTE ESTE TEXTO
Nome:
E-mail:
Blog/Twitter:
* o Digestivo Cultural se reserva o direito de ignorar Comentários que se utilizem de linguagem chula, difamatória ou ilegal;

** mensagens com tamanho superior a 1000 toques, sem identificação ou postadas por e-mails inválidos serão igualmente descartadas;

*** tampouco serão admitidos os 10 tipos de Comentador de Forum.




Digestivo Cultural
Histórico
Quem faz

Conteúdo
Quer publicar no site?
Quer sugerir uma pauta?

Comercial
Quer anunciar no site?
Quer vender pelo site?

Newsletter | Disparo
* Twitter e Facebook
LIVROS




HQ CEBOLINHA 7 + OS NAMORADOS
MAURÍCIO DE SOUZA
GLOBO
(1994)
R$ 7,00



INTRODUÇÃO AO DIREITO DAS AGÊNCIAS REGULADORAS
SÉRGIO GUERRA
FREITAS BASTOS
(2004)
R$ 28,00



COMO DSENVOLVER A MEMÓRIA
JOYCE D.BROTHERS E EDWARD P. EAGAN
RECORD
R$ 11,10



QUEM CONTA UM CONTO 5 (CONTOS) - LITERATURA BRASILEIRA
SAMIR MESERANI (COORD.)
ATUAL
(1990)
R$ 5,00



A SENDA DO HOMEM CELESTE - NARRADO POR UM VERDADEIRO COMBATENTE QUE A PERCORREU
J. G. GICHTEL
POLAR
(2001)
R$ 27,99



ONTEM AO LUAR - VIDA ROMÂNTICA DO POETA DO POVO CATULLO DA PAIXÃO CEARENSE
MURILLO ARAUJO
A NOITE
(1951)
R$ 20,00



HISTÓRIA DA LITERATURA CRISTÃ ANTIGA GREGA E LATINA - VOL. I: DE PAULO À ERA CONSTANTINIANA
CLAUDIO MORESCHINI | ENRICO NORELLI
LOYOLA
(1996)
R$ 52,00



CAVALOS E OBELISCOS
MOACYR SCLIAR
ÁTICA
(2001)
R$ 10,00



OS LUSÍADAS
LUÍS DE CAMÕES
KLICK
R$ 15,00



FILHOS DAS TREVAS
MORRIS WEST
CÍRCULO DO LIVRO
(1957)
R$ 8,70





busca | avançada
29464 visitas/dia
1,1 milhão/mês