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Segunda-feira, 23/6/2008
Referências
Eduardo Mineo

+ de 1900 Acessos

Pelas minhas contas ― revisem, eu sou meio ruim nisso ―, Cassandra's dream é a quarta vez que Woody Allen interpreta Crime e Castigo num filme ― é, né? E toda vez que percebo Woody Allen interpretando Dostoievsky fico um pouco cismado, um pouco com a orelha em pé, como dizem por aí, pensando "pô, de novo?", mas sempre acabo gostando do filme porque, sim, o Woody é muito bom em fazer este tipo de coisa e como alguém poderia ser tão petulante para reclamar de Woody Allen interpretando Dostoievsky pela qüinquagésima vez eu não sei.

Crimes e pecados foi o primeiro a se basear na razão contra a moral, em que o bem sucedido médico conclui que matar sua amante é sua única opção para preservar sua família porque, afinal, a mulher está disposta contar todo o seu caso para todo mundo. É muito razoável da parte dele, ou vai dizer que não?, mas tirar a vida de alguém é também muito atormentador ― embora dirigindo em São Paulo seja bem possível pensar em matar sem a menor chance de remorso ― e, logo após o crime, o médico entra na crise de consciência que é o grande lance do livro Crime e Castigo, que Woody monta no resto do filme e muito bem, acho, principalmente com a boa interpretação de Martin Landau, que faz o próprio médico.

Woody também mexe com a razão e a moral de uma outra forma neste filme quando a garota por quem o personagem de Woody é apaixonado, uma garota linda e formidável ― tudo bem, é a Mia Farrow, mas finjam que é a Scarlett Johansson ―, se casa justamente com o sujeito que os dois até então tiravam o maior sarro, o homem mais desprezível do mundo, alguém tacanho, irremediavelmente tacanho, com um senso de humor fantasticamente patético, com uma masculinidade canina etc. Woody faz um tipo esquisito, tudo bem, mas existe algum fundamento dentro dele, alguém com caráter, que se dá incrivelmente bem com a guria e tudo mais, mas ela resolve, sabe-se lá por quê, se casar com o panaca.

Não é apenas uma mera questão que ocorre freqüentemente nos filmes do Woody Allen, mas é uma das maiores questões da humanidade, esta terrível arbitrariedade das mulheres. Tendo ao seu lado o homem que lhe traria felicidade eterna, por qualquer motivo obscuro prefere um idiota. Em E o vento levou, por exemplo, que é o maior épico sobre a manifestação da burrice na mulher ― superado, talvez, pelo filme da Britney Spears ―, Scarlett O'Hara poderia se casar com o Clark Gable logo no começo e o filme duraria uns quinze minutos. Seriam felizes para sempre, na certa. Mas em vez disso, preferiu passar quatro horas ― quatro horas! ― correndo atrás de um mongolóide qualquer porque, sei lá, seus signos batiam ou coisa que o valha. Arbitrariedade.

Em Match Point, logo no começo já aparece o ator lendo um livro de Dostoievski ― aparece escrito Dostoievski grandão e tal. No filme, um ex-jogador de tênis começa a namorar a irmã de seu melhor amigo. São de família rica e o ex-jogador passa a enxergar muita oportunidade neste relacionamento, uma vez que a família o acolhe muito bem e pode ajudá-lo a enriquecer também. Mas eis que ele se apaixona pela namorada do seu melhor amigo, interpretada pela Scarlett Johansson ― quem manda namorar a Scarlett Johansson? ―, e acaba tendo um caso com ela até descobrir que ele a engravidou. Como ela não pretende interromper a gravidez, ele decide matá-la, pois, caso contrário, isto arruinaria todos os seus futuros planos ― muito lógico também.

Cassandra's Dream é mais amplo, com referência a Irmãos Karamazov e a O Jogador, embora a estrutura do filme seja essencialmente Crime e Castigo. Dois irmãos são de família humilde. Um é viciado em jogo e acaba altamente endividado. Numa visita de um tio rico, pedem ajuda financeira a ele, mas ele, em troca, pede para que matem uma pessoa. Matam. E, entra Crime e Castigo na história. Eu gostei muito da forma como Woody desenrolou o filme, e também da conclusão, embora tal qual os aviões da Gol, este filme demore um pouco pra decolar. Mas depois decola e tudo é muito agradável. Pelo menos se não tiver crianças gritando e gente vomitando ao seu lado ― nada é agradável com esse tipo de coisa ao seu lado.

Referências demais tendem a nos irritar, mas Woody sabe fazer isto sem ser inconveniente. A última noite de Boris Grushenko, Love and death no título original, é um filme basicamente de referência à literatura russa ― e a Bergman também, mas faz de conta que você não viu ―, e é ótimo de assistir, mesmo tendo até referências propositalmente desnecessárias ― que na verdade são as melhores. No que diz respeito a Woody Allen eu sou muito tolerante e tenho sempre uma admiração ridícula por tudo que ele faz etc., mas, sim, o Woody é sempre muito bom em fazer tudo o que ele faz.

(E, bom, errei: eram só três filmes. Mas eu avisei, eu avisei.)


Eduardo Mineo
São Paulo, 23/6/2008

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